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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Outra Casa

 

Faz hoje ou amanhã cinquenta e oito anos que, de livre e espontânea vontade, entrei no Instituto dos Pupilos do Exército. Poderia ter ficado a estudar no liceu Gil Vicente, próximo de casa dos meus Pais. Podia ter tido uma juventude igual à de tantos meus amigos de infância, usufruindo das delícias do aconchego da casa paterna. Quis a “aventura” de um colégio interno, com características castrenses na instrução e educação. Sonhava ser militar. Andei por lá sete anos. Tinha começado a guerra em Angola, havia sete meses, troquei os Pupilos pela Academia Militar para dar continuidade ao meu sonho de criança: ser oficial das Forças Armadas.

Recordo com saudade esses sete anos que me enrijeceram e me inculcaram valores de que me não envergonho. Lá, éramos, essencialmente, alunos militarizados e não sofríamos a influência da Mocidade Portuguesa. A disciplina era castrense e a vida regia-se por toques de corneta desde que nos levantávamos, às seis da manhã, até que nos deitávamos, às vinte e duas e trinta minutos. E tínhamos nas camaratas altifalantes, que ampliavam o som da alvorada, por onde se ouviam também marchas militares.

 

Foi precisa a crise — esta maldita crise — para o “Governo das poupanças”, o “Governo do esbulho” acabar com o meu centenário Instituto, a minha Outra Casa. Portugal está mais pobre, nós sabemo-lo, mas os antigos alunos dos Pupilos do Exército ficam mais pobres do que os restantes cidadãos, porque perdem uma referência que ainda se debruça vetusta e nobre sobre a linha de caminho-de-ferro de Sintra, em Benfica. Um dia destes vou, sozinho, visitar as velhas instalações. Não quero companhia para que se não me veja escorrer pela face aquela lágrima de saudade que teima sempre em surgir quando rememoramos os recantos da nossa juventude, quando olhamos as velhas pedras e paredes que nos falam de nós mesmos noutros tempos distantes. Irei sozinho, na minha romagem de saudade, antes que seja tarde e os portões se fechem para sempre.

Noventa e sete anos... Linda idade!

 

 
Pois é, o Instituto dos Pupilos do Exército faz hoje 97 lindas Primaveras.
Faltam três anos para comemorar o centenário de existência de uma Escola que já foi paradigma de excelência formativa. E, se é verdade que nela funcionaram cursos superiores politécnicos, não foi nessa época que a máxima excelência foi atingida. O verdadeiro período áureo dos Pupilos do Exército rondou o final dos anos 30 até ao termo da década de 40 do século passado. Foi o tempo dos contabilistas e dos engenheiros técnicos que, com pouco mais de 18 anos de idade, tinham ofertas de empregos, como hoje diríamos, milionárias. Porquê? Tão-só porque eram raros os contabilistas e os engenheiros técnicos e, mais do que tudo, porque os saídos do Instituto levavam uma formação militar muito especial o que dava garantias ao empregador de, mesmo tendo em conta a juventude do empregado, haver sentido de responsabilidade, noção de hierarquias e, acima de tudo, disciplina laboral. Eram estas as mais-valias procuradas nos ex-alunos dos Pupilos.
 
A repetição do modelo foi tentada no final dos anos 60 do século XX, mas a posterior alteração política subsequente ao 25 de Abril de 1974 e o fim dos cursos técnicos não deixaram que houvesse o espaço necessário para o ensino ganhar o balanço anterior. A multiplicação de Institutos Politécnicos pelo país veio retirar peso específico aos Pupilos do Exército. As características modificaram-se com a abertura à frequência de alunos externos; para o bem e para o mal, o Instituto mudou. Um certo cariz «mercenário» dos docentes do ensino superior contribuiu para as alterações; perdeu-se o élan de outros tempos; passou a haver clivagens surdas entre os chamados oriundos e os cães — acho que não devemos ter medo de usar os vocábulos da gíria, exactamente, porque eles existiam e faziam parte do quotidiano dos alunos.
Pessoalmente penso que foi uma má aposta a da introdução do ensino politécnico no Instituto; dever-se-ia ter ficado pelo secundário e procurado estabelecer logo a vertente técnica de modo a não se desperdiçar uma idiossincrasia existente… Mas ninguém é bruxo! Quando se tomou a decisão as poucas vozes que se fizeram ouvir contra foram abafadas pela algazarra dos inovadores.
 
O descalabro, depois de um período de grande euforia, foi brutal. Pode dizer-se que a década do Governo de Cavaco Silva marcou o começo do princípio do fim.
 
Hoje o Instituto tem um caminho traçado. Talvez tenha sido doloroso para todos os que sonhavam com glórias impossíveis as quais só eram realizáveis nas suas mentes delirantes. Os Pupilos recuaram quase até à origem, mas, tenho para mim como certo, engatou-se o destino da nossa Casa à locomotiva do futuro e do progresso. A aposta está e vai estar na formação de quadros técnicos com a possibilidade de seguirem, ou não, para a frequência de cursos superiores em escolas civis ou estabelecimentos militares. Esse é o rumo.
Depois de termos vivido a ambição da rã da fábula resta-nos, volvidos cem anos de existência, voltar ao início e recomeçar com perseverança. A crise económica que se aproxima a passos bem largos em vez de ser prejudicial ao Instituto vai catapultá-lo para a frente como Escola a ser usada por todos os servidores do Estado que, tendo baixos rendimentos, queiram dar aos filhos um curso apropriado para imediatamente os encaminhar rumo ao mercado de trabalho sem lhes cortar a possibilidade de prosseguirem estudos superiores se assim o desejarem e forem capazes. E o Estado tirará proveito desta mudança.
 
O inexorável rodar do tempo vai impedir-me de ver reerguer-se altaneiro o Instituto dos Pupilos do Exército, porque as recuperações do ensino não se fazem numa década, nem, talvez, em duas, mas quando chegar a hora de partir levarei comigo a certeza de que a Casa, que há 54 anos me viu entrar através dos seus portões para fazer de mim um homem, vai continuar a oferecer à sociedade portuguesa outros homens que a honrarão no futuro.
 
Parabéns meu velho Pilão!

 

Uma exibição com valor

 

 
Confesso que não fui de propósito ao Centro Comercial Colombo para assistir hoje, domingo, 11 de Maio de 2008, à exibição dos Pupilos do Exército, mas como passei por lá, não me eximi a ver o espectáculo.
 
O centro comercial, na sua majestosa amplitude estava pejado de meninos fardados ou do Colégio Militar ou dos Pupilos do Exército. Curiosamente passou-me despercebida a presença das meninas de Odivelas.
Olhei-os, a todos, criticamente. Queria descobrir diferenças nas fardas e nos comportamentos. Vi de tudo; desde alunos do Colégio Militar bem fardados e garbosamente mostrando as suas botas altas de montar a cavalo até alguns com fardas mal talhadas, amarrotadas e dando nota de certo desleixo; vi o mesmo — com exclusão das botas altas — nos alunos dos Pupilos do Exército. Tanto uns como outros já não usam o debrum de plástico branco por dentro da gola das fardas — tal como trazíamos no meu tempo — o qual dava um ar mais composto ao fecho do colarinho. Ficam com um aspecto desmazelado.
 
Havia no ar uma atmosfera de festa.
Tive imensa sorte, porque quando cheguei à nave central ia começar a actuação dos Pupilos do Exército. Lá estavam presentes os ex-alunos do costume! Acenei a uns e a outros, tendo o Américo Ferreira evitado olhar-me. Paguei-lhe da mesma moeda!
Veio falar comigo o Manuel Andrade — o 298 de 1963 — que está a fazer uma obra de muitíssimo mérito, cuja valia ultrapassa de longe tudo o que se possa imaginar: uma recolha fotográfica dos cem anos do Instituto. É um trabalho como antigamente se dizia «de se lhe tirar o chapéu»… E eu, com muita humildade, tiro-lhe o meu, porque tudo o que não sou capaz de fazer obriga-me a sentir-me pequenino perante quem o faz! Só pelo que já conseguiu executar, o Manuel Andrade entrou, para mim, na galeria dos Grandes Pilões. Será que a Associação saberá honrá-lo como merece? A ver vamos!
 
A exibição começou com o grupo coral. Confesso que desde os meus tempos de criança que não tenho nem ouvido, nem voz, nem capacidade nenhuma para apreciar música e canto, mas, ouvir os alunos do «meu» Instituto cantar, até parece que me deu habilidades especiais. Era a emoção, está visto! Emoção que redobrou quando escutei os aplausos da assistência… E eles vinham do piso térreo, do primeiro e do segundo andar do enorme átrio central do majestoso edifício.
Depois, houve uma altura em que um só aluno cantou com uma excelente voz. A minha mulher, que estava ao meu lado e é dada a entender de canto, disse-me baixinho: — Magnífico! Os olhos marejaram-se-me de lágrimas.
 
Gostei de ver a apresentação da classe de luta, nas suas diferentes modalidades, embora fosse impossível deixar de associá-la às notícias de recontros pugilistas entre os alunos dos Pupilos e os de uma qualquer escola secundária da zona de Benfica. Com aquelas performances ai de quem se meter na frente dalguns dos nossos Pilões! Uma publicidade que aponta para uma Escola onde se desenvolve a agressividade física, talvez não seja a mais conveniente neste momento… Mas os programas já estavam feitos e as actividades destinadas!
 
Em mim, a emoção subiu ao rubro quando se cantou o hino da nossa Casa. A voz embargou-se-me. Não fui capaz de dizer mais do que o «Querer é poder, querer é poder». E disse-o baixinho, com uma lágrima teimosa a saltar-me dos olhos, porque, realmente, ao longo da minha vida, deixei que o nosso lema me entrasse na circulação sanguínea e seja ele quem me comanda os passos.
 
Não fiquei para ver o resto do festival. O que poderia ser melhor do que a exibição dos nossos continuadores?!
 
É verdade que os painéis onde se patenteavam as fotografias do Instituto eram os mais pobres dos três, mas a exibição dos alunos mostrou o equilíbrio entre o canto e a capacidade de lutar. Simbolicamente valeu por uma excelente explanação entre, por um lado, a doçura de sentimentos e a capacidade de expressá-los e, por outro, a mostra viril de expor publicamente a habilidade de vencer os mais duros desafios.
Depois disto, resta dizer aos alunos que é preciso estudar de modo a que os resultados académicos possam estar a um nível mais alto do que o habitual para serem reais e completos os equilíbrios da nossa «Casa tão bela e tão ridente».
Valeu a pena este domingo!

 

A primeira fotografia

 
Até ao século XIX o retrato pintado era um privilégio de nobres endinheirados ou de ricos burgueses. Os pobres, ou simplesmente remediados, passavam pela vida sem deixar do seu rosto qualquer rasto. Com a invenção da máquina fotográfica tudo se modificou: a gente de fracas posses financeiras pôde passar a fazer, em circunstâncias festivas, a reprodução da sua pessoa e dos que lhe eram queridos. Assim, nasceram as galerias de fotografias nas casas burguesas que, de certa forma, copiavam as dos retratos pintados das famílias nobres ou ricas.
 
Ainda nos anos 50 do século passado, entre nós, fazer fotografia era um gasto que se guardava para certas ocasiões; os custos da máquina, do rolo e da revelação pesavam nos magros orçamentos de quase todos os pequenos e médios burgueses. Havia coisas mais necessárias onde gastar dinheiro.
 
Na minha família — naquela onde nasci — tinha a minha Mãe o hábito de colar em álbuns as fotografias que recordavam passeios ou outros momentos de boa-disposição. Ainda os guardo com rigor religioso, porque já só eu e a minha irmã — mais velha sete anos — sabemos conhecer aquelas caras de antigas fotografias de cor sépia. Tenho uma filha — jovem ainda, com vinte e sete anos — que faz questão de ser a depositária das estórias da família. Espero que, quando eu, pela lei da Vida, desaparecer, seja ela a «guardadora» dessas «relíquias», rostos que só conheceu por ouvir falar deles.
 
Ora, vem tudo isto a propósito do facto do antigo condiscípulo e dedicado Pilão Manuel Andrade estar a preparar uma grande recolha de fotografias de ex-alunos dos Pupilos para editar de forma condigna por ocasião do centenário da nossa Casa. Nesse afã conseguiu — feito notável — obter os retratos que o fotógrafo oficial dos Pupilos, dos anos 40, 50 e 60 do século passado, tinha em seu poder, por ainda ser vivo e cultivar o gosto de coleccionar aquelas caras que lhe foram familiares.
Na troca de correspondência que mantive com o Manuel Andrade — um «puto» de entrada em 1963, era eu já um ex-aluno, cadete da Academia Militar — fez-me ele, simpaticamente, chegar agora às mãos a minha primeira fotografia tirada no nosso querido Instituto.
Recordo-me desse dia e, para a posteridade, ficou gravado o meio sorriso que esbocei frente à máquina; era um hábito que havia adquirido em casa dos meus pais, no momento em que enfrentávamos a objectiva de qualquer aparelho fotográfico. Ainda não sabia que por lá, as fotografias não eram para ficar bonitas, mas para posterior identificação. Deveria ter suspeitado, se tivesse estado mais atento à placa com o número que nos iam pondo na frente; número que se nos colou à pele para toda a vida, ao contrário da vontade do legislador, quando, em 1911, mandou fundar o Instituto e especificamente proibiu a identificação dessa forma. Xavier Correia Barreto queria-nos individualizados e identificados pelos nossos nomes e não por algarismos, como então era hábito, nas fileiras militares, com as praças de pré. Outros tempos e outros conceitos de grande modernidade pedagógica para a época. Não vingaram, como muitas outras reformas republicanas.
 
Aqui fica a minha fotografia, aos doze anos, para satisfação de todos quantos não são capazes de imaginar que alguma vez tive essa idade. Foi feita numa manhã de quarta-feira de Outubro — só podia ser, por nesses dias termos as manhãs ocupadas com prática de desporto e instrução militar — do já longínquo ano de 1954.
Bem-haja ao Manuel Andrade.

Uma polémica que não interessa

 

 
O Colégio Militar voltou a ser alvo de um periódico que dá pelo nome de 24 Horas o qual vive, essencialmente, de escândalos. Desta vez, apontam-se mais maus-tratos a uma criancinha que não conseguiu aguentar dois anos de internato. É uma questão polémica que não interessa alimentar, como mais abaixo se verá porquê.
Pessoalmente não acredito nas parangonas do jornal. Uma bofetada dada por um graduado ou um pontapé no traseiro não podem ser classificados com o epíteto de maus-tratos. A ter acontecido qualquer coisa deste género, esta criancinha só demonstra que foi mal-educada até ao momento presente, por não ter estaleca para se aguentar com tais mimos «oferecidos», provavelmente, na sequência de uma demonstração de insubordinação ou como resultado de resistência àquilo que em Sociologia se chama socialização.
 
É evidente que muitos de nós chorámos — não foi o meu caso — nos primeiros tempos de internato. Chorámos por dois motivos: saudades de uma vida que deixáramos de livre vontade ou mais ou menos obrigados; dificuldade de adaptação a um novo sistema onde não éramos o centro das atenções, mas mais um entre muitos mais. Há crianças que não aguentam o somatório destas duas forças. São fracos e incapazes de se superarem, provavelmente como fruto da educação que receberam, antes, em casa dos pais.
Pelo Pilão do meu tempo, passaram alguns, mas poucos.
 
Ora, o que está a acontecer ao Colégio Militar preocupa-me, porque indicia, em meu entender, uma campanha contra uma instituição tutelada pelo Exército, tal como o nosso Instituto. Se as barbas do Colégio estão a arder temos por obrigação ajudá-los e pôr as nossas de molho, porque, mais tarde ou mais cedo, vai, como dizem os Brasileiros, sobrar para nós.
 
Pupilos e Colégio Militar são duas Casas que têm os seus pergaminhos, as suas tradições as suas dignidades. Não são instituições iguais, mas o que as separa é muitíssimo menos do que tudo o que as une. A rivalidade que sempre existiu é nossa, só nossa e entre nós se resolve. Mas é, acima de tudo, uma rivalidade saudável, porque desafia o nosso espírito de emulação; superarmo-nos, em cada momento, para cumprirmos melhor a nossa finalidade, foi sempre assim que olhei para os Meninos da Luz e, tenho a certeza, é deste modo que eles olham para nós.
É evidente que ovelhas negras sempre as houveram quer nos Pupilos quer no Colégio… Ovelhas que nunca foram capazes de ultrapassar a fase da mera rivalidade primária e nunca perceberam que só, essencialmente, foram origens sociais distintas que nos separaram, mas que, por não vivermos num Estado aristocrático, todos somos, afinal, iguais no nascimento e com iguais oportunidades na Vida. E esta última afirmação é tão verdadeira que, ao longo dos quase cem anos de existência dos Pupilos, muitas vezes houve irmãos a frequentarem cada uma das instituições. Do meu tempo, recordo os Aguinchas e o Rui Campos; muito mais antigos, lembro os Taborda e Silva.
 
Que os meus leitores, antigos alunos dos Pupilos, possam meditar nas minhas palavras — não por serem minhas, mas por as julgar ditadas pelo bom senso — e fazer causa comum com o Colégio Militar para nos defendermos enquanto instituições tuteladas pelo Exército e Casas dignas e tradicionalmente honradas por muitos e muitos ex-alunos que souberam levantá-las à posição que hoje ocupam na sociedade portuguesa.
Pelo Colégio Militar, salve, salve, salve!

Uma homenagem que tardava

 
31 de Janeiro é, para todos os republicanos, uma data célebre. Nesse dia, em 1891, estalou, no Porto, a primeira tentativa de implantação da República em Portugal. Contudo, este ano, no 31 de Janeiro de 2008, um Pilão, de quase todos conhecido, celebra a bonita idade de 90 anos com perfeita lucidez e capacidade de trabalho apropriada à idade de… setenta e poucos! É o Augusto Dias o responsável, na prática, pela edição do Boletim da Associação dos Pupilos do Exército.
 
Não sou sócio da APE, não recebo o Boletim, mas nem por isso deixo de reconhecer ao Augusto Dias o extraordinário mérito que lhe cabe pela perseverança e pela lição que nos dá a todos sobre a forma de se poder estar e pertencer a uma Associação sem conflitos nem desavenças.
Realmente, a longevidade de Augusto Dias deve ter-lhe ensinado aquilo que eu ainda não aprendi: é que os garotos, se não morrerem entretanto, hão-de chegar a velhos e perceber quanto de passageiro tem a Vida, quanto ilusórios são os cargos e as honras que eles se atribuem e, acima de tudo, quanto importante é amar uma ideia pelo valor dela mesma. Esta é, por certo, a maior de todas as lições que Augusto Dias dá aos antigos alunos dos Pupilos do Exército: amar a Casa que nos educou, amar o ideal que nos foi ensinado e esquecer os homens que passam, vaidosamente, pelos diferentes cargos da Associação. Ele, na sua sábia e silenciosa modéstia, vai deixando para a posteridade um Boletim que, pelo menos, antes da Internet era o elo de ligação de todos os Pilões… De todos os Pilões que gostavam de ler, porque, há muitos anos, existia entre nós, antigos alunos, o hábito de ler! Talvez não fosse tanto como o desejável, mas era o suficiente para ler de uma ponta à outra o Boletim.
 
Porque a APE vai levar a efeito um almoço de homenagem ao Augusto Dias — já lhe devia ter dado lugar de bem maior destaque! — e, porque não sou sócio, não estarei presente (aliás, a essa hora conto ter chegado a Coimbra onde tomarei assento num colóquio de História). Contudo, porque nutro pelo Augusto Dias uma profunda estima e nele encontro as virtudes de quem soube ser, acima de tudo e de todos, Pilão, não quero deixar de lhe prestar aqui a minha homenagem pessoal. Pessoal e pública, esperando que nos dê a todos o prazer de, dentro de uma década — para os que por cá andarem — lhe darmos o abraço que uma centúria já vivida bem merece.
 
Como republicano que sou, este ano, o 31 de Janeiro, vai ter mais um motivo para ser bem comemorado.
Pelo Augusto Dias, salve, salve, salve!!!

Boas notícias

TGen. Vaz Antunes

 
Foi no Fórum-Pilão XXI que dei com a notícia de o João Nabais, em representação da Associação dos Pupilos do Exército, ter sido recebido pelo TGen. Vaz Antunes, Comandante Geral da Instrução e Doutrina do Exército a quem foi apresentar cumprimentos de Boas Festas. Diz o Nabais (207 de 1960) que é preocupação daquele oficial general escolher os graduados que se destinam a prestar serviço no Instituto dos Pupilos do Exército e que, para dar início a essa orientação, já, em Fevereiro do ano que se aproxima, vai ser lá colocado o actual comandante do Regimento de Infantaria 3 (Beja), Coronel Soares o qual, segundo parece, é um militar muito prestigiado no Exército português.
 
Ficamos à espera, mas temos quase a certeza de que este novo empenho resulta da nova orientação que se pretende dar ao Instituto.
Ao Exército e aos seus Chefes chegaram, por várias vias, palavras como as nossas — as que há muitos meses vimos deixando aqui neste recanto da Internet, mas que muito boa gente consulta e lê com atenção! — as quais, sendo realistas, ajudam a mostrar possíveis saídas para, mantendo vivo e de boa saúde o Instituto dos Pupilos, fazer dele uma Instituição com utilidade para as Forças Armadas e de Segurança e, por arrastamento, para o País.
 
O menino Jesus, o Pai Natal ou, mais em concreto, o general Vaz Antunes ouviram as preces que fomos lançando para o ar. Os Pupilos do Exército continuam a ter um lugar e um papel a desempenhar em Portugal. De momento, esse papel pode até parecer mais modesto do que foi no passado, mas, estamos certos, é uma situação temporária. Nada impede, por exemplo, que o Instituto, pela sua vertente tecnológica, não venha a ter uma função específica como escola preparatória para ingresso nas Academias militares! Ele poderia ser o estabelecimento onde todos os jovens do País que, findo o 10.º ano de escolaridade, sentindo vocação para o ingresso em qualquer uma das Academias ou Escolas Militares ou de Segurança, frequentariam, para adquirirem preparação final escolar e pré-militar, passando a ser requisito selectivo para o concurso, findo o 12.º ano. Nesta possível orientação, quem não fosse admitido nas Academias teria um diploma que, para além de lhe conferir a possibilidade de continuar os estudos no ensino superior civil, lhe dava garantias de conhecimentos práticos para áreas técnicas e tecnológicas específicas. Os alunos do Colégio Militar não perderiam as suas valências nem a possibilidade de ingresso nas fileiras militares, mas o Instituto dos Pupilos do Exército funcionaria como escola preparatória específica para todos quantos quisessem, vindos dos mais recônditos lugares de País, concorrer às Academias — Militar, da Força Aérea, de Polícia e Escola Naval. Aluno que não entrasse ou desistisse por ter concluído que a sua vocação castrense não existia teria sempre oportunidade a concorrer a uma Universidade ou, no caso de não o desejar fazer, estar habilitado com uma profissão tecnológica intermédia. Deste modo, ninguém perdia nada e as Academias ganhavam alunos com uma formação castrense mais apropriada e avançada.
 
Esperamos que o senhor Tenente-General Vaz Antunes possa ler esta sugestão e a consiga fazer aceitar aos mais altos níveis das Forças Armadas. É gratuita a ideia e deixamo-la como prenda de Natal para os mais altos responsáveis pela instrução e recrutamento dos futuros oficiais das Forças Armadas e de Segurança. Não desejamos agradecimentos… Ficamos satisfeitos se a aceitarem.

O seu a seu dono

 
Nunca tive receio de reconhecer os meus erros, porque só não erra quem não faz seja o que for. Errar e ficar teimosamente agarrado ao erro quando toda a gente o vê e só o seu autor o desconhece é, para além de pouco elegante, pouco educado.
 
Tudo isto resulta de ontem ter recebido uma chamada telefónica do meu caro Amigo Trancoso, o 161 de 1952, velho companheiro de muitos cursos, que, residindo no Funchal, quase todas as semanas me dá o prazer de uma ou duas horas de conversa. Boa conversa, porque bom conversador.
No meio do diz tu digo eu de ontem, veio à baila a última postagem aqui colocada. Fala-se do nosso saudoso Arménio Janeira e da sua brilhante carreira no Ministério das Finanças; fala-se, também, da idade da fotografia e, feitas contas para cá e para lá do Atlântico, cheguei à conclusão que me tinha enganado na sua datação e, por conseguinte, no título da postagem. Correctamente, deveria ser «Falta um ano e pouco para 50», pois, tal como a acertada análise do Janeira apontava, a data da fotografia é Fevereiro de 1959.
 
Afinal, quem fez as contas com pressa fui eu e não o Arménio!
Com um pedido de desculpas, aqui está a devida rectificação, porque «o seu deve ser dado ao seu dono»!

Falta pouco para 50

 
É verdade, faltam poucos meses — três somente — para a fotografia que apresento em cima fazer 50 anos de existência. Andava eu no 1.º ano do Curso de Contabilistas, ou seja, qualquer coisa como 10.º ano de escolaridade, segundo a linguagem dos dias que correm.
 
Recuar àquela época faz-me lembrar tantas e tão variadas coisas! Há, contudo, uma que me assalta o espírito com muita mais força que toda a catadupa de lembranças nas quais estou mergulhado: a nossa formação técnica.
 
Realmente, no 10.º ano de escolaridade, faltavam-me mais dois para ter um curso médio concluído.
Curso médio era a designação oficial da época para os estudos que se situavam entre aquilo que se chamava «secundário» e «superior». O curso médio era uma excelente habilitação para a vida, porque, ter-se uma formação que ensinava a «fazer com conhecimento científico» era básico e essencial num tempo em que não havia a actual proliferação de licenciados: isto de todos o serem acaba por conduzir à situação de se não dar valor ao grau académico, facto que tem de nos levar a rever a tradicional forma de tratamento deferente por «Senhor Dr.».
 
Reparem, os meus leitores, nesta coisa estranha que a Democracia — e eu sou o mais possível a favor dela, embora não concorde com certas distorções que nos trouxe — gerou em Portugal: acabou com os cursos profissionais e técnicos para fazer de toda a gente pessoas aptas a frequentar uma Universidade ou Instituto Politécnico; depois, fez proliferar, entre nós, inúmeras instituições de ensino superior; acabou com o ensino técnico e profissional.
Um bom mecânico de automóveis, nos tempos que correm, para o ser tem de começar como aprendiz, mesmo que possua o 12.º ano de escolaridade. O mesmo acontece com um electricista e com um empregado de escritório que se limite a ser operador de um qualquer sistema computorizado.
 
Há 50 anos, não havia tantos «Senhores Drs.» mas, também os que existiam tinha emprego certo! Há 50 anos havia mecânicos que aprendiam a profissão começando como moços de recados na oficina e havia aqueles que, por terem frequentado, até ao 9.º ano de escolaridade, um curso técnico de indústria, estavam habilitados com um diploma e começavam imediatamente como responsáveis por oficinas — grandes ou pequenas.
Nos cursos médios — que, realmente, não tem equivalência aos bacharelatos politécnicos — discutia-se pouca teoria e aprendia-se, privilegiando a prática, mas uma prática cujos fundamentos teóricos não se deitavam fora.
No Curso de Contabilistas estuda-se Direito Comercial de modo a saber como proceder correctamente e não para defender causas em tribunal; estudava-se Direito Civil para se conhecer o essencial sobre contratos e direitos sucessórios; estudava-se Economia Política para se saber como se desenvolviam a micro e a macro economias com vista a perceber o papel da empresa no mercado e não para se discutir finanças ou políticas económicas; estudava-se Cálculo Financeiro, aplicando todos os conhecimentos matemáticos necessários à resolução de problemas comuns de juros simples e compostos e outras formas de capitalizar, mas nunca na perspectiva de aprofundar o que não fazia falta à função.
Com os conhecimentos práticos e teórico-práticos aprendidos e com a experiência de vida profissional chegava-se, na maioria dos casos, a poder discutir questões concretas com licenciados em Economia ou em Finanças (não havia a licenciatura em Gestão de Empresas).
 
Há 50 anos a sociedade do conhecimento era restrita, por força do regime político que governava o país, mas tinha a vantagem de ser hierarquizada, facto que, só por si, não constitui pecado. Pecado é terem-se hoje licenciados a servir à mesa de restaurantes, a venderem de porta em porta, a cobrarem dívidas difíceis, a fazerem de conta que sabem trabalhar num escritório, a reverem jornais, a limparem piscinas, enfim, com todas as possíveis e imagináveis profissões das quais não passam de meros aprendizes.
 
O desejo de democratizar o ensino levou à distorção do mesmo ensino, provocando profissionais traumatizados, porque não fazem nada daquilo para que foram supostamente preparados.
 
Parece que, finalmente, se começa a ter, muito a medo, alguma consciência do grave prejuízo que foi para a nossa economia e para a estruturação do tecido laboral o fim dos cursos técnico-profissionais e dos cursos médios de comércio e indústria.
Claro que não preconizo a repetição do modelo de há 40 anos! Mas defendo que é necessário voltar a fazer bons técnicos para enfrentarem o mercado de trabalho com competência e conhecimento sem que, com isto, esteja a preconizar que um técnico deva deixar de estudar; não. Aos técnicos pode e deve estar aberta a porta de acesso à universidade, desde que ele tenha consciência que tal frequência ou só lhe vai trazer mais cultura geral ou, em casos excepcionais, mais cultura técnica.
 
O Instituto dos Pupilos do Exército pode voltar a ser pioneiro no ensino técnico sem complexos, porque aos seus antigos alunos estarão acessíveis as mesmas oportunidades que tem qualquer outro estudante que conclua o 12.º ano de escolaridade com a vantagem de estarem habilitados com condições imediatas de utilidade laboral.
 
Que se feche o ciclo dos bacharelatos para dar início ao ciclo dos cursos técnicos, porque, todos quantos frequentámos os cursos médios andámos naquela Casa, afinal, até ao 12.º ano de escolaridade e nada mais. E, com isso, fomos capazes de ir muito longe!

A cultura do silêncio

 
Fui ver o «Fórum Pilão XXI». Vou algumas vezes na semana para me informar sobre o que há de novo, já que da Associação nada quero saber. Antigo aluno sou; sócio da Associação não sou… Eu e muitos mais que passaram pelo Instituto!
 
Fui ver e dei com uma postagem do Raul Dionísio (o 244 de 1948, que por lapso — estranho e lamentável lapso em quem sempre foi bastante, talvez excessivamente, atinado — se atribuiu o ano de entrada em 1938) que aconselha os utilizadores do referido fórum a terem «cautela» com o «inimigo» para, com o que por lá se diz, não lhe fornecer «munições».
 
De facto, o Raul Dionísio que entrou, no Instituto, no ano de 1948 parece que deveria ter entrado no ano de 1928 e não de 1938 como ele próprio diz que entrou. Está velho ou gagá! Está tomado do pânico dos pobres velhotes que já não podem com meia gata pelo rabo!
 
O Raul Dionísio deu-nos, de várias maneiras, o exemplo do que não se deve fazer.
Não dar «munições» ao «inimigo»?! Mas qual inimigo? Será que ele está convencido de que no Estado-Maior do Exército não se sabe tudo o que se possa dizer no «Fórum Pilão XXI»? Que os antigos alunos do Colégio Militar não sabem tudo o que se passa nos Pupilos do Exército? Que os pais dos alunos desconhecem como está o Instituto? Que os pais de potenciais alunos não se vão informar sobre a situação da instituição onde querem meter os seus filhos? A quem é que o Raul Dionísio, e todos os Dionísios da Associação, quer enganar? Quem é para ele o «inimigo»?
 
De facto, ao enganar-se na data de entrada, deveria tê-lo feito com mais rigor e, em vez de 1938, poderia ter posto 1918… Ia-lhe mais a calhar!
 
Raul Dionísio, eu até tinha de ti uma excelente opinião, mas não te imaginava tão ingénuo! Ou tão retrógrado! O tempo dos silêncios, do faz de conta que está tudo bem quando está tudo mal, já lá vai! Acabou há 33 anos, como tu muito bem sabes!
Era no tempo da ditadura que se tentava tapar o sol com a peneira. Agora a peneira está rota ou já nem existe; os podres estão à mostra e quanto mais se chafurdar neles mais se lhes retira o pus, a matéria putrefacta, tudo o que contamina e não é saudável.
Tem de vir tudo abaixo para que se construa algo de bom. Pode ser um Pilão mais pequeno, mais modesto nos seus objectivos, mas será uma Casa que honrará os seus fundadores os quais simplesmente desejaram fazer um Instituto Profissional. Foi o valor e o empenho dos alunos e dos professores que geraram a dinâmica necessária para ele, o Instituto, crescer e se modificar, deixando de ser uma instituição profissional — no verdadeiro sentido em que foi criada — para se transformar numa Escola de referência. Mas esse processo de transformação foi feito à luz do dia, sem silêncios comprometedores, sem «faz de conta», sem mentiras, sem aquilo que tu, do alto da tua quase centenária idade mental aconselhas.
 
Se não tens mais nada para oferecer aos ex-alunos do Instituto não lhes ofereças a degradante imagem de um Pilão que noutros tempos foi referência positiva, mostrando-se como caquéctica referência negativa.
 
O «Fórum Pilão XXI» foi concebido, no ardor de uma luta, pela generosidade de homens que queriam discutir o Pilão e estava virado para a centúria onde nos resta acabar os nossos dias, quer dizer, estava virado para o Futuro; não foi obra de velhos, carcomidos pelo receio da sua própria sombra; não foi imaginado para se continuarem ignóbeis processos de sigilo. Não, foi pensado como o local de encontro de quem tem tudo a dizer e nada teme.
 
O «Fórum Pilão XXI» tem estado reduzido, de há um ano a esta parte, a uma mera agência promotora de encontros de interesses nem sempre confessáveis! Agora que tinha ganho um sopro de interesse, vieste tu, Raul Dionísio, com os receios dos antiquados membros dos Conselho de «veneráveis» tentar calá-lo! Calá-lo com os métodos que se vivem nessa Associação onde se cultiva tudo o que de mais contrário há aos valores ensinados ou apreendidos no Instituto.
 
Não tenho paciência!