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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

O primeiro dia

Estava uma manhã de sol. Um sol de Outubro (já não me recordo do dia, mas teria de ser depois de 5, porque nessas épocas distantes as aulas começavam sempre nos dias a seguir ao feriado da proclamação da República). Fui com o meu pai de «eléctrico» desde a Graça — bairro de Lisboa onde nasci — até à «Baixa» e na praça dos Restauradores tomámos outro «eléctrico» para Benfica.

Recordo-me que, do alto dos meus treze anos, ia confiante para a nova «escola» que me esperava por escolha minha e só minha. Ninguém me mandou para os Pupilos do Exército. Fui eu que optei e ditei o meu futuro de sete anos naquela Casa. Houve influência de um saudoso amigo de infância que morava na mesma rua onde eu vivia: o Carreira Constantino, o 232, salvo erro de 1948, mais conhecido pelo «Ai-ai». Era mais velho três anos e causava-me inveja vê-lo garboso na farda cinzenta. Contou-me maravilhas do internato. Um dia, cheguei a casa e, à hora do jantar, declarei peremptório: — Quero ir para os Pupilos do Exército! Ao meu pai agradou a ideia, já à minha mãe... conformou-se!

Depois, despedi-me do meu pai, que, antes, me levou até à rouparia da 1.ª Companhia (da qual era responsável um 2.º sargento, parecia-me então, de idade avançada), entregando-me aos cuidados do senhor Araújo. Dali fui conhecer a camarata, os armários que me cabiam e a cama onde dormiria naquele ano. Julgo que me fardei com o esquisitíssimo uniforme de cotim. Esquisito, especialmente, no modo de apertar o dólmen.

À hora do almoço tive o primeiro choque com a nova realidade de então.

Era meu chefe de mesa o 373, conhecido pela alcunha de «Dentes», creio que natural de Setúbal e, na época, estagiário do Curso de Mecânica de Automóveis (isto, vim a saber um ou dois dias depois, dava-nos uma grande tranquilidade, porque os estagiários só jantavam no Pilão! Esse facto garantia-nos um almoço bem mais sossegado, pois ficava por nós responsável o Dionísio — conhecido por «Odivelinhas», graças às manas que frequentavam o IO).

Voltando ao almoço, recordo que a sopa vinha servida numa grande e funda terrina de alumínio, várias vezes amolgada por muitos maus tratos na lavagem e manuseamento. Comi-a a sopa sem grande reparo. Em seguida, também servido em terrina igual à anterior (aí fiquei estranho!), veio o segundo prato: pescada cozida com batatas. Meu Deus! Se aquilo era peixe em casa dos meus pais comiam-se manjares celestiais! À primeira garfada vi que a consistência do «animal» se assemelhava à de um pastel de farinha mal acabado. Jamais esquecerei o sacrifício que foi comer menos de metade do que tinha na frente.

À tarde foi o tempo de conhecer as praxes de então: medir uma camarata com um pau de fósforo, dar não sei quantas voltas ao campo de futebol e somando o número de passadas e, por fim, como eu era já senhor de uma farta penugem, no lugar do bigode, o estagiário que dava pela alcunha de «Terrinas», rapar-me, a seco, metade do dito, obrigando-me a ficar assim até ao fim-de-semana próximo.

À noite, na cama, pensei: — Mas onde é que eu estou metido? — e, como fui sempre um optimista, acrescentei qualquer coisa como — Não há-de ser nada!

E a verdade é que não foi...

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