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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Robalo Gouveia e outras memórias

Para os ex-alunos dos Pupilos, da minha geração e de outras que se lhe seguiram, o capitão Robalo Gouveia está intimamente ligado à classe especial de ginástica... Para mim, não.
Rebuscando, nos escaninhos da minha memória, as lembranças mais antigas que guardo são dos meus familiares chegados, da casa onde nasci, na rua Angelina Vidal, lá para os lados do bairro da Graça, e, logo de seguida, do Lisboa Ginásio Clube que comecei a frequentar ainda sentado na velha e pesada cadeirinha de bebé que a minha mãe transportava, três vezes por semana, até às instalações do vetusto clube da rua dos Anjos. São recordações que têm mais de seis décadas!
A minha irmã, mais velha sete anos do que eu, por volta dos seus oito ou nove anos, por vontade do meu pai — que entendia que para se ter um corpo saudável havia que o exercitar — começou a frequentar as classes de educação física das meninas no Lisboa Ginásio. Ensinava-as o professor Aníbal Ramos que, muito modernamente para a época, fazia acompanhar os exercícios com música de piano tocada ao vivo.
Dizem que fui uma criança super agitada... Andar, para mim, era correr; correr era levar tudo de repelão na minha frente. Mas era, também, ao que parece, um puto giro que as coleguinhas da minha irmã acarinhavam e achavam engraçado... até perceberem como as olhava, também, como mocinhas jeitosas que algumas, mais precoces, mostravam ser. Nessa altura acabaram-se-me as incursões aos balneários onde, descuidadamente, trocavam de roupa! Mas isto são outras estórias...
Quem conheceu o velho edifício do Lisboa Ginásio Clube, recordar-se-á do salão principal de ginástica que, na parte superior, tinha uma ampla galeria donde se podia assistir às sessões de educação física. Foi por lá que os meus passos miudinhos, mas impertinentes, soaram há mais de sessenta anos, quando em correrias desvairadas ia de um lado ao outro, enquanto em baixo os mestres exercitavam os ginastas.
O Robalo Gouveia, recém diplomado pelo, Instituto Superior de Educação Física (ISEF) dava aulas, pelo menos, a uma classe de rapazes, sendo ele mesmo um jovem com pouco mais de vinte anos. Muitas, mas mesmo muitas, noites foi a minha correria interrompida por causa do apelo que desesperadamente lançava para a galeria:
— Peço o favor à mãe da criança que anda a correr que a mantenha sossegada de modo a não interferir na condução da minha aula!
Claro, lá ficava eu manietado junto da minha progenitora — que me prodigalizava uns beliscões calmantes nas coxas — ficava olhando, dizia, aquele senhor esquisito que me limitava o gosto de golpear o soalho com os sapatos.
Os anos foram passando, eu crescendo sem nunca abandonar a prática da ginástica no meu Clube de sempre. Da educação física passei para o tiro ao arco, voltando à ginástica, agora como aluno do mestre Reis Pinto, rival famoso de Robalo Gouveia, como constava entre os atletas amadores.
No ano lectivo de 1953/54 abandonei de vez o Lisboa Ginásio Clube por ter entrado nos Pupilos do Exército e lá haver toda a prática de educação física necessária a um desenvolvimento saudável do corpo. O meu primeiro mestre foi o, então tenente miliciano, Moniz Pereira. Na altura, ainda não se dedicava ao atletismo... o voleibol era a sua grande paixão e nós, os mais miúdos, deleitávamo-nos com os treinos da selecção nacional, à noite, no ginásio da 1.ª Secção!
Não tenho a certeza, mas se a memória não me atraiçoa, foi na Primavera de 1954 que apareceu fardado de tenente de cavalaria — ainda uma farda antiga, com camisa cinzenta — o mestre Robalo Gouveia. A minha surpresa foi imensa... lá vinha o homem que me mandava estar sossegado cerca de dez anos antes!
Um dia, bastante mais tarde, recordei-lhe as traquinices que o impediam de manter tranquilidade nas suas aulas, no Lisboa Ginásio. Já não se lembrava... Tinham sido tantos os traquinas que por lá haviam passado!
Famoso, entre a malta pelos biqueiros que distribuía com as botas altas, o certo é que só me «deve» uma caldaça dada sem razão absolutamente nenhuma... Foi tão forte que senti um choque eléctrico no corpo e vi luzinhas! Tinha o pé e a mão pesada e, para se tresloucar, bastava sonhar que os alunos fumavam! Nada era mais grave para ele do que o vício do tabaco.
Ao Robalo Gouveia devem-se as maiores e mais retumbantes glórias colectivas do nosso Instituto, mas isso será tema para outro apontamento.
O único aspecto ao qual desejo dar o devido relevo é ao facto de, nesses tempos recuados, o Estado dar dinheiro ao Exército para manter nas fileiras, como oficiais milicianos contratados, figuras que contribuíam para a educação da juventude. Nos Pupilos estiveram, pelo menos duas, no meu tempo: o Robalo Gouveia e o Fernando Ferreira, ambos atletas olímpicos. Claro que, também, fruto da disciplina que na altura se impunha no Instituto, nós éramos excelente matéria-prima para adornamos a coroa de louros que tais mestres, virtualmente, ostentavam nas cabeças. Tenho sérias dúvidas que hoje pudesse ser assim!

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