Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...
Domingo, 25 de Maio de 2008
Noventa e sete anos... Linda idade!

 

 
Pois é, o Instituto dos Pupilos do Exército faz hoje 97 lindas Primaveras.
Faltam três anos para comemorar o centenário de existência de uma Escola que já foi paradigma de excelência formativa. E, se é verdade que nela funcionaram cursos superiores politécnicos, não foi nessa época que a máxima excelência foi atingida. O verdadeiro período áureo dos Pupilos do Exército rondou o final dos anos 30 até ao termo da década de 40 do século passado. Foi o tempo dos contabilistas e dos engenheiros técnicos que, com pouco mais de 18 anos de idade, tinham ofertas de empregos, como hoje diríamos, milionárias. Porquê? Tão-só porque eram raros os contabilistas e os engenheiros técnicos e, mais do que tudo, porque os saídos do Instituto levavam uma formação militar muito especial o que dava garantias ao empregador de, mesmo tendo em conta a juventude do empregado, haver sentido de responsabilidade, noção de hierarquias e, acima de tudo, disciplina laboral. Eram estas as mais-valias procuradas nos ex-alunos dos Pupilos.
 
A repetição do modelo foi tentada no final dos anos 60 do século XX, mas a posterior alteração política subsequente ao 25 de Abril de 1974 e o fim dos cursos técnicos não deixaram que houvesse o espaço necessário para o ensino ganhar o balanço anterior. A multiplicação de Institutos Politécnicos pelo país veio retirar peso específico aos Pupilos do Exército. As características modificaram-se com a abertura à frequência de alunos externos; para o bem e para o mal, o Instituto mudou. Um certo cariz «mercenário» dos docentes do ensino superior contribuiu para as alterações; perdeu-se o élan de outros tempos; passou a haver clivagens surdas entre os chamados oriundos e os cães — acho que não devemos ter medo de usar os vocábulos da gíria, exactamente, porque eles existiam e faziam parte do quotidiano dos alunos.
Pessoalmente penso que foi uma má aposta a da introdução do ensino politécnico no Instituto; dever-se-ia ter ficado pelo secundário e procurado estabelecer logo a vertente técnica de modo a não se desperdiçar uma idiossincrasia existente… Mas ninguém é bruxo! Quando se tomou a decisão as poucas vozes que se fizeram ouvir contra foram abafadas pela algazarra dos inovadores.
 
O descalabro, depois de um período de grande euforia, foi brutal. Pode dizer-se que a década do Governo de Cavaco Silva marcou o começo do princípio do fim.
 
Hoje o Instituto tem um caminho traçado. Talvez tenha sido doloroso para todos os que sonhavam com glórias impossíveis as quais só eram realizáveis nas suas mentes delirantes. Os Pupilos recuaram quase até à origem, mas, tenho para mim como certo, engatou-se o destino da nossa Casa à locomotiva do futuro e do progresso. A aposta está e vai estar na formação de quadros técnicos com a possibilidade de seguirem, ou não, para a frequência de cursos superiores em escolas civis ou estabelecimentos militares. Esse é o rumo.
Depois de termos vivido a ambição da rã da fábula resta-nos, volvidos cem anos de existência, voltar ao início e recomeçar com perseverança. A crise económica que se aproxima a passos bem largos em vez de ser prejudicial ao Instituto vai catapultá-lo para a frente como Escola a ser usada por todos os servidores do Estado que, tendo baixos rendimentos, queiram dar aos filhos um curso apropriado para imediatamente os encaminhar rumo ao mercado de trabalho sem lhes cortar a possibilidade de prosseguirem estudos superiores se assim o desejarem e forem capazes. E o Estado tirará proveito desta mudança.
 
O inexorável rodar do tempo vai impedir-me de ver reerguer-se altaneiro o Instituto dos Pupilos do Exército, porque as recuperações do ensino não se fazem numa década, nem, talvez, em duas, mas quando chegar a hora de partir levarei comigo a certeza de que a Casa, que há 54 anos me viu entrar através dos seus portões para fazer de mim um homem, vai continuar a oferecer à sociedade portuguesa outros homens que a honrarão no futuro.
 
Parabéns meu velho Pilão!

 



publicado por Luís Alves de Fraga às 00:09
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Domingo, 11 de Maio de 2008
Uma exibição com valor

 

 
Confesso que não fui de propósito ao Centro Comercial Colombo para assistir hoje, domingo, 11 de Maio de 2008, à exibição dos Pupilos do Exército, mas como passei por lá, não me eximi a ver o espectáculo.
 
O centro comercial, na sua majestosa amplitude estava pejado de meninos fardados ou do Colégio Militar ou dos Pupilos do Exército. Curiosamente passou-me despercebida a presença das meninas de Odivelas.
Olhei-os, a todos, criticamente. Queria descobrir diferenças nas fardas e nos comportamentos. Vi de tudo; desde alunos do Colégio Militar bem fardados e garbosamente mostrando as suas botas altas de montar a cavalo até alguns com fardas mal talhadas, amarrotadas e dando nota de certo desleixo; vi o mesmo — com exclusão das botas altas — nos alunos dos Pupilos do Exército. Tanto uns como outros já não usam o debrum de plástico branco por dentro da gola das fardas — tal como trazíamos no meu tempo — o qual dava um ar mais composto ao fecho do colarinho. Ficam com um aspecto desmazelado.
 
Havia no ar uma atmosfera de festa.
Tive imensa sorte, porque quando cheguei à nave central ia começar a actuação dos Pupilos do Exército. Lá estavam presentes os ex-alunos do costume! Acenei a uns e a outros, tendo o Américo Ferreira evitado olhar-me. Paguei-lhe da mesma moeda!
Veio falar comigo o Manuel Andrade — o 298 de 1963 — que está a fazer uma obra de muitíssimo mérito, cuja valia ultrapassa de longe tudo o que se possa imaginar: uma recolha fotográfica dos cem anos do Instituto. É um trabalho como antigamente se dizia «de se lhe tirar o chapéu»… E eu, com muita humildade, tiro-lhe o meu, porque tudo o que não sou capaz de fazer obriga-me a sentir-me pequenino perante quem o faz! Só pelo que já conseguiu executar, o Manuel Andrade entrou, para mim, na galeria dos Grandes Pilões. Será que a Associação saberá honrá-lo como merece? A ver vamos!
 
A exibição começou com o grupo coral. Confesso que desde os meus tempos de criança que não tenho nem ouvido, nem voz, nem capacidade nenhuma para apreciar música e canto, mas, ouvir os alunos do «meu» Instituto cantar, até parece que me deu habilidades especiais. Era a emoção, está visto! Emoção que redobrou quando escutei os aplausos da assistência… E eles vinham do piso térreo, do primeiro e do segundo andar do enorme átrio central do majestoso edifício.
Depois, houve uma altura em que um só aluno cantou com uma excelente voz. A minha mulher, que estava ao meu lado e é dada a entender de canto, disse-me baixinho: — Magnífico! Os olhos marejaram-se-me de lágrimas.
 
Gostei de ver a apresentação da classe de luta, nas suas diferentes modalidades, embora fosse impossível deixar de associá-la às notícias de recontros pugilistas entre os alunos dos Pupilos e os de uma qualquer escola secundária da zona de Benfica. Com aquelas performances ai de quem se meter na frente dalguns dos nossos Pilões! Uma publicidade que aponta para uma Escola onde se desenvolve a agressividade física, talvez não seja a mais conveniente neste momento… Mas os programas já estavam feitos e as actividades destinadas!
 
Em mim, a emoção subiu ao rubro quando se cantou o hino da nossa Casa. A voz embargou-se-me. Não fui capaz de dizer mais do que o «Querer é poder, querer é poder». E disse-o baixinho, com uma lágrima teimosa a saltar-me dos olhos, porque, realmente, ao longo da minha vida, deixei que o nosso lema me entrasse na circulação sanguínea e seja ele quem me comanda os passos.
 
Não fiquei para ver o resto do festival. O que poderia ser melhor do que a exibição dos nossos continuadores?!
 
É verdade que os painéis onde se patenteavam as fotografias do Instituto eram os mais pobres dos três, mas a exibição dos alunos mostrou o equilíbrio entre o canto e a capacidade de lutar. Simbolicamente valeu por uma excelente explanação entre, por um lado, a doçura de sentimentos e a capacidade de expressá-los e, por outro, a mostra viril de expor publicamente a habilidade de vencer os mais duros desafios.
Depois disto, resta dizer aos alunos que é preciso estudar de modo a que os resultados académicos possam estar a um nível mais alto do que o habitual para serem reais e completos os equilíbrios da nossa «Casa tão bela e tão ridente».
Valeu a pena este domingo!

 



publicado por Luís Alves de Fraga às 16:32
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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008
A primeira fotografia

 
Até ao século XIX o retrato pintado era um privilégio de nobres endinheirados ou de ricos burgueses. Os pobres, ou simplesmente remediados, passavam pela vida sem deixar do seu rosto qualquer rasto. Com a invenção da máquina fotográfica tudo se modificou: a gente de fracas posses financeiras pôde passar a fazer, em circunstâncias festivas, a reprodução da sua pessoa e dos que lhe eram queridos. Assim, nasceram as galerias de fotografias nas casas burguesas que, de certa forma, copiavam as dos retratos pintados das famílias nobres ou ricas.
 
Ainda nos anos 50 do século passado, entre nós, fazer fotografia era um gasto que se guardava para certas ocasiões; os custos da máquina, do rolo e da revelação pesavam nos magros orçamentos de quase todos os pequenos e médios burgueses. Havia coisas mais necessárias onde gastar dinheiro.
 
Na minha família — naquela onde nasci — tinha a minha Mãe o hábito de colar em álbuns as fotografias que recordavam passeios ou outros momentos de boa-disposição. Ainda os guardo com rigor religioso, porque já só eu e a minha irmã — mais velha sete anos — sabemos conhecer aquelas caras de antigas fotografias de cor sépia. Tenho uma filha — jovem ainda, com vinte e sete anos — que faz questão de ser a depositária das estórias da família. Espero que, quando eu, pela lei da Vida, desaparecer, seja ela a «guardadora» dessas «relíquias», rostos que só conheceu por ouvir falar deles.
 
Ora, vem tudo isto a propósito do facto do antigo condiscípulo e dedicado Pilão Manuel Andrade estar a preparar uma grande recolha de fotografias de ex-alunos dos Pupilos para editar de forma condigna por ocasião do centenário da nossa Casa. Nesse afã conseguiu — feito notável — obter os retratos que o fotógrafo oficial dos Pupilos, dos anos 40, 50 e 60 do século passado, tinha em seu poder, por ainda ser vivo e cultivar o gosto de coleccionar aquelas caras que lhe foram familiares.
Na troca de correspondência que mantive com o Manuel Andrade — um «puto» de entrada em 1963, era eu já um ex-aluno, cadete da Academia Militar — fez-me ele, simpaticamente, chegar agora às mãos a minha primeira fotografia tirada no nosso querido Instituto.
Recordo-me desse dia e, para a posteridade, ficou gravado o meio sorriso que esbocei frente à máquina; era um hábito que havia adquirido em casa dos meus pais, no momento em que enfrentávamos a objectiva de qualquer aparelho fotográfico. Ainda não sabia que por lá, as fotografias não eram para ficar bonitas, mas para posterior identificação. Deveria ter suspeitado, se tivesse estado mais atento à placa com o número que nos iam pondo na frente; número que se nos colou à pele para toda a vida, ao contrário da vontade do legislador, quando, em 1911, mandou fundar o Instituto e especificamente proibiu a identificação dessa forma. Xavier Correia Barreto queria-nos individualizados e identificados pelos nossos nomes e não por algarismos, como então era hábito, nas fileiras militares, com as praças de pré. Outros tempos e outros conceitos de grande modernidade pedagógica para a época. Não vingaram, como muitas outras reformas republicanas.
 
Aqui fica a minha fotografia, aos doze anos, para satisfação de todos quantos não são capazes de imaginar que alguma vez tive essa idade. Foi feita numa manhã de quarta-feira de Outubro — só podia ser, por nesses dias termos as manhãs ocupadas com prática de desporto e instrução militar — do já longínquo ano de 1954.
Bem-haja ao Manuel Andrade.


publicado por Luís Alves de Fraga às 13:49
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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008
Uma polémica que não interessa

 

 
O Colégio Militar voltou a ser alvo de um periódico que dá pelo nome de 24 Horas o qual vive, essencialmente, de escândalos. Desta vez, apontam-se mais maus-tratos a uma criancinha que não conseguiu aguentar dois anos de internato. É uma questão polémica que não interessa alimentar, como mais abaixo se verá porquê.
Pessoalmente não acredito nas parangonas do jornal. Uma bofetada dada por um graduado ou um pontapé no traseiro não podem ser classificados com o epíteto de maus-tratos. A ter acontecido qualquer coisa deste género, esta criancinha só demonstra que foi mal-educada até ao momento presente, por não ter estaleca para se aguentar com tais mimos «oferecidos», provavelmente, na sequência de uma demonstração de insubordinação ou como resultado de resistência àquilo que em Sociologia se chama socialização.
 
É evidente que muitos de nós chorámos — não foi o meu caso — nos primeiros tempos de internato. Chorámos por dois motivos: saudades de uma vida que deixáramos de livre vontade ou mais ou menos obrigados; dificuldade de adaptação a um novo sistema onde não éramos o centro das atenções, mas mais um entre muitos mais. Há crianças que não aguentam o somatório destas duas forças. São fracos e incapazes de se superarem, provavelmente como fruto da educação que receberam, antes, em casa dos pais.
Pelo Pilão do meu tempo, passaram alguns, mas poucos.
 
Ora, o que está a acontecer ao Colégio Militar preocupa-me, porque indicia, em meu entender, uma campanha contra uma instituição tutelada pelo Exército, tal como o nosso Instituto. Se as barbas do Colégio estão a arder temos por obrigação ajudá-los e pôr as nossas de molho, porque, mais tarde ou mais cedo, vai, como dizem os Brasileiros, sobrar para nós.
 
Pupilos e Colégio Militar são duas Casas que têm os seus pergaminhos, as suas tradições as suas dignidades. Não são instituições iguais, mas o que as separa é muitíssimo menos do que tudo o que as une. A rivalidade que sempre existiu é nossa, só nossa e entre nós se resolve. Mas é, acima de tudo, uma rivalidade saudável, porque desafia o nosso espírito de emulação; superarmo-nos, em cada momento, para cumprirmos melhor a nossa finalidade, foi sempre assim que olhei para os Meninos da Luz e, tenho a certeza, é deste modo que eles olham para nós.
É evidente que ovelhas negras sempre as houveram quer nos Pupilos quer no Colégio… Ovelhas que nunca foram capazes de ultrapassar a fase da mera rivalidade primária e nunca perceberam que só, essencialmente, foram origens sociais distintas que nos separaram, mas que, por não vivermos num Estado aristocrático, todos somos, afinal, iguais no nascimento e com iguais oportunidades na Vida. E esta última afirmação é tão verdadeira que, ao longo dos quase cem anos de existência dos Pupilos, muitas vezes houve irmãos a frequentarem cada uma das instituições. Do meu tempo, recordo os Aguinchas e o Rui Campos; muito mais antigos, lembro os Taborda e Silva.
 
Que os meus leitores, antigos alunos dos Pupilos, possam meditar nas minhas palavras — não por serem minhas, mas por as julgar ditadas pelo bom senso — e fazer causa comum com o Colégio Militar para nos defendermos enquanto instituições tuteladas pelo Exército e Casas dignas e tradicionalmente honradas por muitos e muitos ex-alunos que souberam levantá-las à posição que hoje ocupam na sociedade portuguesa.
Pelo Colégio Militar, salve, salve, salve!


publicado por Luís Alves de Fraga às 11:55
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008
Uma homenagem que tardava

 
31 de Janeiro é, para todos os republicanos, uma data célebre. Nesse dia, em 1891, estalou, no Porto, a primeira tentativa de implantação da República em Portugal. Contudo, este ano, no 31 de Janeiro de 2008, um Pilão, de quase todos conhecido, celebra a bonita idade de 90 anos com perfeita lucidez e capacidade de trabalho apropriada à idade de… setenta e poucos! É o Augusto Dias o responsável, na prática, pela edição do Boletim da Associação dos Pupilos do Exército.
 
Não sou sócio da APE, não recebo o Boletim, mas nem por isso deixo de reconhecer ao Augusto Dias o extraordinário mérito que lhe cabe pela perseverança e pela lição que nos dá a todos sobre a forma de se poder estar e pertencer a uma Associação sem conflitos nem desavenças.
Realmente, a longevidade de Augusto Dias deve ter-lhe ensinado aquilo que eu ainda não aprendi: é que os garotos, se não morrerem entretanto, hão-de chegar a velhos e perceber quanto de passageiro tem a Vida, quanto ilusórios são os cargos e as honras que eles se atribuem e, acima de tudo, quanto importante é amar uma ideia pelo valor dela mesma. Esta é, por certo, a maior de todas as lições que Augusto Dias dá aos antigos alunos dos Pupilos do Exército: amar a Casa que nos educou, amar o ideal que nos foi ensinado e esquecer os homens que passam, vaidosamente, pelos diferentes cargos da Associação. Ele, na sua sábia e silenciosa modéstia, vai deixando para a posteridade um Boletim que, pelo menos, antes da Internet era o elo de ligação de todos os Pilões… De todos os Pilões que gostavam de ler, porque, há muitos anos, existia entre nós, antigos alunos, o hábito de ler! Talvez não fosse tanto como o desejável, mas era o suficiente para ler de uma ponta à outra o Boletim.
 
Porque a APE vai levar a efeito um almoço de homenagem ao Augusto Dias — já lhe devia ter dado lugar de bem maior destaque! — e, porque não sou sócio, não estarei presente (aliás, a essa hora conto ter chegado a Coimbra onde tomarei assento num colóquio de História). Contudo, porque nutro pelo Augusto Dias uma profunda estima e nele encontro as virtudes de quem soube ser, acima de tudo e de todos, Pilão, não quero deixar de lhe prestar aqui a minha homenagem pessoal. Pessoal e pública, esperando que nos dê a todos o prazer de, dentro de uma década — para os que por cá andarem — lhe darmos o abraço que uma centúria já vivida bem merece.
 
Como republicano que sou, este ano, o 31 de Janeiro, vai ter mais um motivo para ser bem comemorado.
Pelo Augusto Dias, salve, salve, salve!!!


publicado por Luís Alves de Fraga às 20:04
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Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007
Boas notícias

TGen. Vaz Antunes

 
Foi no Fórum-Pilão XXI que dei com a notícia de o João Nabais, em representação da Associação dos Pupilos do Exército, ter sido recebido pelo TGen. Vaz Antunes, Comandante Geral da Instrução e Doutrina do Exército a quem foi apresentar cumprimentos de Boas Festas. Diz o Nabais (207 de 1960) que é preocupação daquele oficial general escolher os graduados que se destinam a prestar serviço no Instituto dos Pupilos do Exército e que, para dar início a essa orientação, já, em Fevereiro do ano que se aproxima, vai ser lá colocado o actual comandante do Regimento de Infantaria 3 (Beja), Coronel Soares o qual, segundo parece, é um militar muito prestigiado no Exército português.
 
Ficamos à espera, mas temos quase a certeza de que este novo empenho resulta da nova orientação que se pretende dar ao Instituto.
Ao Exército e aos seus Chefes chegaram, por várias vias, palavras como as nossas — as que há muitos meses vimos deixando aqui neste recanto da Internet, mas que muito boa gente consulta e lê com atenção! — as quais, sendo realistas, ajudam a mostrar possíveis saídas para, mantendo vivo e de boa saúde o Instituto dos Pupilos, fazer dele uma Instituição com utilidade para as Forças Armadas e de Segurança e, por arrastamento, para o País.
 
O menino Jesus, o Pai Natal ou, mais em concreto, o general Vaz Antunes ouviram as preces que fomos lançando para o ar. Os Pupilos do Exército continuam a ter um lugar e um papel a desempenhar em Portugal. De momento, esse papel pode até parecer mais modesto do que foi no passado, mas, estamos certos, é uma situação temporária. Nada impede, por exemplo, que o Instituto, pela sua vertente tecnológica, não venha a ter uma função específica como escola preparatória para ingresso nas Academias militares! Ele poderia ser o estabelecimento onde todos os jovens do País que, findo o 10.º ano de escolaridade, sentindo vocação para o ingresso em qualquer uma das Academias ou Escolas Militares ou de Segurança, frequentariam, para adquirirem preparação final escolar e pré-militar, passando a ser requisito selectivo para o concurso, findo o 12.º ano. Nesta possível orientação, quem não fosse admitido nas Academias teria um diploma que, para além de lhe conferir a possibilidade de continuar os estudos no ensino superior civil, lhe dava garantias de conhecimentos práticos para áreas técnicas e tecnológicas específicas. Os alunos do Colégio Militar não perderiam as suas valências nem a possibilidade de ingresso nas fileiras militares, mas o Instituto dos Pupilos do Exército funcionaria como escola preparatória específica para todos quantos quisessem, vindos dos mais recônditos lugares de País, concorrer às Academias — Militar, da Força Aérea, de Polícia e Escola Naval. Aluno que não entrasse ou desistisse por ter concluído que a sua vocação castrense não existia teria sempre oportunidade a concorrer a uma Universidade ou, no caso de não o desejar fazer, estar habilitado com uma profissão tecnológica intermédia. Deste modo, ninguém perdia nada e as Academias ganhavam alunos com uma formação castrense mais apropriada e avançada.
 
Esperamos que o senhor Tenente-General Vaz Antunes possa ler esta sugestão e a consiga fazer aceitar aos mais altos níveis das Forças Armadas. É gratuita a ideia e deixamo-la como prenda de Natal para os mais altos responsáveis pela instrução e recrutamento dos futuros oficiais das Forças Armadas e de Segurança. Não desejamos agradecimentos… Ficamos satisfeitos se a aceitarem.


publicado por Luís Alves de Fraga às 15:21
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Domingo, 2 de Dezembro de 2007
O seu a seu dono
 
Nunca tive receio de reconhecer os meus erros, porque só não erra quem não faz seja o que for. Errar e ficar teimosamente agarrado ao erro quando toda a gente o vê e só o seu autor o desconhece é, para além de pouco elegante, pouco educado.
 
Tudo isto resulta de ontem ter recebido uma chamada telefónica do meu caro Amigo Trancoso, o 161 de 1952, velho companheiro de muitos cursos, que, residindo no Funchal, quase todas as semanas me dá o prazer de uma ou duas horas de conversa. Boa conversa, porque bom conversador.
No meio do diz tu digo eu de ontem, veio à baila a última postagem aqui colocada. Fala-se do nosso saudoso Arménio Janeira e da sua brilhante carreira no Ministério das Finanças; fala-se, também, da idade da fotografia e, feitas contas para cá e para lá do Atlântico, cheguei à conclusão que me tinha enganado na sua datação e, por conseguinte, no título da postagem. Correctamente, deveria ser «Falta um ano e pouco para 50», pois, tal como a acertada análise do Janeira apontava, a data da fotografia é Fevereiro de 1959.
 
Afinal, quem fez as contas com pressa fui eu e não o Arménio!
Com um pedido de desculpas, aqui está a devida rectificação, porque «o seu deve ser dado ao seu dono»!


publicado por Luís Alves de Fraga às 10:38
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Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007
Falta pouco para 50

 
É verdade, faltam poucos meses — três somente — para a fotografia que apresento em cima fazer 50 anos de existência. Andava eu no 1.º ano do Curso de Contabilistas, ou seja, qualquer coisa como 10.º ano de escolaridade, segundo a linguagem dos dias que correm.
 
Recuar àquela época faz-me lembrar tantas e tão variadas coisas! Há, contudo, uma que me assalta o espírito com muita mais força que toda a catadupa de lembranças nas quais estou mergulhado: a nossa formação técnica.
 
Realmente, no 10.º ano de escolaridade, faltavam-me mais dois para ter um curso médio concluído.
Curso médio era a designação oficial da época para os estudos que se situavam entre aquilo que se chamava «secundário» e «superior». O curso médio era uma excelente habilitação para a vida, porque, ter-se uma formação que ensinava a «fazer com conhecimento científico» era básico e essencial num tempo em que não havia a actual proliferação de licenciados: isto de todos o serem acaba por conduzir à situação de se não dar valor ao grau académico, facto que tem de nos levar a rever a tradicional forma de tratamento deferente por «Senhor Dr.».
 
Reparem, os meus leitores, nesta coisa estranha que a Democracia — e eu sou o mais possível a favor dela, embora não concorde com certas distorções que nos trouxe — gerou em Portugal: acabou com os cursos profissionais e técnicos para fazer de toda a gente pessoas aptas a frequentar uma Universidade ou Instituto Politécnico; depois, fez proliferar, entre nós, inúmeras instituições de ensino superior; acabou com o ensino técnico e profissional.
Um bom mecânico de automóveis, nos tempos que correm, para o ser tem de começar como aprendiz, mesmo que possua o 12.º ano de escolaridade. O mesmo acontece com um electricista e com um empregado de escritório que se limite a ser operador de um qualquer sistema computorizado.
 
Há 50 anos, não havia tantos «Senhores Drs.» mas, também os que existiam tinha emprego certo! Há 50 anos havia mecânicos que aprendiam a profissão começando como moços de recados na oficina e havia aqueles que, por terem frequentado, até ao 9.º ano de escolaridade, um curso técnico de indústria, estavam habilitados com um diploma e começavam imediatamente como responsáveis por oficinas — grandes ou pequenas.
Nos cursos médios — que, realmente, não tem equivalência aos bacharelatos politécnicos — discutia-se pouca teoria e aprendia-se, privilegiando a prática, mas uma prática cujos fundamentos teóricos não se deitavam fora.
No Curso de Contabilistas estuda-se Direito Comercial de modo a saber como proceder correctamente e não para defender causas em tribunal; estudava-se Direito Civil para se conhecer o essencial sobre contratos e direitos sucessórios; estudava-se Economia Política para se saber como se desenvolviam a micro e a macro economias com vista a perceber o papel da empresa no mercado e não para se discutir finanças ou políticas económicas; estudava-se Cálculo Financeiro, aplicando todos os conhecimentos matemáticos necessários à resolução de problemas comuns de juros simples e compostos e outras formas de capitalizar, mas nunca na perspectiva de aprofundar o que não fazia falta à função.
Com os conhecimentos práticos e teórico-práticos aprendidos e com a experiência de vida profissional chegava-se, na maioria dos casos, a poder discutir questões concretas com licenciados em Economia ou em Finanças (não havia a licenciatura em Gestão de Empresas).
 
Há 50 anos a sociedade do conhecimento era restrita, por força do regime político que governava o país, mas tinha a vantagem de ser hierarquizada, facto que, só por si, não constitui pecado. Pecado é terem-se hoje licenciados a servir à mesa de restaurantes, a venderem de porta em porta, a cobrarem dívidas difíceis, a fazerem de conta que sabem trabalhar num escritório, a reverem jornais, a limparem piscinas, enfim, com todas as possíveis e imagináveis profissões das quais não passam de meros aprendizes.
 
O desejo de democratizar o ensino levou à distorção do mesmo ensino, provocando profissionais traumatizados, porque não fazem nada daquilo para que foram supostamente preparados.
 
Parece que, finalmente, se começa a ter, muito a medo, alguma consciência do grave prejuízo que foi para a nossa economia e para a estruturação do tecido laboral o fim dos cursos técnico-profissionais e dos cursos médios de comércio e indústria.
Claro que não preconizo a repetição do modelo de há 40 anos! Mas defendo que é necessário voltar a fazer bons técnicos para enfrentarem o mercado de trabalho com competência e conhecimento sem que, com isto, esteja a preconizar que um técnico deva deixar de estudar; não. Aos técnicos pode e deve estar aberta a porta de acesso à universidade, desde que ele tenha consciência que tal frequência ou só lhe vai trazer mais cultura geral ou, em casos excepcionais, mais cultura técnica.
 
O Instituto dos Pupilos do Exército pode voltar a ser pioneiro no ensino técnico sem complexos, porque aos seus antigos alunos estarão acessíveis as mesmas oportunidades que tem qualquer outro estudante que conclua o 12.º ano de escolaridade com a vantagem de estarem habilitados com condições imediatas de utilidade laboral.
 
Que se feche o ciclo dos bacharelatos para dar início ao ciclo dos cursos técnicos, porque, todos quantos frequentámos os cursos médios andámos naquela Casa, afinal, até ao 12.º ano de escolaridade e nada mais. E, com isso, fomos capazes de ir muito longe!


publicado por Luís Alves de Fraga às 19:51
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Sábado, 29 de Setembro de 2007
A cultura do silêncio

 
Fui ver o «Fórum Pilão XXI». Vou algumas vezes na semana para me informar sobre o que há de novo, já que da Associação nada quero saber. Antigo aluno sou; sócio da Associação não sou… Eu e muitos mais que passaram pelo Instituto!
 
Fui ver e dei com uma postagem do Raul Dionísio (o 244 de 1948, que por lapso — estranho e lamentável lapso em quem sempre foi bastante, talvez excessivamente, atinado — se atribuiu o ano de entrada em 1938) que aconselha os utilizadores do referido fórum a terem «cautela» com o «inimigo» para, com o que por lá se diz, não lhe fornecer «munições».
 
De facto, o Raul Dionísio que entrou, no Instituto, no ano de 1948 parece que deveria ter entrado no ano de 1928 e não de 1938 como ele próprio diz que entrou. Está velho ou gagá! Está tomado do pânico dos pobres velhotes que já não podem com meia gata pelo rabo!
 
O Raul Dionísio deu-nos, de várias maneiras, o exemplo do que não se deve fazer.
Não dar «munições» ao «inimigo»?! Mas qual inimigo? Será que ele está convencido de que no Estado-Maior do Exército não se sabe tudo o que se possa dizer no «Fórum Pilão XXI»? Que os antigos alunos do Colégio Militar não sabem tudo o que se passa nos Pupilos do Exército? Que os pais dos alunos desconhecem como está o Instituto? Que os pais de potenciais alunos não se vão informar sobre a situação da instituição onde querem meter os seus filhos? A quem é que o Raul Dionísio, e todos os Dionísios da Associação, quer enganar? Quem é para ele o «inimigo»?
 
De facto, ao enganar-se na data de entrada, deveria tê-lo feito com mais rigor e, em vez de 1938, poderia ter posto 1918… Ia-lhe mais a calhar!
 
Raul Dionísio, eu até tinha de ti uma excelente opinião, mas não te imaginava tão ingénuo! Ou tão retrógrado! O tempo dos silêncios, do faz de conta que está tudo bem quando está tudo mal, já lá vai! Acabou há 33 anos, como tu muito bem sabes!
Era no tempo da ditadura que se tentava tapar o sol com a peneira. Agora a peneira está rota ou já nem existe; os podres estão à mostra e quanto mais se chafurdar neles mais se lhes retira o pus, a matéria putrefacta, tudo o que contamina e não é saudável.
Tem de vir tudo abaixo para que se construa algo de bom. Pode ser um Pilão mais pequeno, mais modesto nos seus objectivos, mas será uma Casa que honrará os seus fundadores os quais simplesmente desejaram fazer um Instituto Profissional. Foi o valor e o empenho dos alunos e dos professores que geraram a dinâmica necessária para ele, o Instituto, crescer e se modificar, deixando de ser uma instituição profissional — no verdadeiro sentido em que foi criada — para se transformar numa Escola de referência. Mas esse processo de transformação foi feito à luz do dia, sem silêncios comprometedores, sem «faz de conta», sem mentiras, sem aquilo que tu, do alto da tua quase centenária idade mental aconselhas.
 
Se não tens mais nada para oferecer aos ex-alunos do Instituto não lhes ofereças a degradante imagem de um Pilão que noutros tempos foi referência positiva, mostrando-se como caquéctica referência negativa.
 
O «Fórum Pilão XXI» foi concebido, no ardor de uma luta, pela generosidade de homens que queriam discutir o Pilão e estava virado para a centúria onde nos resta acabar os nossos dias, quer dizer, estava virado para o Futuro; não foi obra de velhos, carcomidos pelo receio da sua própria sombra; não foi imaginado para se continuarem ignóbeis processos de sigilo. Não, foi pensado como o local de encontro de quem tem tudo a dizer e nada teme.
 
O «Fórum Pilão XXI» tem estado reduzido, de há um ano a esta parte, a uma mera agência promotora de encontros de interesses nem sempre confessáveis! Agora que tinha ganho um sopro de interesse, vieste tu, Raul Dionísio, com os receios dos antiquados membros dos Conselho de «veneráveis» tentar calá-lo! Calá-lo com os métodos que se vivem nessa Associação onde se cultiva tudo o que de mais contrário há aos valores ensinados ou apreendidos no Instituto.
 
Não tenho paciência!


publicado por Luís Alves de Fraga às 17:14
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007
O meu tímpano do ouvido, os Pupilos e o Colégio Militar

 
Estava de férias — uma curta interrupção nas minhas actividades docentes e de investigação — quando dei, através do blog de um jovem antigo aluno do Colégio Militar, com a notícia do 24 Horas sobre a anulação de inscrição de 23 alunos no referido estabelecimento como consequência de um outro ter sofrido a perfuração do tímpano em resultado de uma bofetada de um aluno graduado.
 
Recuei, mentalmente, ao ano de 1955 ou 1956 e recordei-me de uma estória da qual fui protagonista quando era ainda aluno do Instituto dos Pupilos do Exército. Não posso deixar de contá-la para se estabelecerem comparações e tirar conclusões. Provavelmente, a minha estória não constitui caso único tanto no Instituto dos Pupilos  do Exército como no Colégio Militar.
 
Nesses anos recuados andava em voga uma canção portuguesa cujos versos já não recordo, mas lembro-me de parte da adaptação que nós, alunos, fizemos. Dizia assim: «A sopeira de Famalicão/ Que não era bonita nem boa/ … / Já vai para a cama/ Dormir com o patrão/ etc.».
Ora, numa bela tarde, vindo um pelotão formado da 2.ª para a 1.ª Secção, passa por nós, na travessa de S. Domingos de Benfica, uma empregadita de servir que ouviu, antes da segunda metade da formatura, algum «engraçado» cantar-lhe os versos da cançoneta em moda. A moça não terá gostado — não sei se por se achar «bonita» ou «boa» ou, por ir ou não ir para a cama com o patrão — e, vai daí, apresenta queixa ao sargento de dia. Este, como era hábito na época, por não ver grande mal no acontecimento, falou com o aluno comandante de batalhão para que fosse chamado à atenção o engraçadinho autor do dito que tanto ofendera a sopeira.
Depois do jantar, como era da praxe, forma o pelotão nos claustros e começa o interrogatório. Devo dizer que tivemos de formar nas posições que ocupávamos à tarde. Eu, como um dos mais altos, vinha na cauda da formatura.
 
Como se recordam os «jovens» do meu tempo, as horas destinadas às actividades extra-escolares eram poucas e, depois do jantar, era o momento que pessoalmente reservava para ler um jornal ou uma revista; estar ali na formatura, sofrendo colectivamente um interrogatório estúpido, constituía um verdadeiro tormento para mim.
Como ninguém se acusava, o graduado — comandante de secção — finalista, salvo erro, 344, Dores, garantiu que se o responsável se desse a conhecer nada lhe acontecia.
 
Farto de esperar pelo meu tempo de leitura, consciente de não ter sido eu o autor da ocorrência, num repente, decidi acusar-me: — Fui eu, gritei lá do fundo.
O Dores não esteve com meias medidas. Mandou-me avançar até ele e, mal tinha chegado, fui «aviado» com uma valente chapada na face esquerda (que me apanhou o ouvido) acompanhada da seguinte frase: — Heroísmos são para o campo de batalha!... Eles, os graduados, sabiam que os versos tinham sido cantados por alguém que vinha na primeira metade do pelotão.
 
A dor foi aguda e, quando me assoei, o ar saía pelo ouvido esquerdo. Tinha sofrido uma perfuração.
No dia seguinte, à hora da revista de saúde, fui ao médico queixar-me de ter levado uma bolada no ouvido, quando jogava andebol. O clínico — uma suma «inteligência» que por lá andava — «descobriu» que eu tinha, afinal, um furúnculo no ouvido e vá de me aplicar com três ou quatro gotas de um qualquer produto. Claro que, ao chegar ao refeitório, tive de voltar em braços para a enfermaria pois havia perdido toda a noção de equilíbrio. Passei a tarde deitado sobre o lado esquerdo para escorrer o líquido entrado e, no dia seguinte, que era sábado, lá vim a casa onde, ao meu pai, enfermeiro de profissão, contei de novo a estória da bola e do «tratamento» aplicado pelo médico. Ele observou-me e proibiu-me de tomar banho sem antes ter resguardado o ouvido com um bom bocado de algodão e de me assoar com esforço. O tímpano havia de se regenerar. E não é que se regenerou sem perda de audição! Ainda anda por cá, sem problemas.
 
Ficou-me a lição: Heroísmos, só no campo de batalha!
 
Depois da estória resta perguntar-me: — Que tipos de gente andam os pais de hoje a formar? Que tipo de gente são os filhos dos pais de hoje?
Se há 50 anos eu tivesse dito a verdade ao médico e ao meu pai o máximo que teria ocorrido era o Dores ouvir uma forte reprimenda do Director e o meu pai ter-me dito qualquer coisa do género: — Quem te manda ser parvo e chamares a ti uma responsabilidade que te não cabia?
 
Que os meios violentos devem estar ausentes dos sistemas educativos, todos nós o sabemos, mas nem sempre se perde grande coisa com a aplicação de uma bofetada dada a tempo… Mais vale isso do que ver um filho nos «suaves» braços da toxicodependência!
 
Como pai, avô e coronel, antes de saber as razões, estou solidário com o graduado do Colégio Militar e em total desacordo com os papás dos meninos que desistem da inscrição das suas doces crianças naquele estabelecimento de ensino. O graduado deve saber conter os seus impulsos e os papás devem deixar de colocar algodão em rama no caminho das suas criancinhas… E não é preciso operar um tímpano perfurado, digo eu, que disso sei bastante!


publicado por Luís Alves de Fraga às 08:53
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Domingo, 24 de Junho de 2007
O Pilão em destaque no Exército

 

Pois é, a APE tem tido o cuidado de anunciar no Fórum XXI as sucessivas palestras que por lá se fazem para salas mais ou menos às moscas, mas esqueceu-se de dar relevo ao último número do Jornal do Exército que, como se pode ver na fotografia em cima, tem a capa inteiramente dedicada ao nosso Instituto!

E qual o motivo deste silêncio sepulcral por parte da Direcção?

 

Como dizia o Senhor Banana, das duas três: ou porque lhe passou à margem o Jornal do Exército, o que me parece absurdo e impossível; ou porque não há ninguém na Associação para abrir a correspondência e ver o que interessa; ou, finalmente, porque a notícia que dá origem à capa e que ocupa as páginas centrais — 9 (nove) páginas no total — não vai de acordo com os sonhos de grandeza que a Direcção alimentou entre a massa associativa.

 

Esta última hipótese é capaz de ser a mais verdadeira!

 

E o que diz de tão importante o Jornal do Exército?

Pois quem tenha curiosidade carregue em cima das fotografias que insiro e leia o que por lá se diz. Mas para os que já tem dificuldades de visão eu faço uma síntese:

 

Que o IMPE deixe de ministrar o ensino superior e o Ensino Básico e Secundário e passe a leccionar «cursos de especialização tecnológica nas áreas tradicionalmente ministradas no Instituto, com fortes ligações à Instituição Militar, (….). Este novo modelo formativo, (…), prevê, em primeiro lugar, as possibilidades de adopção de cursos com apetência para as Forças Armadas e indústrias de defesa, incluindo a formação inicial tendo como projecção as empresas estratégicas nacionais, (…). O novo modelo prevê ainda a formação de quadros técnicos para os PALOP, ao abrigo das cooperações entre o Estado Português e os Estados membros desses países. (…). Ontem como hoje é necessário afirmar os valores intrínsecos do IMPE, nomeadamente a aliança entre o saber doutrinário (sustentáculo de todo o conhecimento) e a sua base ou aplicação experimental, sem a qual todo o saber é vácuo. (…). A enquadrar um modelo de ensino que se tem revelado ajustado às necessidades do País encontram-se valores que intrinsecamente caracterizam o espírito pilónico [sic] e que contribuíram significativamente para estabelecer um vínculo incorruptível entre várias gerações de ex-alunos que a esta casa [sic] permanecerão ligados durante a sua vida».

 

 

Não levo mais longe a transcrição para não roubar o prazer da leitura (aliás, difícil, embora possível de se conseguir com bastante paciência!) aos meus visitantes, mas não posso deixar de realçar que o projecto adoptado, afinal, pela Chefia do Exército parece ter sido inspirado no muito que tenho deixado escrito tanto no Boletim (quando ainda era sócio), no Fórum Pilão XXI e neste blogue que é consultado por muitos e variados visitantes, vindos de todos os quadrantes da vida nacional.

Não sinto vaidade por ter estado sempre no verdadeiro e único caminho possível para o Pilão, mas sinto-me satisfeito por ter vencido a razão e o bom senso que me nortearam no que fui dizendo nestes últimos anos.

O Instituto vai sobreviver norteado para o seu destino histórico e vai continuar a dar homens e cidadãos válidos para este Portugal que é de todos nós. Vai continuar na senda da formação de técnicos que serão bem preparados se tiver professores à altura da sua missão; vai continuar a dar gente válida para servir o Estado e as empresas estratégicas nacionais; vai continuar a fornecer gente para guarnecer as fileiras militares; e, se tudo isto não fosse suficiente, vai formar quadros técnicos para os países africanos de expressão oficial portuguesa, ou seja, vai agora desenvolver a acção formativa que durante a ditadura não foi possível, por não ter havido vontade política, e que durante a 1.ª República não houve tempo para realizar.

 

Fechou-se um ciclo e outro vai abrir-se. Auguramos bons resultados para o que aí vem.

Estamos de parabéns!



publicado por Luís Alves de Fraga às 22:20
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2007
Sem medo dos bons exemplos

 
Hoje vou ser muito sintético.
Há vários meses que acompanho de perto o blogue de um ex-aluno do Colégio Militar, o jovem Ricardo Neto Galvão, ao qual resolveu dar um nome sugestivo: «Sonho, Coragem & Devoção».
Aconselho os meus leitores, especialmente os alunos e antigos alunos dos Pupilos do Exército, a irem até lá e darem uma espreitadela.
Há, no dia 3 de Junho deste ano que corre, uma postagem muito curiosa. É um vídeo de uma peça de teatro — minúscula, mas esclarecedora — representada por alunos dos primeiros anos. Demora um pouco a “carregar”, mas, depois vale a pena ser vista e lida (é legendada, por causa da fraca qualidade do som). Ali, sem complexos, assumem-se, a par das qualidades do bicentenário Colégio, as dificuldades presentes — nomeadamente a falta de ingresso de novos alunos; ali, com coragem, declara-se que está nas mãos dos alunos resolver esta situação. Implicitamente, fica no ar a mensagem de que, sem choros nem ranger de dentes, quanto melhores forem os alunos do Colégio Militar, mais possibilidades há de ultrapassar os problemas actuais.
 
É isto que falta no nosso Instituto! É isto que falta à Associação dos Pupilos do Exército reconhecer!
Nada se pode fazer pela nossa Casa, se os alunos que a frequentam não forem exemplares. Exemplares, acima de tudo, nos estudos — todos nós sabemos que temos potencialidades desportivas! É importantíssimo que o nível de exigência vá subindo de ano para ano, que os incentivos ao estudo se tornem realidades, que o acompanhamento dos alunos mais fracos se transforme não numa porta aberta para a facilidade, mas num caminho para a verdadeira aprendizagem.
 
Não acredito em soluções que descaracterizem os Pupilos do Exército. Não acredito em soluções que passem pela manutenção dos cursos superiores. Não acredito em sistemas de semi-internato (o que é semi-interno também é semi-externo, acabando por não ser absolutamente nada!). Acredito que o ensino secundário tem de criar duas vias simultâneas: a que possibilita a continuação dos estudos em estabelecimentos de ensino superior e a que habilita com uma profissão com utilidade no aparelho do Estado (com admissão imediata para todos os alunos que queiram empregar-se após a conclusão do 12.º ano de escolaridade). Acredito que só mantendo o regime de formação militar, sem perdas de características (e, se possível, recuperando algumas que estão esquecidas desde há quase trinta anos) é que se torna conveniente e interessante o curso dos Pupilos do Exército.
 
Malabarismos para, a qualquer preço, manter os portões do nosso Instituto abertos, isso nunca! Isso é renegar um passado e uma tradição, que já a temos. Os Pupilos têm de se assumir naquilo que foram e têm vindo a ser: uma escola profissionalizante com educação militarizada. Foi isso que distinguiu, no passado, os Pupilos do Exército do Colégio Militar. Foi isso que nos valorizou como Escola diferenciada; é isso que nos pode garantir a sobrevivência no futuro próximo.
Malabarismos para manter um “cadáver” com aparência de ser vivo, é mórbido e próprio de espíritos pouco elevados. Se tiver que acabar, que acabe o Instituto dos Pupilos do Exército como acabam as árvores, de pé e com dignidade.


publicado por Luís Alves de Fraga às 23:37
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Domingo, 20 de Maio de 2007
Alexandre Cabral e os Pupilos do Exército

 
Há dias tomei conhecimento de que a Associação dos Pupilos do Exército (APE) — da qual, felizmente, já não sou sócio por vontade própria — decidiu homenagear a memória do antigo aluno Alexandre Cabral (que muitos de nós só sabem ter escrito um livro com o título Malta Brava). Em abono da mais elementar honestidade intelectual, tenho de aplaudir a iniciativa.
 
Claro que, como era fácil de imaginar, o salão de honra, bar, sala de jogo e salão de exposição — pois para tudo serve a maior divisão da sede da APE — estava literalmente às moscas, não fosse a presença de umas quantas «almas caridosas» que «vão a todas». Disto mesmo deu notícia um dos mais recentes trabalhadores voluntários da referida Associação. Da Direcção só compareceu ao acto um elemento (presumo que tenha sido o presidente da mesma).
Mais palavras para quê?
 
Quando, por iniciativa da APE, se vai homenagear uma das mais destacadas — ou talvez mesmo a mais destacada — figura intelectual, de todos os tempos, do Instituto dos Pupilos do Exército e não está presente, em força e peso, a Direcção da Associação é porque alguma coisa se passa de muito mau no seio da mesma. É porque a Casa de que muitos se orgulham de ter frequentado não criou assim um escol tão evidente quanto se apregoa aos quatro ventos.
Duvido mesmo que a maioria dos antigos alunos tenha lido o romance Malta Brava e que conheça onde e como se destacou o seu autor. Duvido que saibam que Alexandre Cabral foi a maior autoridade e o mais excelente conhecedor de Camilo Castelo Branco (não me estou a referir àquele ser que se passeia pela televisão e que dá pelo sobrenome de Castel Branco!); que, para além de Malta Brava, escreveu contos maravilhosos e realistas que compilou nos livros O Sol Nascerá um Dia, Contos da Europa e da África e Histórias do Zaire, tal como a novela Terra Quente, e os romances Fonte da Telha e Margem Norte. Deixou, também, uma peça de teatro intitulada As Duas Faces. Deve acrescentar-se, ainda, Memórias de um Resistente.
 
Conheci Alexandre Cabral nos Pupilos, no final da década de 50 do século passado, quando ali foi fazer, aos alunos, uma palestra que intitulou «Camilo Castelo Branco e a questão do viscondado». Ouviu-o atentamente, não só por se tratar de um ex-aluno «famoso», mas também por já nessa altura ser um escritor de nomeada. Se calhar, serão poucos os condiscípulos do meu tempo que se recordam desse magnífico serão!
Muitos anos mais tarde, fruto de relações familiares, tive oportunidade de contactar com ele em brevíssimos encontros. Pouco ou nada falámos do Instituto, porque sempre me pareceu não ser da sua inteira simpatia recordar esses tempos longínquos.
 
Em anos transactos, desgastei-me em pequenas polémicas no «Fórum XXI» — suposto ponto de encontro, na Net, de antigos alunos — sobre o pouco honroso lugar ocupado pelo Instituto no ranking das escolas do ensino secundário nacional.
Chamei a atenção para a necessidade de se «repreender» os professores e os alunos pela sua falta de exigência, pelo seu pouco empenhamento nos estudos, pela ausência de acompanhamento a que, afinal, todos estão votados. Sempre houve quem apresentasse mil e uma razões justificativas, que desculpavam formadores e formandos.
 
Soube de homenagens feitas ao aluno que alcançou um lugar notável num qualquer campeonato de esgrima — vai saltar já alguém pronto a chamar-me a atenção para o facto de não ser «um qualquer campeonato»… —, soube de um ágape em homenagem (ou seria de apoio?) ao presidente da Câmara Municipal de Loures, sei de jantares de ex-alunos militares (ao qual, afinal, também podem ir os civis) para comemorar o aniversário do Instituto, sei de homenagens que já houve ao antigo aluno Medina Carreira — que dá tanta importância aos Pupilos como eu dou à primeira camisa que vesti —, sei tudo isto e pasmo perante a mentalidade distorcida que colectivamente apresenta a massa de Pilões. Mas, sinceramente e sem qualquer mágoa, felicito-me por me ter desligado da APE, porque, realmente, mantendo a minha condição de antigo aluno, cada vez mais me convenço de que nada tenho a ver com todos aqueles que apregoam a sua passagem pelo vetusto convento de São Domingos e se proclamam de sócios da tal Associação. Ao menos, não posso ser acusado de ter faltado à homenagem a Alexandre Cabral… Mas leio atentamente as páginas que deixou sobre Camilo Castelo Branco, porque assim, pelo menos, aprendo alguma coisa!

 



publicado por Luís Alves de Fraga às 18:11
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Segunda-feira, 7 de Maio de 2007
Há cinquenta e dois anos

 
A fotografia que antecede esta pequena crónica tem cinquenta e dois anos e alguns meses — foi tirada no dia 25 de Março de 1955.
Para ajudar à identificação, eu sou o terceiro a contar da esquerda, na última fila de cócoras.
Curiosamente, recordo-me muito bem de nos juntarmos lá em cima, no começo dos «campos» da 2.ª Secção, quando ainda não havia nada mais do que o velho ginásio… Por estranho que possa parecer, a nossa vista perdia-se pelo meio dos terrenos com árvores e muros que dividiam as propriedades até se enxergar, à distância, um pouco do primeiro anel do destruído estádio do Benfica — que tinha sido inaugurado nesse ano, talvez uns meses antes.
 
Recordo o momento em que alguém disse: — Malta toca a juntar para tirar uma fotografia. Éramos a turma B do 2.º ano do ciclo geral preparatório.
Como sempre fui avesso à identificação de pessoas por números — fazendo jus, afinal, ao que se determina no Decreto que criou o Instituto, em 1911, que, claramente, estipula que os alunos serão conhecidos pelos seus nomes e não pelos números — já esqueci a identificação de uma boa parte dos meus companheiros de fotografia; recordo algumas alcunhas e um ou outro nome.
 
Eu tinha entrado em Outubro do ano anterior e vivia, naquela altura, os meus primeiros meses de Casa. Tudo, ou quase tudo, era uma novidade. Começava a fazer as primeiras amizades. Lá estão o Marreiros e o Pinheiro, primeiros Amigos com quem me entendi na fase de adaptação.
 
Ao olhar para esta fotografia — agora ampliada com o auxílio das novas tecnologias digitais — tenho uma estranha sensação. Havia em quase todos nós — nas fisionomias, na postura, na vestimenta — um ar boçal, alguma coisa que, de facto, não anda longe daquilo que muitos velhos companheiros não querem admitir: uma forma de estar idêntica à de meros asilados.
Amplie o leitor a fotografia (basta clicar em cima da mesma) e verifique por si próprio. Tenha sentido crítico e ponha de lado esse «bairrismo» que lhe obstrui a compreensão.
Tínhamos ou não um ar de pategos? Era ou não horrível aquela horrível samarra azul, aquele barrete enfiado na cabeça como se fosse uma boina?
 
Penso que deveríamos dar de nós mesmos uma imagem muito pouco lisonjeira quando marchávamos pela estrada de Benfica, entre a 1.ª e a 2.ª Secção. Deveríamos parecer internos de algum estabelecimento destinado à infância desvalida!
Na minha opinião, não vale a pena tentar tapar o sol com a peneira, porque é pura perda de tempo. É mais curial admitir o que é evidente, embora nos cause uma certa dor cá dentro; nos provoque, até, uma certa vergonha. Mas, como não me canso de repetir, a pior mentira é a que dizemos a nós mesmos. Sejamos honestos. Olhemos de frente para a fotografia, para as nossas caras, para as nossas posições e tenhamos a coragem de reconhecer que estávamos entregues a nós mesmos, que ninguém zelava por nós, que ninguém nos impunha a obrigação de cuidarmos da nossa aparência, de ganharmos uma maneira de estar — talvez, até, de ser — que não fosse bronca.
 
Tenho outras fotografias de anos mais recentes em que este desmazelo desapareceu, em que se alteraram comportamentos e aparências e, ao comparar, pergunto-me se não terá pesado bastante nessa mudança o simples facto de o director ter passado a residir no Instituto, vigiando-nos, a todas as horas e momentos, obrigando-nos a cuidarmo-nos, a sentirmo-nos dignos de nós mesmos.
Quem como eu é militar de carreira sabe perfeitamente que a alteração de atitude é fundamental para a mudança de comportamentos. Um comandante exigente dá origem a uma tropa cheia de panache; uma tropa entregue a si mesma rapidamente se transforma num bando.
Em 1955 nós éramos um bando com um ar saloio, rufião até desmazelado.
Queiram os deuses que, por falta de acompanhamento e de vigilância, os alunos destes anos que correm não tenham o mesmo aspecto exterior que nós tínhamos há cinquenta e dois. Seria muito triste que tal acontecesse.


publicado por Luís Alves de Fraga às 23:18
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Sábado, 21 de Abril de 2007
A história de uma fotografia

 
Tudo começou quando estava eu na 4.ª classe (hoje chamado 4.º ano de escolaridade). Os meus pais, já nos dois últimos meses de aulas, receosos dos exames de admissão aos liceus, às escolas técnicas e aos Pupilos do Exército, haviam-me arranjado uma explicadora para fazer revisões e exercícios de todo o tipo de modo a garantir o maior êxito nas provas que se avizinhavam.
 
Na sala onde a saudosa senhora pacientemente recapitulava toda a matéria recebia também explicações uma jovem, uns meses mais velha do que eu, loira, com uma voz esganiçada, uns olhos vivos, palavra fácil, muito vistosa. Nos meus doze anos fiquei, logo de imediato, apaixonado pela criatura. Uma paixão, que como todas as que ao longo da vida fui tendo, não tinha explicação. Estava apaixonado, porque estava. Ela dava-me volta ao estômago e à cabeça.
 
A menina morava a meio caminho de casa dos meus pais e da residência da explicadora. Isso foi razão suficiente para, sempre que podia, me fazer encontrado com a jovem — de quem vou ocultar, naturalmente, o nome porque, estará viva e não acho importante referi-lo — e com ela trocar meia dúzia de palavras banais, pois outra coisa não sabe dizer um garoto no começo da puberdade.
 
Nesse ano, por falta de vaga, não entrei no Instituto. Os meus pais, acertadamente, matricularam-me no ciclo preparatório, numa escola que ficava exactamente algumas centenas de metros mais à frente da casa da jovem menina. Os «ocasionais» encontros foram-se repetindo e, ao contrário de diminuir, aumentava a paixão silenciosa e secreta que por ela nutria.
 
No final desse ano lectivo, de novo concorri ao Instituto dos Pupilos do Exército, agora, para o 2.º ano e, ou porque o número de ingressos era grande ou porque as condições objectivas haviam mudado, fui admitido. Não cabia em mim de contente! Esse Verão foi longo e tristonho, porque a menina tinha ido passar férias para longe de Lisboa — longe para a época, entenda-se… Fora para as Caldas da Rainha onde a avó fazia tratamento, nas termas. Esperei pacientemente o mês de Setembro, mas nada aconteceu. As janelas da casa, que todos os dias ia espiar, mantinham-se cerradas sem que dessem sinais de qualquer tipo de vida.
 
As aulas recomeçaram em Outubro e lá fui para Benfica, para muito distante da paixão que me ia consumindo. No final do ano lectivo, de conluio com o meu Amigo José Luís Carreiras Constantino — o 232, que morava na minha rua, e tinha mais dois anos de idade do que eu — escrevi uma carta à menina que tão embeiçado me trazia havia tanto tempo. Uma carta a pedir-lhe namoro, porque naqueles tempos — já passou mais de meio século! — as coisas não eram como hoje. Tudo se fazia com muito rigor e denotando grande respeito.
 
A resposta chegou pelo correio, dias depois, numa letra muito bem desenhada. Não podia aceitar, éramos muito novos e mais isto e mais aquilo. Amigos, poderíamos ser, mas mais nada. O estilhaçou-se-me o coração.
 
Novo ano lectivo, novas férias grandes — desta vez fui eu passá-las aos Açores — e, ao contrário de se me reduzir a paixão ela aumentava. Na impossibilidade de a ver satisfeita tentei deixar-me atrair por outras jovens que conheci nas ilhas atlânticas. Nasceram pequenos amores semelhantes a fogos-fátuos sem o calor e a ardência do sentimento que havia anos me queimava o coração.
 
Seguiram-se os sucessivos anos lectivos até atingir o primeiro de Contabilistas — qualquer coisa como o equivalente agora ao décimo — ia a caminho das minhas dezoito primaveras. Nas férias do Natal, encontro, por mero acaso, na rotunda do Marquês de Pombal, a menina que não tinha esquecido e que silenciosamente me corroía o coração. Nunca a havia perdido de vista, conversávamos de quando em vez, mas sempre muito de fugida. Vivia enclausurada em casa, tendo como guardiãs a avó e a mãe, porque era órfã de pai desde tenra idade.
 
Esse encontro foi providencial. Estava uma jovem bela, elegante, vistosa, de formas corporais bem delineadas, de conversa já adulta, enfim, uma mulher. Com todo o aprumo que a vivência no Instituto me havia ensinado e a educação que tinha aprendido na casa paterna e no internato, lá me fui insinuando, pedindo-lhe o número de telefone, sabendo se tinha namorado e tantas outras coisas tão necessárias a uma «abordagem» que se deseja segura e vitoriosa. O caminho estava livre e o Menino Jesus, na quadra a Ele dedicada, deixou-me no sapatinho a prenda há muito querida: um namoro sério e comprometedor com aquela que desde sempre eu sonhava para mim.
 
Em abono da verdade, devo dizer que o namoro passou por uma prévia conversa com a mãe da menina, tornando oficial o que poderia ter sido mais recôndito. Mas foi melhor assim, pois fiquei autorizado a fazer regulares visitas lá a casa com todas as limitações e liberdades possíveis para aquele tempo. O ano lectivo decorreu rápido, mas, no final, as minhas classificações não foram tão folgadas como nos anteriores. Gastava muito tempo a escrever longas cartas de amor nas horas destinadas ao estudo.
 
O Verão foi maravilhoso. Passei o máximo de dias junto daquela que me enchia o coração. Respirávamos o mesmo ar. Os beijos que trocávamos faziam de mim o mais feliz dos jovens portugueses, talvez o mais feliz de todo o universo. A paixão transbordava. Os planos para uma vida futura sofreram todas as alterações possíveis. Havia, agora, que rapidamente concluir o 2.º e o 3.º ano de Contabilistas para, depois, durante o cumprimento do serviço militar obrigatório, casarmos e vivermos felizes para sempre. O meu velho sonho de seguir a carreira militar, acalentado há tantos anos — mais do que a paixão que me prendia àquela menina — ficou arrumado e esquecido.
 
Começou o ano lectivo seguinte e as cartas aumentaram de ritmo. Agora eram diárias, e tínhamos sempre tanto para dizer um ao outro! As notas do primeiro período começaram a acusar a falta de aplicação ao estudo; as do segundo garantiram que o ano estava em fase de perda e as do terceiro tornaram realidade o que era já irremediável. Foi próximo do fim do ano, no baile de finalistas, que o fotógrafo dos Pupilos fez o quase instantâneo que encima esta crónica — lá estou eu com a menina dos meus sonhos juvenis e o meu velho Amigo Trancoso, que, mais avisado e realista do que eu, dançava com uma das suas já várias namoradas “oficiais”. O «boneco» deu que falar na nossa Casa! O padre Ruy Corrêa Leal, se tivesse tais poderes, ter-me-ia excomungado do seio da comunidade católica e, por certo, também do convívio com os meus companheiros de internato. Aquilo não era forma decente de dançar! Aquilo era o pecado fardado de aluno dos Pupilos, agarrando uma qualquer mulher perdida e de perdição!
 
A tempo consegui arrancar o exemplar da prova fotográfica, sacando-o do conjunto que circulava para encomenda das pelingrafias com que cada um queria ficar. Fiz desaparecer a «prova» do «pecado», mas não consegui apagar a lembrança do mesmo.
Na reunião do conselho escolar — como mais tarde vim a saber — o padre-capelão foi implacável, dando de mim as piores referências perante a hesitação ou relutância de alguns mestres em reprovarem-me… — Que não, que devia reprovar a todas as disciplinas! Mas a todas, sem excepção!
 
As férias de Verão começaram sob o signo do fracasso. Eram, em casa, os meus pais, olhando-me de soslaio quando ia namorar como que a recordarem-me, no silêncio mais dorido, que o meu falhanço escolar se devia a uma paixão inconsequente; era a menina que via — e não escondia esse sentimento — retardado o casamento, pelo menos, por mais um ano; era eu que me sentia mal com todos e comigo mesmo.
 
Claro, em Setembro, a menina, com aquela crueldade própria de quem viu falidos os planos e sonhos, com grande desfaçatez, acabou o namoro. Fiquei desfeito. Salvou-me o meu Pai. Com a paciência de quem ajuda um inválido fez-me perceber que, uma coisa, são os nossos próprios sentimentos, outra, os sentimentos alheios sobre nós e outra, ainda, o conjunto dos anteriores; só quando tudo se conjuga harmoniosamente pode haver futuro, de contrário, mais cedo ou mais tarde, as paixões desfazem-se, porque são, afinal, uma profunda perturbação dos sentidos.
 
Repeti o 2.ºano de Contabilistas e ingressei na Academia Militar, tal como sempre tinha desejado.
 
O futuro veio trazer-me outras surpresas, mas essas já não são contas deste rosário…


publicado por Luís Alves de Fraga às 16:38
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Domingo, 1 de Abril de 2007
Considerações à volta do encerramento do Instituto

 
 
Nos últimos meses tenho mantido conversas sobre a existência do Instituto dos Pupilos do Exército com individualidades militares e civis que ou já ocuparam cargos decisivos no Exército ou ainda os ocupam.
 
Todos são unânimes em três aspectos: a estratégia prosseguida pelos antigos alunos quanto às alterações a ocorrer no Instituto esteve e está errada; os cursos superiores são incomportáveis no Instituto; e, por fim, é impensável manter três estabelecimentos de ensino a debitarem exactamente o mesmo tipo de formação.
 
Contra estes argumentos nada se pode opor quando, em consciência, se é honesto.
A franca teimosia em manter em funcionamento os cursos superiores a partir do início da década de 90 do século passado foi uma asneira de palmatória. Nessa altura, dever-se-ia ter aberto mão dos bacharelatos quando ainda se tinha massa crítica de alunos para lhes dar uma formação técnica secundária e capacidade negocial para encontrar novos rumos para o(s) curso(s) secundário(s) a leccionar.
Mais uma vez repito, a vocação dos Pupilos do Exército esteve e está ligada à formação de quadros intermédios que sirvam aos interesses e necessidades do Estado, sem prejuízo de dotar os alunos com possibilidades de prosseguirem cursos superiores em estabelecimentos apropriados, militares ou civis. Contudo, repiso, o importante é que os alunos concluam o 12.º ano e saibam fazer algo de prático que tenha aplicação no aparelho do Estado. Não satisfazendo esta condição o Instituto está condenado a curto espaço de tempo. E ninguém acredite na solução da cedência de seja o que for para ali se fazer uma fundação ou algo semelhante.
 
Há dias, de conversa com um antigo e excelente professor do Instituto, ele dizia-me que ter-se-ia de revocacionar o Instituto de modo a diversificá-lo do Colégio Militar. E não se trata de diminuir a importância dos Pupilos; trata-se de ver com realismo que o Exército, quando tiver de escolher um estabelecimento dele dependente para fechar portas, optará, naturalmente pelo nosso Instituto por ser o mais moderno e o que tem o lobby de antigos alunos mais fraco. E isto é inteiramente verdade!
 
Num outro encontro com um velho oficial do Exército, antigo aluno do Colégio Militar, contava-me ele que, na Associação dos Antigos Alunos, já se discutira a situação dos Pupilos e que havia consciência que o encerramento da nossa Escola punha imediatamente o Colégio na mira do Estado-Maior e, mais anos menos ano, calharia em sorte ao velho estabelecimento da Luz ver as suas portas fechadas. Assim, alguns dos mais cautelosos antigos alunos, preconizavam uma concertação de estratégias, entre os lobbies do Colégio e dos Pupilos, para se garantir que nenhum aceitava ver as suas portas encerradas. Mas que, para isso, era preciso discutir o papel de cada uma das instituições dentro da sociedade portuguesa do futuro. E que não se pode ir para um tal diálogo com «pedras no sapato» nem desconfianças; cada um — Pupilos e Colégio — tem o seu lugar e não pode ser tentando roubar protagonismo ao outro que se ganha esta batalha.
 
Enfim, do que tenho auscultado como ex-aluno do Instituto e não membro da Associação dos Pupilos do Exército (onde, por vontade e decisão própria, não mais terei assento) conclui que nem tudo está perdido, ainda, para o Instituto… Mas para que as portas da negociação se mantenham abertas não se podem fazer propostas irrealistas nem descontextualizadas; não pode haver «braços-de-ferro» e, de preferência, as propostas deverão articular soluções com os antigos alunos do Colégio Militar, de modo a interessá-los na nossa sobrevivência (recordem-se, os mais dados a estas coisas, que a resistência branca na Africa do Sul, na Namíbia e na Rodésia só caiu quando Portugal deu a independência a Angola e a Moçambique… éramos o «tampão» que os segurava! O mesmo pode ser o nosso Instituto para o Colégio Militar e para Odivelas).
 
Não cobro nada pelas ideias que aqui deixo lançadas. Anima-me a possibilidade de saber que, afinal, o Instituto dos Pupilos do Exército poderá sobreviver no meio de ventos e tempestades. Assusta-me a incomensurável vaidade e intransigência de muitos antigos alunos que não sabem como é importante, muitas vezes, recuar dois passos para se poder, mais tarde, avançar cinco ou seis. Será, por causa desses que o Instituto se perderá. É a história dos ultras, dos extremistas, dos monolíticos, dos «calhaus com olhos», se preferirem uma expressão mais popular e mais facilmente compreensível.


publicado por Luís Alves de Fraga às 18:26
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Domingo, 18 de Fevereiro de 2007
Assalto à 1.ª Companhia
Há tempos recebi, numa das minhas caixas de e-mails, uma larga quantidade de fotografias de um ex-aluno muito mais moderno do que eu no Instituto. Uma delas chamou-me a atenção mais do que as outras, porque ali se viam três alunos “armados” com as tradicionais toalhas enroladas em forma de moca preparados para uma surtida punitiva a qualquer camarata, pois o “retrato” tinha sido tirado à noite.
 
A fotografia trouxe-me à memória os célebres “assaltos” à 1.ª Companhia levados a efeito por altura do Carnaval, nos recuados anos do início da década de 50 do século passado.
 
Tentarei recordar, com tanta soma de pormenores quantos os possíveis, o que eram essas “campanhas punitivas” de tão distantes anos.
 
Sendo a 1.ª Companhia a dos alunos mais novos — entre os dez e os treze ou, no máximo, catorze anos — comandados por um punhado de graduados de idades entre os dezasseis e os dezoito, esse “bendito” “assalto”, feito por todos os mais velhos, vindos das 3ª e 4 .ª Companhias, correspondia a um verdadeiro massacre em que os “putos” “enfardavam”, até à exaustão, segundo a vontade dos mais velhos cobardemente defendidos pelo seu tamanho e maior número.
Era uma estúpida tradição só possível num colégio onde os alunos, depois das aulas, ficavam entregues ao descuido de um qualquer oficial de serviço disposto a não se incomodar excessivamente com o que acontecia nas instalações pelas quais devia zelar. Um colégio — repito-o, sem qualquer rebuço — bem próximo, na aparência da vida interna, de ser um reformatório ou asilo de infância desvalida. Um colégio onde proliferavam os javardos que, tendo saído de casa sem nenhuma ou com pouca educação, por lá aprenderam a impor-se pelos princípios da força que, como se sabe, dá guarida aos mais cobardes e mais mal formados caracteres.
Que me lembre, houve “assaltos à 1.ª Companhia” nos anos lectivos de 1954/55, 1955/56 e, talvez, 1956/57. Depois acabaram, como acabaram muitos comportamentos próprios de asilados. Foi a mão férrea, mas destemida e empenhada, do coronel Ferreira Gonçalves quem deu a machadada final nessa vergonhosa tradição de cobardia colectiva.
 
Já não posso precisar em qual, mas num dos anos acima referidos, na noite aprazada para o “assalto” estava de serviço o célebre capitão Vávora (ainda hoje não sei o que quer dizer, nem se é assim que se escreve), de seu nome Marques Lopes. Era um verdadeiro oficial de Infantaria, de estatura meã, míope em grau avançado, mas disciplinado e disciplinador como poucos passaram, nesse tempo, pelo Instituto. Calçava sempre botas altas e, de quando em vez, segurava na mão um bonito pingalim de couro, símbolo de autoridade e comando.
Os preparativos, após a 3.ª refeição, começaram de imediato — quer no lado dos “atacantes” quer no dos pobres “defensores”. As toalhas bem enroladas e, recheadas, segundo a imaginação de cada um, com os objectos mais duros que se encontrassem à mão. Depois do toque a recolher já se encontravam a “hostes” preparadas para saírem dos edifícios junto aos portões de entrada e deslocarem-se em “ordem de batalha”, silenciosamente, para os lados da área conventual. Eu estava, ainda, nestes últimos e, por ser um dos mais altos de toda a miudagem, tinha como obrigação plantar-me na primeira linha de defesa, com os graduados. As “guardas-avançadas postaram-se nos locais apropriados para darem o alarme do avanço adversário e assim o fizeram ao verem a movimentação da massa bruta dos matulões da 4.ª Companhia. A contenda começou renhida, defendendo, cada um, como podia, a porta das respectivas camaratas para não permitir a entrada e a grande confusão. Bem aguerrida estava a peleja quando alguém gritou: — Chui malta... olha o Vávora!
Realmente a figura do terrível capitão surgiu, pouco depois, empunhando o pingalim, enquanto vociferava: — Então meninos, então meninos.
Os distúrbios já tinham sido de monta, principalmente no que respeita a vidros partidos nas portas das camaratas, pois os “atacantes”, na fúria de tudo levar de rompante, quebravam-nos enquanto gritavam para gerar o pânico nos mais pequenos. Rapidamente o “assalto” cessou e a ordem foi retomada com a entrada em vale de lençóis ainda sob o efeito da adrenalina ao rubro.
No dia seguinte, algum poeta e melómano pôs a circular uma cantiga da qual já só recordo alguns versos brancos. Rezava assim:
Gritos, alaridos
Vidros partidos,
É o Carnaval da Malta
O Vávora de chicote
Isto é um pagode
É o Carnaval da Malta
E continuava numa lengalenga que os anos varreram da minha lembrança.
À guisa de parênteses, contudo, não posso deixar de aqui lavrar uma coincidência curiosa.
Por volta de 1983 ou 1984, era eu major, já levando quase vinte anos de oficial, tive como condutor um jovem praça, educado, comedido e correcto, que todos os dias me levava para a Base Aérea n.º 1, em Sintra. Certa manhã, por qualquer razão que não lembro, desviámo-nos do trajecto normal, fazendo caminho por Benfica passámos junto à 2:º Secção dos Pupilos. Com naturalidade, deixei cair a frase «Foi aqui que estudei durante sete anos» e, para espanto meu, diz-me o condutor: — Então é capaz de ter conhecido o meu pai! Quis, de imediato, saber quem ele era, porque admiti tratar-se de algum ex-aluno e, qual não é o meu espanto, diz o condutor: — O meu pai é o brigadeiro Marques Lopes.
Nem quase podia acreditar! Então o motorista que há vários meses me conduzia à Base era filho do Vávora?! Mandei cumprimentos para o pai e calei as muitas estórias que poderia contar-lhe do progenitor.
A Vida dá muitas voltas e, em algumas delas, faz-nos surpresas que julgávamos impossíveis. Esta foi uma delas!
 
Como estamos na época carnavalesca aqui ficam recordações que já têm muitos anos!
Meditem, os mais jovens, nas javardices desses tempos recuados e recordem, os mais velhos, algumas verdades que, se calhar, querem esquecer.
Brinquem muito ao Carnaval...


publicado por Luís Alves de Fraga às 21:32
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007
Quando usávamos luvas

 

Já vai muito longe o tempo em que os alunos dos Pupilos do Exército e os do Colégio Militar, tal como os da Escola Naval e os da Academia Militar, a par de todos os oficiais dos três ramos das Forças Armadas, usavam luvas com o trajo de saída, também chamado n.º 1. Começaram por ser umas luvas de algodão cinzentas, mas rapidamente deram lugar a outras de pelica castanha.
 
Parece não ter importância nenhuma este simples pormenor do fardamento... mas a verdade é que tem e é muito grande.
O uso da luva calçada na mão esquerda, que segurava a outra da mão direita, caracterizou um tempo em que os grupos sociais se distinguiam pela forma de trajar. As luvas eram sinal de que o trabalho de quem as usava não era braçal, porque simbolizavam a protecção das mãos para a execução de labores delicados, tais como escrever, ler, pintar, tocar instrumentos musicais e tantos outros. Na vida castrense eram um distintivo de comando, de graduação superior, porque os soldados e os sargentos só colocavam luvas em dias de cerimónia, quando integravam formações armadas e equipadas para se mostrarem em luzidas paradas militares. Contudo, os oficiais usavam-nas sempre, porque eram cavalheiros de sociedade.
Não acredito que «o hábito faça o monge», mas o uso constante do mesmo «hábito» acaba por se impor e obrigar à adopção de regras que, muitas vezes, quem não é «monge» passa a comportar-se como tal.
 
É natural que, nos tempos correntes, especialmente no nosso país, onde o conceito de Democracia é um novo-rico bem aperaltado, penteado, exibindo grossos anéis de ouro, mas com um polimento ligeiro, que estala ao primeiro passo mais largo, é natural, dizia, que se tenha abandonado o uso das luvas como adorno distintivo de grupo social ou de comando. Todos querem parecer o que não são, sendo, realmente, umas marafonas sócio-culturais que se travestem para agradar a quem os pode criticar. Se os meus leitores tiverem dúvidas reparem no exemplo do líder do CDS/PP que todos os dias aparece na televisão ornamentado de gravata, mas, quando se desloca, em comícios, junto do povo humilde das aldeias, aparece de colarinhos abertos para se confundir com o homem da rua; ou, se preferirem, o líder do PCP que, por regra não usa gravata, mas quando vai a um debate televisivo lá se adorna com o pedaço de pano ao pescoço. E isto são meros exemplos! Afinal, cada um de nós parece estar mais preocupado com a imagem que transmite para fora do que com aquilo que, na verdade, é ou defende.
Tais atitudes resultam, na minha opinião, de uma aprendizagem rápida e desajeitada do que é Democracia; o pedreiro perdeu o orgulho da sua profissão, tal como o balconista, o sapateiro, o canalizador — todos querem parecer bem instalados na vida, enfarpelando-se como burgueses — e, do mesmo modo, os estudantes, os políticos, os professores, os médicos, os oficiais das Forças Armadas desejam não se mostrar por fora como pertencendo a um grupo culturalmente distinto dos restantes e, assim, nivelam-se por baixo. Somos todos uns farsantes, pois vivemos e cultivamos a farsa como forma correcta de estar em sociedade.
 
É sabido que, desde muito jovem — talvez lá pelos dezoito anos, estava ainda no Instituto — manifestei as minhas poucas ou nenhumas simpatias pelo Estado Novo. Por isso, é com grande à-vontade que afirmo o meu agrado pelo tempo em que os alunos dos Pupilos, obrigatoriamente, usavam luvas de pelica castanha quando trajavam o uniforme de saída. Nessa época cultivávamos o gosto pela diferença, o prazer por sermos mais do que os outros... E fazíamo-lo sem vergonha, de cara levantada, porque era honroso. Hoje em dia, até vergonha há em andar fardado, quanto mais de luvas na mão! Há quantos anos não vejo na Baixa, ou em qualquer centro comercial — que não seja o «Fonte Nova» ou o «Colombo» — um aluno uniformizado!
 
Se não se cultiva o orgulho e a saudável vaidade exterior, como se pode esperar que existam verticais valores nos jovens que frequentam o Instituto?
As minhas experiências recentes deixaram-me bastante desiludido! Está claro que uma árvore não faz a floresta!


publicado por Luís Alves de Fraga às 21:48
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Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007
O monopólio

 

Quando se já está na idade — correcta — da reforma laboral começa-se a saber muita coisa, porque se tem mais tempo para investigar e aprender. A corrida para ganhar o pão de cada dia deixa de ser necessária e pode optar-se por fazer “coisas” que nunca se fizeram antes ou por meditar.
Ainda não sou exactamente um reformado, porque mantenho actividade como professor universitário, embora, pela própria natureza da função, me tenha dedicado a pensar nos assuntos sobre os quais tenho obrigações ou sobre aqueles que me dão prazer.
 
Acontece que a minha recente decisão de quebrar um laço, com 53 anos de existência, com a APE me fez pensar muito sobre o assunto. Comecei por recordar os fins da fundação do, então, Grémio dos Alunos dos Pupilos do Exército. Os fundadores, que tive a felicidade de conhecer — e bem — quase todos, queriam agrupar-se numa associação para manter viva a mística de camaradagem e amizade que os havia unido na vivência do Instituto. Nessa época, todas as associações eram mal vistas e sobre todas recaía a desconfiança de por lá se conspirar contra a ditadura que amordaçava o país e as gentes. Tinham decorrido somente duas décadas sobre a fundação do Instituto. O número de gerações de ex-alunos não era grande e, acima de tudo, eram todos jovens: os mais velhos estariam pelos 30 e poucos anos. As divergências entre eles eram menores e as que mais peso tinham provinham de posturas políticas antagónicas. Em nome da juventude comum ultrapassavam-se esses escolhos e todos se juntavam à volta da ideia de se criar um prolongamento do Instituto. Mas houve logo gente, desde a primeira hora, que dispensou o Grémio (mais tarde Associação). Para esses, o amor à Casa não se traduzia na necessidade de estar arregimentado à volta de uma estrutura regulamentada; para esses a camaradagem guardava-se no peito e a amizade no coração.
 
Eu fiz-me sócio da APE, porque, logo no primeiro ano de frequência do Instituto, alguns dos mais antigos alunos, com aquela “meiguice” que todos nós conhecemos me “recomendaram” a adesão, usando de frases persuasivas, tais como: — O puto ou se faz sócio ou partimos-lhe a tromba! Claro que, pesem embora os meus 13 anos espigadotes, não tive outro remédio... Fazer-me sócio e acrescentar às despesas lá de casa mais a quota trimestral. Não era isso que deitava abaixo as finanças familiares!
Como se vê, fui, primeiramente, sócio “voluntário”, depois sócio consciente... Mas esta última condição só a adquiri quando já era oficial e estava em África. Por lá encontrei muitos ex-alunos que nunca se tinham filiado na APE, nunca tinham pago uma quota — até porque era difícil a transferência de capitais para Portugal — mas amavam entranhadamente o Instituto e vibravam com tudo o que a ele dissesse respeito. Vibravam mais do que muitos ex-alunos, vivendo em Lisboa e com a sede da APE ali ao virar da esquina.
 
Isto tudo vem a propósito de alguns antigos alunos — se calhar até muitos — associados na APE julgarem que só quem paga as quotas e frequenta a sede social é que sente o Pilão. Para esses o amor à «Casa tão bela» é monopólio da APE, só ali e sendo sócio, é que se pode discutir o que é bom ou mau para o Instituto. Só na rua Major Neutel de Abreu é que residem as virtudes! Fora da Associação não há gente que possa ter e defender pontos de vista divergentes dos adoptados pela APE. A APE e os sócios têm o monopólio de opinião... E vão mais longe! Alguns chegam até a verbalizar a hipótese de, para se discutir em divergência com a Associação, ter de se fundar uma outra!!! Deuses dêem juízo a estes ex-alunos!
 
Tudo isto prova que, cada vez mais, se torna imprescindível perceber o que realmente é importante dentro da APE: o governo de uma mera associação ou a gestão de uma estratégia para conseguir alterar o curso da vida do Instituto — que, segundo parece, tende a encurtar-se? Ora, só quando os corpos gerentes forem capazes de definir o que pretendem é que conseguirão perceber que não representam os antigos alunos dos Pupilos do Exército. Não! Limitam-se a representar uma parcela dos antigos alunos: a dos associados da APE. O resto representa-se por si próprio
 
Se os corpos gerentes da APE tivessem real consciência do que representam e de quem representam teriam de ser mais prudentes nas suas afirmações de princípios; teriam de ser mais cautelosos nas propostas que apresentaram e que ainda apresentam; teriam de procurar ouvir ex-alunos que não são sócios, pois, provavelmente, muitos há que até têm ideias concretas quanto ao futuro do Instituto, até têm influência política nos lugares que ocupam e nos relacionamentos que desenvolvem, mas não se revêem na Associação. Por não se reverem nem são obrigados a tornarem-se sócios, nem devem calar as suas opiniões. Se alguém tem que alterar posturas é a APE. Ela é que tem de se adaptar às realidades, que são as existentes e não as que alguns dirigentes imaginam.
 
Não gosto de monopólios e cada vez mais, por isso mesmo, não gosto dos antigos alunos que gravitam pela APE. Num dia destes acabam representando-se a eles mesmos e a mais ninguém!


publicado por Luís Alves de Fraga às 17:00
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Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006
Pupilos, uma Escola de eleição

 

O contabilista é o profissional capacitado a produzir informações úteis para tomada de decisões, a partir dos atos e fatos que ocorrem no dia-a-dia das empresas. Ele planeja, coordena e controla compras, vendas, investimentos e aplicações de uma empresa, indicando pontos que precisam de atenção, responsabiliza-se pelo pagamento de tributos e pode planejar investimentos. São ainda atividades exclusivas do Contador as perícias contábeis e as auditorias contábeis e financeiras.

(De um site brasileiro da Internet)
 
 
Não pretendo ser longo, por isso explicarei pouco, mas deixarei as pistas necessárias para os meus leitores poderem meditar.
 
Não há dúvida nenhuma que o Instituto dos Pupilos do Exército já foi uma Escola de eleição. Deixou de ser entre as décadas de 80 e 90 do século passado; até ao final dos anos 70 ainda era uma excelente Escola.
 
Como se caracterizava a excelência do Instituto? Que factores contribuíam para o reconhecimento dessa qualidade? O que é que aconteceu para se verificar a mudança?
 
Primeiro do que tudo temos de contextualizar a excelência da Escola.
Podemos dizer que a melhor expressão da dita excelência se traduz pela oferta de emprego quando ainda os alunos não tinham concluído os seus cursos médios.
Esse elevado nível de procura de ex-alunos e a facilidade de emprego no mercado de trabalho dá-se no começo dos anos 30 do século XX e dura, em plena euforia, até ao final dos anos 40; depois, com a transformação dos cursos de indústria, fica só uma significativa procura de diplomados com o curso de Contabilistas. A tradição anterior é retomada, em escala bastante inferior nos anos da década de 70 e começa a cair nos anos 80.
 
Ocorre, agora, perguntar: — Qual o motivo que levava a essa oferta extemporânea de emprego a jovens recém acabados de formar? A garotos com pouco mais de 18 ou 19 anos?
Em primeiro lugar, a escassez de gente diplomada pelos Institutos similares civis (Instituto Industrial e Instituto Comercial) de Lisboa, Coimbra e Porto. Todos quantos acabavam os cursos técnicos de grau médio (como então se chamavam) tinham emprego, porque eram especialistas que, situando-se entre o operário especializado ou o escriturário especializado e os licenciados em engenharia ou economia e finanças, tinham uma preparação teórica muito superior à dos primeiros e uma capacidade prática que se aproximava muito da dos segundos. Um agente técnico de engenharia supria, em muitíssimas ocasiões, a falta de um engenheiro, tal como um contabilista colmatava a ausência de um economista (hoje chamado gestor). Há que levar em conta o facto de, também, o número de engenheiros e de economistas ser muito limitado naquela época.
Todo este conjunto dava aos ex-alunos dos Pupilos uma extraordinária possibilidade de emprego imediato. Mas estariam eles melhor habilitados do que os seus colegas dos respectivos Institutos civis?
A resposta tem de ser decomposta.
Do ponto de vista da preparação técnica, pontualmente, haveria cursos ou grupos de disciplinas em que os antigos alunos possuíam uma preparação teórica e prática mais apurada, mas não eram todos os cursos nem todas as disciplinas. Isso representava uma mais-valia de pouca importância, até porque, na maior parte dos casos, os empregadores não possuíam, eles mesmos, capacidades para apreciar a diferença.
O que atraía os empregadores era um outro elemento que não tem sido devidamente enaltecido nos muitos relatos que li ou ouvi. O que encantava os empregadores era a disciplina dos antigos alunos dos Pupilos do Exército. Era gente habituada a cumprir horários, a trabalhar nos momentos a isso destinados, a receber ordens e a não as discutir, mas cumpri-las mesmo com sacrifício físico, gente educada com claras noções de hierarquia, sabendo quem manda e quem deve obedecer. Eram estas as qualidades que distinguiam os ex-alunos dos Pupilos dos seus colegas dos Institutos similares, mas civis. Com estas qualidades, com estas virtudes — essencialmente fruto de uma educação militarizada — os técnicos saídos dos Pupilos do Exército eram, de certeza, bons funcionários, responsáveis, disciplinados e disciplinadores. Isso era fundamental para o andamento dos serviços que eles, muito jovens ainda, iriam chefiar ou superintender. Estavam habituados a ser mandados e a mandar. Essa era a maior de todas as preparações «técnicas» dos ex-alunos. Era isso que dava excelência aos antigos alunos.
Há que acrescentar mais para melhor se compreender a situação de excepção de que gozavam os Pilões.
Vivia-se em plena ditadura e esta valorizava a hierarquia, a ordem e a disciplina coisas que todos os alunos dos Pupilos, fora de um contexto politizado — mas militarizado — possuíam em elevado grau. A ditadura funcionou como a cereja no topo do creme do bolo.
 
Será necessário explicar os motivos que levaram à alteração de todo este quadro? Julgo que sim, para não restarem dúvidas e se poderem tirar conclusões.
A democratização da sociedade portuguesa gerou dois tipos de fenómenos em concomitância: por um lado, deu-se a explosão educativa — quer estatal quer privada — originando a super abundância de escolas e de cursos (a diversidade destes é simplesmente abismal se a compararmos com o que existia em 1973), logo, o Instituto passou a ter de concorrer não com três outros similares, mas com várias dezenas ou, talvez, uma centena; por outro lado, a democratização gerou (felizmente) a Liberdade que foi mal apreendida e mal «digerida» pelos Portugueses, pois confundiram-na com libertinagem e disciplina com fascismo para além de não respeitarem mais as hierarquias da competência, mas as do dinheiro e do poder.
Este quadro reflectiu-se dentro do Instituto: contestar foi palavra que ganhou novas dimensões. Contestavam os militares que deviam disciplinar, contestavam os professores que deviam ensinar, contestavam os alunos que deviam obedecer e estudar. O nível geral de disciplina caiu à vertical, gerando sucessivas camadas de antigos alunos que, embora tendo tido um arremedo de educação militar, são anti-militares, anti-fardas, anti-regulamentos disciplinares. São ex-alunos que, em boa verdade, foram Pupilos, mas não do Exército. E o certo é que continuam a sair da Casa ex-alunos com um forte desprezo pelas virtudes militares (existem excepções que justificam e honram a regra).
 
O que acabei de dizer justifica o quadro de degradação a que o Instituto dos Pupilos do Exército chegou. A passividade de oficiais e directores veio alimentar a situação, contudo não se lhes podem assacar todas as responsabilidades.
A ânsia de concorrer em pé de igualdade com o Colégio Militar descaracterizou o ensino secundário nos Pupilos que deveria, contra ventos e marés, ter continuado a ser essencialmente técnico — mesmo que com programas específicos e só a ele aplicáveis. A ânsia de não perder os cursos médios — que desapareceram — levou à transformação em cursos politécnicos que sofreram o desgaste da concorrência. Já deviam ter acabado para reconverter esforços num curso secundário técnico com saídas para a universidade. Nada disto se soube fazer e continuou-se — continua-se — casmurramente a teimar na senda errada.
 
Que fazer em relação ao futuro?
Primeiro, exigir uma direcção empenhada; depois, um corpo de oficiais motivado para a missão; em seguida, reformular o corpo docente adaptando-o a um curso secundário técnico; finalmente, acabar com os cursos politécnicos (que estão em agonia profunda e não têm integração na perspectiva de Bolonha) e avançar para legislação especial que faça do Instituto uma nova escola técnica para quadros intermédios, sem descurar a possibilidade de, quem quiser, poder frequentar a universidade nas vertentes técnicas desenvolvidas na Escola. Tudo isto não pode ser dissociado de uma nova reformulação da disciplina interna e de um rigor que faça dos alunos jovens exemplares numa sociedade em regressão.
 
Difícil? Por ser difícil é que tem de ser esta a via a percorrer.


publicado por Luís Alves de Fraga às 17:22
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