Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Olhar à direita

 

Há cinquenta anos, ou mais, havia uma tradição entre os alunos dos Pupilos, muito curiosa e que dá bem a notícia dos valores que nos eram incutidos naquela Casa. Valores morais e cívicos, naturalmente. Mas, meus amigos, deixem que, antes de falar do tema central deste apontamento, recorde alguns pequenos detalhes que servem para enquadrar a estória.

Nos anos recuados do final da década de 40 e início da década de 50 do século passado já havia acabado o internato na 2.ª Secção do Instituto, fazendo todos os alunos a sua vida não escolar — a não relacionada com aulas — na 1.ª Secção. Quer dizer, dormíamos e comíamos em S. Domingos e recebíamos os ensinamentos dos professores na estrada de Benfica. Este simples facto obrigava a que todo o Batalhão se deslocasse de uma para a outra instalação pelo menos quatro vezes no mesmo dia. Esse trânsito fazia-se debaixo de forma, com as caixas (vulgo, tambores) a tocar lá na frente dos quatrocentos que éramos, então. Algo impossível, nos tempo que correm pelo engarrafamento automóvel que iria provocar. Mas nesses anos, em que a velocidade de deslocação era bem menor, em que ir-se da praça dos Restauradores a Benfica impunha uma viagem, as coisas apresentavam-se aceitáveis para os ocupantes dos velhos «eléctricos». Por outro lado, mesmo que já constituíssem incómodo, a ditadura encarregava-se de os obrigar a «comer e calar», porque a demora do pacato cidadão resultava, na óptica das autoridades, de, na sua frente, estar a marchar o «futuro de Portugal». Nessa altura éramos, na verdade, um dos esteios desse mesmo futuro, porque do Instituto saía gente bem preparada para enfrentar os desafios da vida, fosse nas fileiras militares — onde todos nós ingressávamos como «profissionais» ou milicianos — fosse na actividade civil, em empresas de renome, em Portugal ou nas colónias.

Pois, voltando às quatro companhias a desfilar pela estrada de Benfica rumo à 2.ª Secção, quando começávamos a entrar no átrio do edifício, o comandante do Batalhão mandava «olhar à direita». «Olhar à direita», ali, mesmo no átrio, em frente da pequena cabine do telefonista (que ficava à esquerda).

«Olhar à direita», para quê? Para quem? Que graduado estava na parede lisa?

Pois, lá figurava (figura) uma pequena placa — que na época me parecia enorme, tal a importância que, pessoalmente, lhe atribuía — de homenagem aos mortos do Instituto Profissional dos Pupilos do Exército de Terra e Mar.

As duas vezes que por ali passávamos em formatura «olhávamos à direita» e se acaso cruzávamos o átrio individualmente esgalhávamos uma continência àquela pedra negra com letras gravadas a ouro.

E, nesses tempo já distantes, eram ainda bem poucos os mortos do Instituto... Ainda tinham passado pouco mais de quarenta anos sobre a fundação! Mas nessa época os mortos mereciam-nos respeito e se por acaso algum distraído se esquecesse da continência, lá estavam os graduados para o lembrar.

A homenagem era para todos os mortos. Não era só para os ex-alunos! Nem só professores ou oficiais! Não, era para todos, desde o mais humilde serviçal ao mais distinto director. Todos os mortos que haviam ajudado a «fazer» aquela Casa, a «fazer» as gerações que nos haviam antecedido. A isto chama-se culto pelo passado e respeito por quem, pouco ou muito, nos ajudou a sermos o que hoje somos.

É raro, na actualidade, entrar no edifício da 2.ª Secção pelo átrio da estrada de Benfica, mas, quando o faço, ainda me vem cá de dentro, do fundo de mim, uma imensa vontade de esgalhar uma continência àquela pedra por trás da qual não está uma parede, mas centenas, talvez até já um ou quase dois milhares, de homens e de mulheres que, no seu dia-a-dia, silenciosamente, me (nos) ajudaram a ser Homem.

Será que, nos dias que correm, ainda se faz a continência àquela placa?

3 comentários

Comentar post