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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Uma figura de todos os tempos

Há dias fui à Associação dos Pupilos do Exército (APE) tomar parte numa reunião de trabalho e, na sala onde nos juntámos, fiquei sentado de frente para as fotografias dos sócios honorários. Entre outros, lá estavam o major Eloy Valverde e o mestre Palleti Berger. Confesso que, enquanto se teciam considerações sobre assuntos importantes, a minha mente «fugia» dali, de quando em vez, recuando até aos anos 50 do século passado (sim, porque, hoje em dia, isto de ter nascido no século XX é uma espécie de título em cartão de visita!).

Acabada a reunião, tentei lembrar-me de ambos. Confesso que do mestre Palleti Berger a memória é pouca, porque pequena foi a convivência com ele — um ano lectivo apenas, no qual, certamente, terá percebido a minha total ausência de habilidade para o desenho e pintura.

Arrancada do fundo dos tempos, recordo a sua extraordinária bonomia traduzida no modo como se expressava sem pressas nem stress e na calma com que subia as escadas de acesso à «sua» sala de aulas. Muitos anos depois, embora já modificada, tive oportunidade de dar as minhas lições nesse mesmo espaço. Senti uma estranha sensação. O mestre Berger continuava a «estar ali»! Pairava, algures no ar, um «sentimento» de saudade e de ausência.

No nosso Boletim, talvez no número correspondente ao meio do ano de 1965, saiu a notícia sobre o súbito falecimento de Palleti Berger. Sei, porque foi um sobrinho dele — Francisco Berger —, meu Amigo, quem dela me fez chegar ao computador uma digitalização, sem data. Também não tenho a certeza de o recorte em causa ser do Boletim ou, talvez, de outra qualquer publicação interna.

É ingénua a homenagem que se lhe presta. Ingénua, simples, mas profunda. Ali se transcreve uma redacção de dois jovens alunos sobre o mestre Palleti Berger: são o 136, Orlando Manuel Ferreira Garcia, e o 82, Joaquim Pedro de Carvalho Monteiro — que será feito deles?. Andavam no 2.º ano do ciclo e chamavam «velhote» ao «jovem» mestre, que a Parca levou com 65 anos de idade (é assim que sou visto pelos miúdos de agora... um velhote!). Contudo, desculpando-se este descuido próprio da infância, as suas palavras traduzem com fidelidade as características fundamentais daquilo que eu mesmo conheci do mestre de desenho: «Abusavam demais com ele e o pobre velhote repreendia-os, mas eles não ligavam. Chegou ao fim do ano e as raposas foram até casa. Este ano lectivo nada se passou assim; já somos uns homenzinhos e por isso já compreendemos mais alguma coisa. Estava a explicar a lição e via algum aluno na farra dizia ao chefe de turma: — Mande este aluno ao Sr. Oficial de Dia e diga o que estava a fazer.

Peçamos perdão por tudo o que fizemos ao pobre velhote; não levámos o material para a aula ou para o ponto escrito; íamos pedir, ele lá nos dava; pedíamos planadores de vez em quando, lá nos dava.»

Que ingenuidade! Que delícia estes alunos educados! Que correcção nas palavras! Hoje, por certo, não havia redacção para ninguém! O velhote passava à categoria de cota, de chato e de outras coisas quejandas!

Reparem no sentido pedagógico do mestre Palleti Berger. Não era ele quem mandava o discípulo mal comportado ao Oficial de Dia... Era o chefe de turma! Com uma tão simples atitude, o mestre estava a ensinar o chefe a ser chefe e a assumir responsabilidades. Numa palavra, a tornar-se um homenzinho.

É por causa destas e de outras que defendo publicamente a necessidade de existir um corpo docente privativo do Instituto, porque professores destacados não se identificam com regras que fazem a diferença entre uma escola secundária de bairro e uma instituição cheia de hábitos e tradições. Palleti Berger era assim, porque se havia identificado com o espírito dos Pupilos e com a forma correcta de fazer crescer responsavelmente os garotinhos que éramos.

Reparem na carga de culpabilidade dos alunos de então relativamente ao «velhote» e à forma como se haviam comportado. Que diferença em relação aos dias de hoje! Agora, os alunos não se sentem culpados de nada! Porque os professores são culpados de tudo — do que têm culpa e do que não têm! Em Portugal as pessoas «boçalizaram-se», embruteceram, deseducaram-se. Confundiram Liberdade com libertinagem.

Agora que estou «velhote» e em idade de ter um ataque cardíaco — como aquele que vitimou Palleti Berger — sinto uma profunda tristeza com o país que construímos e deixámos ir construindo. Sinto-me triste com as pessoas, com os mais jovens, para quem o ideal de vida é ganhar muito dinheiro, fazer viagens a sítios exóticos e na moda, pavonear-se num automóvel de alta gama, vestir roupas de boas marcas, ter duas casas e viverem olhando para o seu próprio umbigo. Para onde foi o ideal? Onde estão os sonhos? Em que lixeira deitaram as boas maneiras? O respeito? A consideração? Estamos, cada vez, mais feios... Feios por dentro. Precisamos de SPA’s morais onde se reordenem os valores de cidadania. Ou serei eu que já estou a pedir o ataque cardíaco por ter atingido o limite de duração?

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