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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Quando usávamos luvas

 

Já vai muito longe o tempo em que os alunos dos Pupilos do Exército e os do Colégio Militar, tal como os da Escola Naval e os da Academia Militar, a par de todos os oficiais dos três ramos das Forças Armadas, usavam luvas com o trajo de saída, também chamado n.º 1. Começaram por ser umas luvas de algodão cinzentas, mas rapidamente deram lugar a outras de pelica castanha.
 
Parece não ter importância nenhuma este simples pormenor do fardamento... mas a verdade é que tem e é muito grande.
O uso da luva calçada na mão esquerda, que segurava a outra da mão direita, caracterizou um tempo em que os grupos sociais se distinguiam pela forma de trajar. As luvas eram sinal de que o trabalho de quem as usava não era braçal, porque simbolizavam a protecção das mãos para a execução de labores delicados, tais como escrever, ler, pintar, tocar instrumentos musicais e tantos outros. Na vida castrense eram um distintivo de comando, de graduação superior, porque os soldados e os sargentos só colocavam luvas em dias de cerimónia, quando integravam formações armadas e equipadas para se mostrarem em luzidas paradas militares. Contudo, os oficiais usavam-nas sempre, porque eram cavalheiros de sociedade.
Não acredito que «o hábito faça o monge», mas o uso constante do mesmo «hábito» acaba por se impor e obrigar à adopção de regras que, muitas vezes, quem não é «monge» passa a comportar-se como tal.
 
É natural que, nos tempos correntes, especialmente no nosso país, onde o conceito de Democracia é um novo-rico bem aperaltado, penteado, exibindo grossos anéis de ouro, mas com um polimento ligeiro, que estala ao primeiro passo mais largo, é natural, dizia, que se tenha abandonado o uso das luvas como adorno distintivo de grupo social ou de comando. Todos querem parecer o que não são, sendo, realmente, umas marafonas sócio-culturais que se travestem para agradar a quem os pode criticar. Se os meus leitores tiverem dúvidas reparem no exemplo do líder do CDS/PP que todos os dias aparece na televisão ornamentado de gravata, mas, quando se desloca, em comícios, junto do povo humilde das aldeias, aparece de colarinhos abertos para se confundir com o homem da rua; ou, se preferirem, o líder do PCP que, por regra não usa gravata, mas quando vai a um debate televisivo lá se adorna com o pedaço de pano ao pescoço. E isto são meros exemplos! Afinal, cada um de nós parece estar mais preocupado com a imagem que transmite para fora do que com aquilo que, na verdade, é ou defende.
Tais atitudes resultam, na minha opinião, de uma aprendizagem rápida e desajeitada do que é Democracia; o pedreiro perdeu o orgulho da sua profissão, tal como o balconista, o sapateiro, o canalizador — todos querem parecer bem instalados na vida, enfarpelando-se como burgueses — e, do mesmo modo, os estudantes, os políticos, os professores, os médicos, os oficiais das Forças Armadas desejam não se mostrar por fora como pertencendo a um grupo culturalmente distinto dos restantes e, assim, nivelam-se por baixo. Somos todos uns farsantes, pois vivemos e cultivamos a farsa como forma correcta de estar em sociedade.
 
É sabido que, desde muito jovem — talvez lá pelos dezoito anos, estava ainda no Instituto — manifestei as minhas poucas ou nenhumas simpatias pelo Estado Novo. Por isso, é com grande à-vontade que afirmo o meu agrado pelo tempo em que os alunos dos Pupilos, obrigatoriamente, usavam luvas de pelica castanha quando trajavam o uniforme de saída. Nessa época cultivávamos o gosto pela diferença, o prazer por sermos mais do que os outros... E fazíamo-lo sem vergonha, de cara levantada, porque era honroso. Hoje em dia, até vergonha há em andar fardado, quanto mais de luvas na mão! Há quantos anos não vejo na Baixa, ou em qualquer centro comercial — que não seja o «Fonte Nova» ou o «Colombo» — um aluno uniformizado!
 
Se não se cultiva o orgulho e a saudável vaidade exterior, como se pode esperar que existam verticais valores nos jovens que frequentam o Instituto?
As minhas experiências recentes deixaram-me bastante desiludido! Está claro que uma árvore não faz a floresta!

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