Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Os professores do meu tempo

Fui aluno interno do Instituto Militar dos Pupilos do Exército entre 1954 e 1961. Entrei com 13 anos e saí com 20. Por já não ser um garoto demasiado pequeno tinha sentido crítico suficiente para saber apreciar o que acontecia à minha volta, nomeadamente, o que respeitava aos docentes.

Não pertenço ao grupo de antigos alunos que enaltecem os seus professores como os melhores, nem me incluo no daqueles outros para quem só quase havia maus mestres salvando-se uma ou outra excepção. Não. Coloco-me no seio dos ex-alunos que garantem que tiveram muito bons educadores, bons, fracos e maus. Hoje não vou recordar ninguém em especial; falarei das motivações que animava o recrutamento dos lentes que nos ensinavam.

Comecemos por caracterizar os docentes dos anos em que andei pelo Instituto.

Maioritariamente eram militares. Ser professor dos Pupilos, do Colégio ou de outros estabelecimentos de ensino dependentes do Ministério do Exército era apetecível, porque se acrescentava ao soldo (remuneração de oficial) a quantia de, salvo erro, 300 ou 500 escudos mensais — qualquer coisa como um euro e meio ou dois euros e meio, quando um capitão ganhava à volta de quinze ou vinte euros por mês! Era um bom acrescento, se pensarmos que o custo da minha mensalidade, na altura, era de um euro e vinte e cinco cêntimos.

Ora, com uma tal concorrência à função docente, tornava-se possível seleccionar, nuns casos, os melhores oficiais e, noutros, os que tinham melhores «cunhas».

Quando muito «democraticamente» se acabou com o regime de gratificações nas Forças Armadas, anos após o 25 de Abril, caiu-se no pior erro que a ingenuidade pode aconselhar: igualaram-se os medíocres aos que valiam alguma coisa. Por outras palavras, alinhou-se por baixo. Tão valioso passou a ser aquele que tem habilitações, gosto e vontade para ensinar como o nulo que nada faz para se valorizar intelectualmente! É sempre assim, em Portugal... Importante é que o vizinho esteja tão mal como eu! Se eu estiver bem, necessário é que fique igual ao que está mal! Que mentalidade mais mesquinha, mais pequenina e desprezível! É por isso que somos um país de golpistas e de «atrasos de vida»! Não queremos é fazer nada... Desejamos que nos caia nas mãos um título de Dr. ou Eng. com o menor esforço possível... Mas temos de ser Drs. ou Engs. para sermos iguais aos que trabalharam valentemente para o conseguir. Claro que, quando temos os títulos, como não valemos nada, fazemos baixar o crédito daqueles que os obtiveram à custa de muitos e grandes trabalhos!

Mas dizia eu que, por causa da gratificação, o lugar de professor nos Pupilos era apetecível para os oficiais que se julgavam competentes para o desempenho da função educativa. E muitos eram-no! Assim, porque a vontade de leccionar no Instituto era grande entre a oficialidade, contavam-se quase pelos dedos das mãos os professores civis. A sua maior abundância fazia sentir-se nos cursos médios, onde os conhecimentos eram mais específicos e a oficialidade tinha maior dificuldade de concorrer com eles. Especialmente na área do curso de Contabilistas, pois na dos cursos industriais os militares ganhavam aos pontos.

Tanto quanto me recordo, a maior quantidade de professores civis centrava-se no ensino das línguas, depois nas contabilidades, cálculos, direito, física, química e desenho. Na indústria lembro-me de alguns «mestres» oficinais.

Para os docentes civis a leccionação nos Pupilos constituía ou a actividade principal ou a complementar, porque todos eles, tanto quanto nós sabíamos, desempenhavam outras funções fora dos muros da nossa Casa.

Hoje em dia é difícil arranjar professores militares para leccionar nos Pupilos, porque não existem incentivos para tal. Ninguém se convença de que não há qualidade entre os oficiais das Forças Armadas para serem docentes! Actualmente, existem muitos militares licenciados, mestres e até doutores que poderiam radicar-se e dedicar-se ao ensino. Bastava que para tal lhes fossem dadas regalias que os atraíssem, por exemplo: dedicação exclusiva, horários com facilidades de tempos livres para exercício de actividades lectivas ou de investigação, bolsas de estudo ou facilidades de estudo, estabilidade de colocação, etc.. Continua a ser assim que se arregimentam docentes militares para as Academias e para os Institutos de Altos Estudos. Tudo isto é passível de ser «negociado» com os Estados-Maiores dos Ramos das Forças Armadas. Necessário é que encontremos entre os antigos alunos aqueles que têm audiência junto dos respectivos Chefes e que, para além do mais, se interessem por ser suficientemente convincentes. Por mim, ainda entro com facilidade nos gabinetes dos Chefes do Estado-Maior do Exército e da Força Aérea!

Deixar os alunos entregues a docentes civis que estão completamente desenquadrados da finalidade da nossa Casa, para quem as horas que a ela dedicam são mínimas e que têm das instituições militares as piores opiniões, parece-me criminoso.

Vejam bem as voltas que a Vida dá por causa de se extinguir uma simples gratificação!