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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

O quotidiano no Instituto há cinquenta anos

Quem hoje transita junto àquilo que foi a passagem de nível da linha de caminhos-de-ferro de S. Domingos de Benfica, não faz a mínima ideia do aspecto de há cinquenta e dois anos. A travessa de S. Domingos era, realmente, uma travessa rodeada de muros de quintas desde a estrada de Benfica até à referida passagem de nível. Logo no começo, ao sair da estrada por onde circulavam os «eléctricos», começaram a construir-se os primeiros prédios modernos, do lado direito da estreita artéria, coexistindo com uma quinta, no lado oposto. Aliás, foi durante a segunda metade da década de 50 que se puseram de pé todos os edifícios, incluindo a praceta, que fica à direita da travessa. A Conde de Almoster não passava de um sonho na imaginação dos urbanistas lisboetas!
Paralela à linha dos comboios, mas do lado do muro dos Pupilos, corria, a céu aberto, a ribeira (salvo erro, de Alcântara). Foi ali, pelo ano de 1955 ou 1956, que se concluíram as obras de encanamento da dita linha de água e, só muito mais tarde, foi aberta a passagem desnivelada por baixo da ferrovia.
Nos anos 50 a grande alteração à circulação dos comboios foi, por um lado, a electrificação da linha e, por outro, a desactivação do posto de guarda da passagem de nível ali existente. Recordo-me, perfeitamente, da funcionária da CP que, «armada» de duas bandeirolas enroladas — uma verde e outra vermelha — fechava as cancelas e se postava de modo a ser vista pelo condutor da composição, erguendo no ar a bandeirola verde, se a memória não me falha.
Além desses apetrechos a dita funcionária trazia na mão uma pequena corneta e uma caixinha redonda, de metal, pendurada de uma correntinha . Este último apetrecho sempre causou profunda curiosidade na malta do meu tempo. Para que raio era a caixinha? Que segredos ela guardava?
Acho que um dia, alguém mais atrevido foi perguntar à funcionária da CP qual o segredo contido na misteriosa caixa. Reproduzo, agora, o que me foi contado na altura: lá dentro estavam fulminantes destinados a colocar em cima do carril, em caso de perigo iminente, que rebentavam ao serem calcados pelo rodado da composição e serviam de aviso ao maquinista para travar o comboio. Será verdade?
Nesses tempos — para quem me lê agora, quase pré-históricos — o Instituto estava isolado, ou quase, em um dos limites da mata de Monsanto. O batalhão escolar organizava-se em quatro companhias, sendo que as duas primeiras se instalavam nos edifícios conventuais e as restantes nos da entrada, junto ao ginásio. Éramos 401 alunos.
A alvorada soava-se às seis, havendo uma escala para as camaratas irem tomar banho na meia hora que tínhamos até tocar para o estudo da manhã. Houve um tempo — lá para 1955 ou 1956 — em que foi montada uma potente instalação sonora, fora e dentro dos edifícios, ligada ao gabinete do oficial de serviço. Era dali, diante de um microfone, que o corneteiro arrancava os poderosos sons do toque da alvorada que troavam nas paradas, nas camaratas, claustros e tudo o que era sítio. Alguns oficiais, mais pressurosos no cumprimento do dever — como eu agora os compreendo tão bem! — num gira-discos (artefacto que antecedeu as aparelhagens electrónicas de som para reproduzir a música gravada em discos de vinil) colocavam a tocar marchas militares e outras composições suficientemente sonoras para impedir qualquer jovem de ficar indiferente. Recordo, com saudade — e ainda hoje dou por mim a trautear — a «velhinha» La Madelon que fez os encantos dos meus 17 ou 18 anos!
Constou, por essa altura, que alguns dos moradores dos novíssimos prédios fronteiros à 1.ª Secção teriam reclamado do matutino militarismo que por ali soava, mas foi em vão, porque a tenacidade do coronel Ferreira Gonçalves era mais forte que todas as boas razões dos cidadãos nossos vizinhos... quem não estivesse bem que se mudasse!
Às 6h30, sem variações, lá vinha de novo o toque para o estudo. Realmente, ainda antes do pequeno-almoço, tínhamos uma escassa hora de estudo. Para muitos era um sacrifício tremendo, em especial no Inverno quando o frio apertava e a vontade de dormir falava mais alto. Pessoalmente, desde que foi imposta essa regra de estudar de manhã, adaptei-me muito bem, em especial porque, de noite, dormia o suficiente.
Depois do pequeno-almoço seguia-se uma manhã de aulas — inclusive ao sábado — na 2.ª Secção, depois de termos reduzido a velocidade do trânsito na estrada de Benfica com o desfile do batalhão escolar formado e a toque de caixa. À hora do almoço a situação repetia-se agora, fazendo o percurso inverso. Tínhamos um intervalito de quase vinte minutos que dava para os mais velhos fazerem a barba que não haviam rapado de manhã.
Vinha, em seguida, a célebre parada que antecedia a segunda refeição, na qual os graduados verificavam se os seus condiscípulos estavam devidamente ataviados. À ordem do comandante do batalhão desfilávamos rumo ao refeitório, normalmente sob o olhar atento do oficial de serviço e do director, coronel Ferreira Gonçalves.
Após o almoço, sem intervalo significativo, seguíamos outra vez, devidamente formados, para a 2.ª Secção. Mais aulas até cerca das dezoito horas. E convém recordar que o programa, pelo menos do Curso de Comércio, não era exactamente igual àquele que se ministrava nas escolas civis; estudávamos, no mínimo, mais matemática e física, para além das componentes do currículo. Mais tarde, a partir de 1959, no Curso de Contabilista acrescentavam-se todas as disciplinas do, então 6.º e 7.º ano do liceu — equivalente hoje aos 10.º, 11.º e 12.º anos de escolaridade — nas vertentes que possibilitavam o ingresso nos cursos de engenharia, ciências exactas, economia e finanças. Para se fazer uma ideia do trabalho que tínhamos de desenvolver, basta recordar que do currículo de cada um dos anos referidos faziam parte cerca de catorze ou quinze disciplinas (Português, Francês, Inglês, Geografia, Organização Política e Administrativa da Nação, Filosofia, História, Cálculo Comercial — ou Financeiro—, Contabilidade, Matérias-Primas, Física, Química, Matemática, Direito, Economia Política e mais qualquer outra que o tempo já varreu da minha memória).
Ao fim da tarde, lá pelas dezoito horas, regressávamos à 1.ª Secção e gozávamos de um pequeno intervalo de vinte minutos, segundo me lembro. De seguida tínhamos de novo estudo, embora, desta feita, durasse hora e meia.
Finalmente, era tempo de jantar. Não havia formatura; entrávamos directamente para o refeitório e diligenciávamos comer rápido para gozar de um maior intervalo — sem televisão — até às vinte e duas horas. Quando tocava a recolher íamos para as camaratas e, meia hora depois, todas as luzes tinham de estar apagadas e o silêncio reinava para rapidamente cairmos nos braços de Morfeu.
Assim era a semana inteira, de segunda-feira a sábado inclusive. No Instituto, do meu tempo, trabalhava-se a sério e todos os que de lá saímos tínhamos consciência de que só por esforço e mérito próprio alguma coisa alcançaríamos na Vida. Exemplos de sucesso, entre os «jovens» da minha geração, é coisa que não falta. Se alguns não chegaram a concluir o Curso de Contabilista não foi isso motivo de impedimento para, com esforço e disciplina aprendidos nos Pupilos do Exército, chegarem à realização material e à satisfação pessoal. Eles estão aí a dar testemunho de que, afinal, só com rigor nos transformamos em gente capaz, idónea e respeitável. Trafulhas sempre os houve, mas desses, como é habitual dizer, a História não rezará.