Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Santos Costa e os cursos industriais

Às vezes, interessarmo-nos pela História, vale muito a pena!

Vem isto a propósito da acção do Ministro da Guerra, Santos Costa, sobre os Pupilos, no final dos anos 40 do século passado. Vamos lá, então, recordar.

 

Tinha acabado a 2.ª Guerra Mundial e os EUA haviam liderado o processo de criação da aliança designada por Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN ou, como já se tornou vulgar entre nós, NATO).

Como a base aérea, na ilha Terceira, era fundamental para a o reforço rápido da Europa e o aeroporto da ilha de S. Maria imprescindível para os voos transatlânticos, todos os países fundadores da OTAN fecharam os olhos ao facto de em Portugal vigorar uma ditadura e não uma democracia e, assim, convidaram o Governo de Lisboa a aceitar fazer parte da nova organização. Só foi imposto um requisito: Salazar arranjar uma fórmula mais conveniente para designar o regime de modo a parecer democrático. Daí nasceu a expressão, que passou a figurar na Constituição Política de 1933, «democracia orgânica».

Na sequência do ingresso na OTAN, houve que reformular e reestruturar as Forças Armadas para o que largamente contribuíram os EUA, quer fornecendo material de guerra, quer oferecendo cursos de formação em várias especialidades. Impunha-se que os velhos quadros intermédios — os sargentos — oriundos de soldados, quase sem preparação técnica nem intelectual, fossem substituídos por outros, mais jovens, mais aptos e mais competentes. Mas onde ir buscá-los? Como captar para o serviço militar uma juventude que preferia empregos melhor pagos e com possibilidades de ascensão acelerada na hierarquia empresarial? Santos Costa encontrou a solução. Analisemo-la.

Desde há muito o Instituto dos Pupilos do Exército vinha formando os chamados agentes técnicos de engenharia que possuíam aquilo que, na altura, se designava por curso médio, pois, não sendo superior, abrangia áreas de conhecimento teórico-prático que estabeleciam a ponte entre os engenheiros e quadros intermédios das empresas fabris; eram os auxiliares directos daqueles por lhes ser fácil o diálogo técnico, fosse no plano teórico fosse no prático. Para a sua formação bastava a conclusão do curso geral de indústria (o equivalente ao actual 9.º ano numa vertente essencialmente virada para a indústria) e a de mais três ou quatro anos, consoante o curso. Quer dizer, com oito ou nove anos de frequência escolar após o ensino primário tinha-se um quadro de nível médio capaz de «fazer andar» uma fábrica ou um sector fabril.

Como se deve compreender, estes ex-alunos do Instituto tinham muita procura no mercado de trabalho tanto em Portugal como, especialmente, nas colónias onde assumiam funções de chefia por falta de engenheiros diplomados pelas faculdades respectivas (Coimbra, Porto ou Instituto Superior Técnico, em Lisboa). Raros eram os que escolhiam a carreira militar. Quando o faziam optavam, quase maioritariamente, pela Armada.

Nos últimos anos da década de 40 do século transacto Santos Costa «arranjou» a solução para o problema que antes delineei: primeiro, acabar com os cursos médios de indústria, nos Pupilos do Exército e reformular o curso geral de indústria de modo a que se desdobrasse em três tipos diferentes: mecânica de automóveis, montador electricista e rádio-montador e óptica e aparelhos de precisão; segundo, obrigar os alunos dos cursos de indústria a assentarem praça, imediatamente após a conclusão de um estágio profissional em unidades militares da área de Lisboa, como segundos-sargentos do quadro permanente do Exército. O «requinte» foi tal que, em 1952, quando se criou o terceiro Ramo das Forças Armadas — a Força Aérea — os ex-alunos que optassem por este ingressavam como furriéis, ou sejam perdiam um posto.

A decisão foi cruel, foi frustrante para todos aqueles que esperavam concluir um curso rentável e útil, mas tentemos, por momentos, perceber o ponto de vista do ministro de Salazar (sem, no entanto, o desculpar ou desculpabilizar). O Exército, financiava uma escola profissional que ministrava cursos de alto nível e grande procura pela indústria nacional, mas, por isso mesmo, não beneficiava de retorno de nenhuma natureza, especialmente num momento em que carecia de quadros intermédios. Do ponto de vista da aplicação de capitais, era simplesmente ruinosa a manutenção dos cursos médios de indústria nos Pupilos. Numa perspectiva utilitarista e economicista a decisão de Santos Costa foi perfeitamente justa e aceitável: o Exército passou a ter o retorno que pretendia e que lhe fazia falta.

A reposição dos cursos médios de indústria, nos Pupilos, cerca de dez anos mais tarde, foi possível a partir do momento em que os quadros de sargentos estavam renovados e remoçados com técnicos devidamente aptos para as necessidades. Houve que sacrificar uma geração de alunos para beneficiar as que se lhe seguiram.

 

Quem quiser e souber deduzir a partir da História tem aqui material para pensar e encontrar soluções adaptáveis aos dias de hoje. Quase sempre não é quem mais alto sonha que melhor equaciona os objectivos mais realistas...