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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Os «Javardos»

Hoje, e porque não me quero impor nenhuma ordem cronológica a estes apontamentos, vou recordar os «Javardos».

Quem era esta espécie de gente?

Tratava-se de um grupo de alunos do Instituto que fugiam a todas as normas de boa educação normais e essenciais em qualquer grupo social, por muito que ele se movimente nas franjas das condutas consideradas aceitáveis. Os «Javardos» ¾ que para tranquilidade dos próprios não vou identificar — representavam a falsificação de um «produto» que tendo condições para ser bom, era mau. Originários, provavelmente de famílias muito carecidas, acima de tudo de princípios, eram relutantes e impenetráveis à educação que os militares encarregados do enquadramento dos alunos procuravam transmitir-lhes. Faziam gala nessa relutância e impunham-se aos seus companheiros baseados nisso mesmo.

Por razões explicáveis com suporte no maior empenhamento da Direcção do Instituto, os «Javardos» quase desapareceram durante o rodar dos sete anos da minha permanência no internato.

Os piores «Javardos» foram os dos primeiros anos que por lá andei. Além de não acatarem a autoridade, procuravam corromper a ordem e a harmonia através da sua liderança indisciplinadora. Tenho a vaga sensação de que nem pelos companheiros do seu grupo etário eram bem aceites; toleravam-nos mais por um falso conceito de camaradagem do que por qualquer sentimento de solidariedade e identificação grupal.

Pouco ou mesmo nenhum contacto tive com os «Javardos» desses primeiros anos. Embora magro, o meu metro e sessenta e tal já impunha algum respeito e sabia «fechar a cara» nos momentos oportunos. As poucas vezes que os «Javardos» me dirigiram a palavra terá sido, quando, ao domingo, perto do momento de entrada ¾ as tradicionais vinte e duas horas ¾ se colocavam de tocaia, esperando ver passar os mais novos que, regressados de casa dos familiares, poderiam trazer os apetecíveis «comes». Nesses momentos, do meio da escuridão, saltavam ao caminho e perguntavam com o seu ar furibundo: ¾ Oh «puto», trazes «comes»? Deixa ver o que tem aí na pasta?

Recordo que fui, logo nos primeiros dias de permanência na nossa Casa, «interrogado» pelos «Javardos» quanto ao facto de ter ou não ter «manas boas». Desencorajei-os com a resposta simples, mas verdadeira: ¾ tenho, mas é casada!

Hoje, mais de cinquenta anos passados sobre esses tempos, ao pensar nos «Javardos» de então, interrogo-me o que os terá levado a serem como eram. Descortino várias explicações.

Provavelmente, não passavam de uns revoltados por terem sido postos, largados será o termo, no Internato como animais inestimáveis; se calhar, filhos de lares desfeitos onde a falta de educação mínima e de princípios terá sido o primeiro exemplo recolhido na sua infância; carentes de amor enquanto crianças, cresceram convencidos de ser na dureza de atitudes que podiam superar o que lhes havia faltado; olhados como incorrigíveis logo nos seus primeiros anos de Pupilos, foram acumulando frustrações sobre frustrações quantos mais castigos pseudo correctivos acrescentavam ao currículo disciplinar; segregados pelos jovens atinados do seu tempo, formaram um gang de «corrécios» ¾ como eram nessa altura designados os relutantes à conduta normal e geralmente aceite ¾, encontrando na «javardice» a afirmação de uma personalidade distorcida, semeada de uma ponta de autoridade induzida pelo medo que impunham a quem queria ser diferente. Depois, a velha máxima ¾ o abismo atrai para o abismo ¾ terá sido a grande norma de conduta que passou a nortear os seus passos.

Espero que a Vida os tenha ensinado, mas, sinceramente, não acredito em milagres, porque caule que não se endireita à nascença, tarde ou nunca ganha verticalidade!

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