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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Tão católicos que nós éramos...

 

A qualquer título, já estou na idade própria da reforma. Fiz sessenta e cinco anos, sou um cavalheiro que merece os 50% de desconto nos caminhos-de-ferro que a CP tão simpaticamente oferece aos idosos.
Quando era jovem, habituei-me a criticar os velhos - aqueles que tinham a idade que hoje carrego - que, talvez, por receio da morte ou qualquer outro fundamento meu desconhecido, se convertiam ou reconvertiam ao catolicismo; achava hipócrita tal atitude, especialmente se no passado contavam com uma vida dissoluta. Estavam a comprar o passaporte para uma viagem cuja data de início desconheciam, tal como lhes era vedado saberem o destino. Nunca gostei de hipocrisias!
Rondava eu os vinte e dois ou vinte e três anos quando, depois de uma profunda meditação e de uma análise com fundamentos filosóficos, optei por me tornar agnóstico, virando costas a um passado de mais de dez anos de fé e prática católicas. Entre os vários factores contributivos para a minha decisão os de natureza política não foram os menores. De então até hoje fui coerente com a decisão tomada. Acredito que algo existe que deve reger a harmonia química e física do universo nosso conhecido e no qual nos incluímos. O que é, não sei. Pode chamar-se Deus, mas que não é propriedade dos católicos, dos judeus, dos islamitas, dos budistas, dos hinduístas ou de qualquer outra religião, disso não tenho dúvidas. Seja o que for, não é prisioneiro dos seres humanos e muito menos exclusivo de uma parte deles! Por isso, a minha única maneira de estar na Vida é adoptando a maior tolerância possível perante quem acredita num deus.
Quando estava nos Pupilos ainda era católico. Católico, porque assim tinha sido educado em casa dos meus pais. A capela e os claustros exerceram sobre mim um fascínio curioso. Eram uma espécie de refúgio onde me sentia bem, onde me encontrava comigo mesmo. Deste modo, passei a frequentar, depois da 3.ª refeição, a igreja, reflectindo sobre o meu dia e sobre mim. Como já referi em apontamentos anteriores, ao entrar no Instituto eu já tinha treze anos e preocupações de maioridade. Contribuiu para me deixar envolver por um sentimento místico o facto de o meu primeiro comandante de pelotão - o nosso coronel e ilustre causídico Fernando Gonçalves Roberto - ser um católico de envergadura exemplar. Procurei seguir-lhe o exemplo.
Na época, era capelão do Instituto o Pe. Rui Correia Leal, graduado em tenente, filho do general do mesmo nome o qual presidia a uma qualquer comissão desportiva nacional que lhe conferia o direito de habitar o palacete da Quinta da Graça, nos terrenos do Estádio Nacional, frente à actual Faculdade de Motricidade Humana. O capelão era, por conseguinte, um «menino bem» que, por uma qualquer causa obscura jamais confessada, optara, já depois de ter concluído o ensino secundário, por frequentar o seminário, destinando a sua vida ao sacerdócio católico. Julgo que a sua experiência como pároco seria nula, pois presumo que a sua primeira «colocação» terá sido nos Pupilos, embora estivesse «adjudicado» à igreja de S. Domingos, em Lisboa. Ainda que, na altura, para mim e para todos os outros alunos ele fosse um «adulto» a verdade é que teria mais quinze anos de idade do que eu. Hoje é um velho e eu um homem de idade avançada, o que, em bom português, vem quase a dar no mesmo.
Um destes dias, dedicarei um apontamento a essa figura - poderei classificá-la assim, sem receio de errar - sinistra que, ao contrário de nos fazer bem - a mim e a toda uma geração de alunos entre os anos de 1950 e 1962 ou 1963 - fez muito mal. Tal apontamento não se trata de uma vingança - porque para tal não tenho temperamento -, mas da reposição de verdades históricas que merecem ser recolocadas na dimensão e importância que tiveram na minha e na vida dos jovens que comigo frequentaram os Pupilos. Deixemos, por enquanto o Pe. Rui de lado e passemos ao ponto que julgo mais interessante recordar.
Andava eu no 1.º ano do curso de contabilista (1958/59) - equivalente, hoje, ao 10.º ano de escolaridade -, por conseguinte entre o naipe dos alunos mais velhos, verificámos (eu e outros que à frente vou referir) que existia nos Pupilos um grupo já significativo de jovens católicos com hábitos de prática religiosa constante e, por mera sugestão do padre, decidimos formar uma delegação da Conferência de S. Vicente de Paulo. Se o pensámos, melhor o fizemos. Do grupo que deu o «pontapé» de arranque fazia parte o Moita (32/1953), com o seu ar sisudo e concentrado, eu (282/1954), talvez o mais dado a especulações supostamente filosóficas, o Jerónimo Pamplona (6/1953), com uma frontalidade bem característica, e o Duran Clemente (30/1953), marcado pelos traços de uma grande agilidade mental. Constituímos a primeira Mesa da Assembleia Geral da Delegação da Conferência. Pela mesma ordem que enunciei os cargos eram: presidente, vice-presidente, secretário e tesoureiro.
A nós juntou-se um grupo significativo que, pelo que posso recordar deveria andar pelos vinte ou quase trinta alunos de todas as idades.
Conseguimos angariar fundos financeiros suficientes - por cotização entre nós, contribuições voluntárias de professores e um substancial auxílio da marquesa de Fronteira, Mãe do Fernando de Mascarenhas, actual detentor do título - para podermos mandar comprar alguns géneros alimentícios que, todos os sábados ao fim da tarde, íamos entregar a famílias previamente escolhidas habitantes do, então existente, Bairro do Calhau, essencialmente constituído por barracas de precária construção. Pedagogicamente juntávamo-nos dois a dois - um mais velho com um mais novo - e lá íamos levar o pequeno «cabaz» de compras e conforto - aquele que sabíamos dar e que a nossa imaginação nos permitia - moral.
Recordo-me que no primeiro ano me calhou uma família formada por marido - alcoólico irrecuperável - mulher e respectiva mãe naturais da ilha do Faial e uma filhinha, enfezada, com cerca de oito ou nove anitos. O marido rara era a noite em que não batia na mulher; recusava-se a remendar o telhado da casa, pingando água quando chovia. A criança precisava de explicações para vencer as enormes dificuldades que tinha na escola. Como pude, tentei tapar o buraco do telhado e ensinei as primeiras letras à criança. Outros fizeram, nas famílias que apoiavam, tanto ou mais do que eu.
Quarenta e sete anos depois destes episódios não me arrependo de os ter vivido; se fosse possível voltar atrás, tornaria a vivê-los novamente. Enriqueceram-me enquanto Homem e enquanto Cidadão. Curiosamente, enquanto católico ajudaram-me a ver o lado hipócrita ou ingénuo de uma Igreja e de um Deus que não tem nem arranja soluções capazes de arrancar da miséria material e espiritual todos aqueles que, pelos azares da Vida, para ela são empurrados. Foram a Conferência de S. Vicente de Paulo e um resumo traduzido para língua portuguesa, e editado em 1908, da célebre obra de Karl Marx, O Capital, os responsáveis por eu não acreditar que a pobreza se extingue com esmolas ou obras de caridade ou de beneficência. A pobreza extirpa-se da sociedade com medidas políticas radicais, sem que, para tanto se limitem as liberdades individuais!
Curiosamente, fomos quatro os fundadores da Delegação da Conferência de S. Vicente de Paulo nos Pupilos e - julgo que posso falar por eles - desde o saudoso Moita, já falecido, até ao Pamplona todos deixámos de ser católicos e todos, cada um à sua maneira, concluímos que os problemas sociais se resolvem por via política e não religiosa, porque todos deixámos de ser católicos, no mínimo, praticantes.
Parafraseando o título de um filme há anos passado nas salas de cinema do país, dá-me vontade de dizer: «Tão católicos que nós éramos...»

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