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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Uma opção...

 

Há vários meses que andava a remoer na ideia, tal como os suicidas. Vai ser hoje... Não! Vai ser amanhã...
Foi no domingo. No domingo tomei a decisão e não olhei para trás. Meti a carta no marco do correio e lá foi ela direita à sede social da APE (Associação do Pupilos do Exército). Irrevogável, determinada, pensada e ponderada. A carta tem todos os ingredientes necessários para ninguém me vir chatear com pedidos lamechas. A decisão foi tomada com tempo e com ponderação, tal como já disse.
 
Já nada me liga à Associação! Cortei todas as amarras possíveis. Cortei-as, porque estou farto. Farto e magoado. Magoado por uma seita de garotos que perderam a noção do respeito, se é que alguma vez a tiveram. Magoado por ver que há antigos alunos que preferem um silêncio cúmplice a uma tomada de posição condigna que reponha a ordem associativa e a verticalidade de princípios que, julgo, aprenderam no Instituto. Magoado por ter conhecimento que há já meses, antes do Verão, houve elementos dos corpos gerentes que se demitiram dos respectivos cargos e a Direcção em vez de procurar repor a legitimidade associativa, através de proporcionar eleições antecipadas, optou por se manter em funções em nome de uma provável legalidade que vai contra tudo o que se poderia esperar em termos de moral. Magoado, desiludido, farto. Farto de fazer parte de uma associação desgovernada ou ingovernável dentro dos padrões comportamentais da actualidade. Farto de bradar no deserto, porque dizer seja o que for ponderado e cauteloso no meio associativo, dá, de imediato, lugar a um conjunto de ofensas e de faltas de respeito. Farto de estar farto. Vou partir para outra, como dizem os Brasileiros.
 
Para que todos os que estão a ler o que escrevo me possam perceber, transcrevo a carta que mandei ao presidente da Direcção da APE. Carta de despedida. Despedida sem retorno, repare-se.
 
Exmo. Senhor
Presidente da Direcção da
Associação dos Pupilos do Exército
Rua Major Neutel de Abreu n.º 20 s/l – E
1500-411 Lisboa
Lisboa, 17 de Dezembro de 2006
Exmo. Senhor Presidente da Direcção
Há cinquenta e três anos que sou sócio da Associação dos Pupilos do Exército.
Muito jovem ainda fiz parte dos corpos gerentes (nos recuados anos de 1970). Convivi com ex-alunos muito mais velhos do que eu (com idade para serem meus pais, nessa altura). Vivi, com experiência feita, o que era o respeito pelas pessoas e pelas suas ideias (como os jovens consideravam os mais velhos e como estes nos respeitavam nos disparates que arriscávamos alvitrar). Era um tempo em que a cópia sem fundamento do tratamento por tu, usual entre ex-alunos do Colégio Militar, não estava instituída no seio dos antigos alunos dos Pupilos do Exército (nunca me passaria, sequer, pela cabeça escrever «o Álvaro de Oliveira» ou «o Barroso Júnior»; a um antepunha o seu posto militar — brigadeiro — a outro o simples, mas respeitoso tratamento, de Senhor). Era um tempo em que não nos envergonhávamos de respeitar os mais velhos, embora tivéssemos consciência da nossa juventude. Mas era, também, um tempo em que os mais velhos não buscavam populismo na base de uma forçada convivência familiar e ausente de respeitosas barreiras. Com essa APE e com essa massa associativa eu estava identificado e com ela sabia conviver.
O respeito e a irreverência são de todos os tempos. Importa é que se saiba e queira cultivar o primeiro e travar os abusos da segunda. Era esse o princípio que norteava a APE e a massa associativa dessa época. Mas era também o culto das virtudes e comportamentos que haviam sido incutidos no Instituto às várias gerações de alunos que por ele passaram desde a sua fundação que procurávamos demonstrar no nosso relacionamento mútuo. Cultivávamos o sentido do rigor, da verticalidade e da saudável camaradagem fundamentada na educação e respeito.
Ao regressar da minha última comissão militar em África, em 1975, mantive-me arredado da APE e do convívio com ex-alunos (exclusão feita a todos os militares e civis com quem, por força das minhas funções, tinha de cruzar no meu dia-a-dia). Foram raros os almoços comemorativos dos aniversários do Instituto e da Associação a que fui. O meu empenhamento profissional não me dava tempo para encontros e, menos ainda, para fazer vida associativa.
Foi em 1991/92 que passei a leccionar no Instituto uma disciplina do 1.º ano do Curso de Contabilidade e Administração. Nessa altura apercebi-me, com toda a clareza e consciência, das modificações que se tinham operado desde 1961, ou seja, trinta anos depois. O garbo, a vaidade de se envergar a farda, a postura militar resultante da educação recebida, o sentido de responsabilidade perante as exigências dos professores, a vergonha de fazer má figura, tudo isso e muito mais tinha desaparecido. Os alunos e o Instituto eram uma «paisanada» absoluta e tanto uns como o outro tinham-se descaracterizado. Notavam-se todos os traços de uma sociedade em mudança, de uma sociedade que passou a saber cultivar o oportunismo, a falta de rigor, o desleixo, a permissividade perante valores de distinção. Estive dois anos lectivos no Instituto e, por razões várias — a que não são estranhas as referências anteriores — não aceitei continuar como professor. Era contemporizar com o desleixo marcante, com um caminhar para a ignorância e para o oportunismo. Era pactuar com baixos padrões pedagógicos — pesem, contudo, os esforços do Director da Secção respectiva, um digno ex-aluno e um exemplo de quanta qualidade havia nos recuados anos de 50. A diferença entre o IMPE e qualquer escola de baixo gabarito do meio civil era quase nenhuma. Colaborar nesse projecto perdido passava por prostituir o meu sentido de ensino. Isso não o faria, tal como não o faço. Os Pupilos, para mim, no início dos anos 90 do século passado, já estavam em plena decadência... só não via quem não conheceu a verdadeira Escola que aquelas paredes já haviam albergado. E, como se prova, o resultado está bem patente nos dias que correm. Enquanto fui professor dei com muito poucas excepções, entre os alunos, facto que só veio confirmar a regra.
Quando, mais recentemente, pela primeira vez, o Instituto se viu ameaçado de encerramento e houve uma tomada de consciência colectiva por parte dos ex-alunos da necessidade de fazer ouvir a sua voz junto das instâncias do Poder não fiquei indiferente e passei a dar o meu contributo, de forma variada, para a vida associativa. Uma delas foi veiculando ideias no Fórum Pilão XXI — em boa hora imaginado por antigos alunos cheios de salutar vontade e correctos propósitos.
Os anos passaram e, em cada dia que passava, fui-me apercebendo que, realmente, a minha análise sobre os alunos (que viriam a ser ex-alunos) do começo da década de 90 do século transacto não estava errada e, bem pelo contrário, se podia generalizar a grande parte de todos aqueles com quem «convivi» informaticamente. Mas o verdadeiro descalabro deu-se com a tomada de posse da presente Direcção. A arrogância e o despudor educativo de jovens ex-alunos que rondam os trinta e poucos anos de idade acobertaram-se ou foram acobertados pela postura arrogante, também, da Direcção da APE. Geraram-se grandes linhas de clivagem e de fractura que são visíveis nas mais pequenas manifestações da Associação (desde o célebre anúncio — «Queres ter o nome numa rua “Eng.”---»; porquê Eng. e não Gen.? Ou Alm.? — até se afirmar, repetidamente, em editorial do Boletim, a condição de empresário e de civil com êxito em vez de se usar a fórmula generalista de «profissional»). Geraram-se linhas de afirmação de um abusivo tratamento por tu entre gente que em comum só tem o facto de terem frequentado a mesma Escola. Caiu-se na ofensa gratuita e mesquinha.
Não me identifico com esta massa associativa, com os seus valores nem com os seus anseios futuros e, por conseguinte, não me identifico com esta Associação dos Pupilos do Exército. Nem com esta Direcção. Nem com estes Corpos Gerentes. Identifico-me com antigos companheiros dos meus tempos de Instituto, com gente que aprendeu os mesmos princípios que eu aprendi, que se rege pela mesma pauta de valores que eu adopto. Identifico-me com o Instituto enquanto instituição não enquanto Associação. Porque continuar ligado à APE constitui uma violência que a minha consciência e o meu intelecto não aceitam, só me resta renunciar à minha condição de sócio. Sócio da APE, NUNCA MAIS!
Nesta conformidade, Senhor presidente da Direcção da Associação dos Pupilos do Exército exijo que proceda em conformidade de modo a que o meu nome seja riscado das listas associativas a partir do dia 1 de Janeiro do ano de 2007. Nada devo a essa Associação, contudo, julgo que ela a mim muita coisa deve. Deve-me, pelo menos, o respeito de sempre a ter dignificado enquanto sócio e antigo aluno do Instituto dos Pupilos do Exército, condição que não vou renegar, embora renegue a de sócio da APE.
Reservo-me o direito de dar a esta carta a publicidade que muito bem entender.
Aceite os cumprimentos institucionais do
 
 
 
 
(Luís Manuel Alves de Fraga
Sócio n.º 282 do ano de entrada de 1953
Coronel reformado da Força Aérea
Professor da Universidade Autónoma de Lisboa
Historiador
Mestre em Estratégia
Licenciado em Ciências Político-Sociais
Diplomado pela Academia Militar de Portugal)

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