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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

O monopólio

 

Quando se já está na idade — correcta — da reforma laboral começa-se a saber muita coisa, porque se tem mais tempo para investigar e aprender. A corrida para ganhar o pão de cada dia deixa de ser necessária e pode optar-se por fazer “coisas” que nunca se fizeram antes ou por meditar.
Ainda não sou exactamente um reformado, porque mantenho actividade como professor universitário, embora, pela própria natureza da função, me tenha dedicado a pensar nos assuntos sobre os quais tenho obrigações ou sobre aqueles que me dão prazer.
 
Acontece que a minha recente decisão de quebrar um laço, com 53 anos de existência, com a APE me fez pensar muito sobre o assunto. Comecei por recordar os fins da fundação do, então, Grémio dos Alunos dos Pupilos do Exército. Os fundadores, que tive a felicidade de conhecer — e bem — quase todos, queriam agrupar-se numa associação para manter viva a mística de camaradagem e amizade que os havia unido na vivência do Instituto. Nessa época, todas as associações eram mal vistas e sobre todas recaía a desconfiança de por lá se conspirar contra a ditadura que amordaçava o país e as gentes. Tinham decorrido somente duas décadas sobre a fundação do Instituto. O número de gerações de ex-alunos não era grande e, acima de tudo, eram todos jovens: os mais velhos estariam pelos 30 e poucos anos. As divergências entre eles eram menores e as que mais peso tinham provinham de posturas políticas antagónicas. Em nome da juventude comum ultrapassavam-se esses escolhos e todos se juntavam à volta da ideia de se criar um prolongamento do Instituto. Mas houve logo gente, desde a primeira hora, que dispensou o Grémio (mais tarde Associação). Para esses, o amor à Casa não se traduzia na necessidade de estar arregimentado à volta de uma estrutura regulamentada; para esses a camaradagem guardava-se no peito e a amizade no coração.
 
Eu fiz-me sócio da APE, porque, logo no primeiro ano de frequência do Instituto, alguns dos mais antigos alunos, com aquela “meiguice” que todos nós conhecemos me “recomendaram” a adesão, usando de frases persuasivas, tais como: — O puto ou se faz sócio ou partimos-lhe a tromba! Claro que, pesem embora os meus 13 anos espigadotes, não tive outro remédio... Fazer-me sócio e acrescentar às despesas lá de casa mais a quota trimestral. Não era isso que deitava abaixo as finanças familiares!
Como se vê, fui, primeiramente, sócio “voluntário”, depois sócio consciente... Mas esta última condição só a adquiri quando já era oficial e estava em África. Por lá encontrei muitos ex-alunos que nunca se tinham filiado na APE, nunca tinham pago uma quota — até porque era difícil a transferência de capitais para Portugal — mas amavam entranhadamente o Instituto e vibravam com tudo o que a ele dissesse respeito. Vibravam mais do que muitos ex-alunos, vivendo em Lisboa e com a sede da APE ali ao virar da esquina.
 
Isto tudo vem a propósito de alguns antigos alunos — se calhar até muitos — associados na APE julgarem que só quem paga as quotas e frequenta a sede social é que sente o Pilão. Para esses o amor à «Casa tão bela» é monopólio da APE, só ali e sendo sócio, é que se pode discutir o que é bom ou mau para o Instituto. Só na rua Major Neutel de Abreu é que residem as virtudes! Fora da Associação não há gente que possa ter e defender pontos de vista divergentes dos adoptados pela APE. A APE e os sócios têm o monopólio de opinião... E vão mais longe! Alguns chegam até a verbalizar a hipótese de, para se discutir em divergência com a Associação, ter de se fundar uma outra!!! Deuses dêem juízo a estes ex-alunos!
 
Tudo isto prova que, cada vez mais, se torna imprescindível perceber o que realmente é importante dentro da APE: o governo de uma mera associação ou a gestão de uma estratégia para conseguir alterar o curso da vida do Instituto — que, segundo parece, tende a encurtar-se? Ora, só quando os corpos gerentes forem capazes de definir o que pretendem é que conseguirão perceber que não representam os antigos alunos dos Pupilos do Exército. Não! Limitam-se a representar uma parcela dos antigos alunos: a dos associados da APE. O resto representa-se por si próprio
 
Se os corpos gerentes da APE tivessem real consciência do que representam e de quem representam teriam de ser mais prudentes nas suas afirmações de princípios; teriam de ser mais cautelosos nas propostas que apresentaram e que ainda apresentam; teriam de procurar ouvir ex-alunos que não são sócios, pois, provavelmente, muitos há que até têm ideias concretas quanto ao futuro do Instituto, até têm influência política nos lugares que ocupam e nos relacionamentos que desenvolvem, mas não se revêem na Associação. Por não se reverem nem são obrigados a tornarem-se sócios, nem devem calar as suas opiniões. Se alguém tem que alterar posturas é a APE. Ela é que tem de se adaptar às realidades, que são as existentes e não as que alguns dirigentes imaginam.
 
Não gosto de monopólios e cada vez mais, por isso mesmo, não gosto dos antigos alunos que gravitam pela APE. Num dia destes acabam representando-se a eles mesmos e a mais ninguém!

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