Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Pupilos, uma Escola de eleição

 

O contabilista é o profissional capacitado a produzir informações úteis para tomada de decisões, a partir dos atos e fatos que ocorrem no dia-a-dia das empresas. Ele planeja, coordena e controla compras, vendas, investimentos e aplicações de uma empresa, indicando pontos que precisam de atenção, responsabiliza-se pelo pagamento de tributos e pode planejar investimentos. São ainda atividades exclusivas do Contador as perícias contábeis e as auditorias contábeis e financeiras.

(De um site brasileiro da Internet)
 
 
Não pretendo ser longo, por isso explicarei pouco, mas deixarei as pistas necessárias para os meus leitores poderem meditar.
 
Não há dúvida nenhuma que o Instituto dos Pupilos do Exército já foi uma Escola de eleição. Deixou de ser entre as décadas de 80 e 90 do século passado; até ao final dos anos 70 ainda era uma excelente Escola.
 
Como se caracterizava a excelência do Instituto? Que factores contribuíam para o reconhecimento dessa qualidade? O que é que aconteceu para se verificar a mudança?
 
Primeiro do que tudo temos de contextualizar a excelência da Escola.
Podemos dizer que a melhor expressão da dita excelência se traduz pela oferta de emprego quando ainda os alunos não tinham concluído os seus cursos médios.
Esse elevado nível de procura de ex-alunos e a facilidade de emprego no mercado de trabalho dá-se no começo dos anos 30 do século XX e dura, em plena euforia, até ao final dos anos 40; depois, com a transformação dos cursos de indústria, fica só uma significativa procura de diplomados com o curso de Contabilistas. A tradição anterior é retomada, em escala bastante inferior nos anos da década de 70 e começa a cair nos anos 80.
 
Ocorre, agora, perguntar: — Qual o motivo que levava a essa oferta extemporânea de emprego a jovens recém acabados de formar? A garotos com pouco mais de 18 ou 19 anos?
Em primeiro lugar, a escassez de gente diplomada pelos Institutos similares civis (Instituto Industrial e Instituto Comercial) de Lisboa, Coimbra e Porto. Todos quantos acabavam os cursos técnicos de grau médio (como então se chamavam) tinham emprego, porque eram especialistas que, situando-se entre o operário especializado ou o escriturário especializado e os licenciados em engenharia ou economia e finanças, tinham uma preparação teórica muito superior à dos primeiros e uma capacidade prática que se aproximava muito da dos segundos. Um agente técnico de engenharia supria, em muitíssimas ocasiões, a falta de um engenheiro, tal como um contabilista colmatava a ausência de um economista (hoje chamado gestor). Há que levar em conta o facto de, também, o número de engenheiros e de economistas ser muito limitado naquela época.
Todo este conjunto dava aos ex-alunos dos Pupilos uma extraordinária possibilidade de emprego imediato. Mas estariam eles melhor habilitados do que os seus colegas dos respectivos Institutos civis?
A resposta tem de ser decomposta.
Do ponto de vista da preparação técnica, pontualmente, haveria cursos ou grupos de disciplinas em que os antigos alunos possuíam uma preparação teórica e prática mais apurada, mas não eram todos os cursos nem todas as disciplinas. Isso representava uma mais-valia de pouca importância, até porque, na maior parte dos casos, os empregadores não possuíam, eles mesmos, capacidades para apreciar a diferença.
O que atraía os empregadores era um outro elemento que não tem sido devidamente enaltecido nos muitos relatos que li ou ouvi. O que encantava os empregadores era a disciplina dos antigos alunos dos Pupilos do Exército. Era gente habituada a cumprir horários, a trabalhar nos momentos a isso destinados, a receber ordens e a não as discutir, mas cumpri-las mesmo com sacrifício físico, gente educada com claras noções de hierarquia, sabendo quem manda e quem deve obedecer. Eram estas as qualidades que distinguiam os ex-alunos dos Pupilos dos seus colegas dos Institutos similares, mas civis. Com estas qualidades, com estas virtudes — essencialmente fruto de uma educação militarizada — os técnicos saídos dos Pupilos do Exército eram, de certeza, bons funcionários, responsáveis, disciplinados e disciplinadores. Isso era fundamental para o andamento dos serviços que eles, muito jovens ainda, iriam chefiar ou superintender. Estavam habituados a ser mandados e a mandar. Essa era a maior de todas as preparações «técnicas» dos ex-alunos. Era isso que dava excelência aos antigos alunos.
Há que acrescentar mais para melhor se compreender a situação de excepção de que gozavam os Pilões.
Vivia-se em plena ditadura e esta valorizava a hierarquia, a ordem e a disciplina coisas que todos os alunos dos Pupilos, fora de um contexto politizado — mas militarizado — possuíam em elevado grau. A ditadura funcionou como a cereja no topo do creme do bolo.
 
Será necessário explicar os motivos que levaram à alteração de todo este quadro? Julgo que sim, para não restarem dúvidas e se poderem tirar conclusões.
A democratização da sociedade portuguesa gerou dois tipos de fenómenos em concomitância: por um lado, deu-se a explosão educativa — quer estatal quer privada — originando a super abundância de escolas e de cursos (a diversidade destes é simplesmente abismal se a compararmos com o que existia em 1973), logo, o Instituto passou a ter de concorrer não com três outros similares, mas com várias dezenas ou, talvez, uma centena; por outro lado, a democratização gerou (felizmente) a Liberdade que foi mal apreendida e mal «digerida» pelos Portugueses, pois confundiram-na com libertinagem e disciplina com fascismo para além de não respeitarem mais as hierarquias da competência, mas as do dinheiro e do poder.
Este quadro reflectiu-se dentro do Instituto: contestar foi palavra que ganhou novas dimensões. Contestavam os militares que deviam disciplinar, contestavam os professores que deviam ensinar, contestavam os alunos que deviam obedecer e estudar. O nível geral de disciplina caiu à vertical, gerando sucessivas camadas de antigos alunos que, embora tendo tido um arremedo de educação militar, são anti-militares, anti-fardas, anti-regulamentos disciplinares. São ex-alunos que, em boa verdade, foram Pupilos, mas não do Exército. E o certo é que continuam a sair da Casa ex-alunos com um forte desprezo pelas virtudes militares (existem excepções que justificam e honram a regra).
 
O que acabei de dizer justifica o quadro de degradação a que o Instituto dos Pupilos do Exército chegou. A passividade de oficiais e directores veio alimentar a situação, contudo não se lhes podem assacar todas as responsabilidades.
A ânsia de concorrer em pé de igualdade com o Colégio Militar descaracterizou o ensino secundário nos Pupilos que deveria, contra ventos e marés, ter continuado a ser essencialmente técnico — mesmo que com programas específicos e só a ele aplicáveis. A ânsia de não perder os cursos médios — que desapareceram — levou à transformação em cursos politécnicos que sofreram o desgaste da concorrência. Já deviam ter acabado para reconverter esforços num curso secundário técnico com saídas para a universidade. Nada disto se soube fazer e continuou-se — continua-se — casmurramente a teimar na senda errada.
 
Que fazer em relação ao futuro?
Primeiro, exigir uma direcção empenhada; depois, um corpo de oficiais motivado para a missão; em seguida, reformular o corpo docente adaptando-o a um curso secundário técnico; finalmente, acabar com os cursos politécnicos (que estão em agonia profunda e não têm integração na perspectiva de Bolonha) e avançar para legislação especial que faça do Instituto uma nova escola técnica para quadros intermédios, sem descurar a possibilidade de, quem quiser, poder frequentar a universidade nas vertentes técnicas desenvolvidas na Escola. Tudo isto não pode ser dissociado de uma nova reformulação da disciplina interna e de um rigor que faça dos alunos jovens exemplares numa sociedade em regressão.
 
Difícil? Por ser difícil é que tem de ser esta a via a percorrer.

1 comentário

Comentar post