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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Há cinquenta e dois anos

 
A fotografia que antecede esta pequena crónica tem cinquenta e dois anos e alguns meses — foi tirada no dia 25 de Março de 1955.
Para ajudar à identificação, eu sou o terceiro a contar da esquerda, na última fila de cócoras.
Curiosamente, recordo-me muito bem de nos juntarmos lá em cima, no começo dos «campos» da 2.ª Secção, quando ainda não havia nada mais do que o velho ginásio… Por estranho que possa parecer, a nossa vista perdia-se pelo meio dos terrenos com árvores e muros que dividiam as propriedades até se enxergar, à distância, um pouco do primeiro anel do destruído estádio do Benfica — que tinha sido inaugurado nesse ano, talvez uns meses antes.
 
Recordo o momento em que alguém disse: — Malta toca a juntar para tirar uma fotografia. Éramos a turma B do 2.º ano do ciclo geral preparatório.
Como sempre fui avesso à identificação de pessoas por números — fazendo jus, afinal, ao que se determina no Decreto que criou o Instituto, em 1911, que, claramente, estipula que os alunos serão conhecidos pelos seus nomes e não pelos números — já esqueci a identificação de uma boa parte dos meus companheiros de fotografia; recordo algumas alcunhas e um ou outro nome.
 
Eu tinha entrado em Outubro do ano anterior e vivia, naquela altura, os meus primeiros meses de Casa. Tudo, ou quase tudo, era uma novidade. Começava a fazer as primeiras amizades. Lá estão o Marreiros e o Pinheiro, primeiros Amigos com quem me entendi na fase de adaptação.
 
Ao olhar para esta fotografia — agora ampliada com o auxílio das novas tecnologias digitais — tenho uma estranha sensação. Havia em quase todos nós — nas fisionomias, na postura, na vestimenta — um ar boçal, alguma coisa que, de facto, não anda longe daquilo que muitos velhos companheiros não querem admitir: uma forma de estar idêntica à de meros asilados.
Amplie o leitor a fotografia (basta clicar em cima da mesma) e verifique por si próprio. Tenha sentido crítico e ponha de lado esse «bairrismo» que lhe obstrui a compreensão.
Tínhamos ou não um ar de pategos? Era ou não horrível aquela horrível samarra azul, aquele barrete enfiado na cabeça como se fosse uma boina?
 
Penso que deveríamos dar de nós mesmos uma imagem muito pouco lisonjeira quando marchávamos pela estrada de Benfica, entre a 1.ª e a 2.ª Secção. Deveríamos parecer internos de algum estabelecimento destinado à infância desvalida!
Na minha opinião, não vale a pena tentar tapar o sol com a peneira, porque é pura perda de tempo. É mais curial admitir o que é evidente, embora nos cause uma certa dor cá dentro; nos provoque, até, uma certa vergonha. Mas, como não me canso de repetir, a pior mentira é a que dizemos a nós mesmos. Sejamos honestos. Olhemos de frente para a fotografia, para as nossas caras, para as nossas posições e tenhamos a coragem de reconhecer que estávamos entregues a nós mesmos, que ninguém zelava por nós, que ninguém nos impunha a obrigação de cuidarmos da nossa aparência, de ganharmos uma maneira de estar — talvez, até, de ser — que não fosse bronca.
 
Tenho outras fotografias de anos mais recentes em que este desmazelo desapareceu, em que se alteraram comportamentos e aparências e, ao comparar, pergunto-me se não terá pesado bastante nessa mudança o simples facto de o director ter passado a residir no Instituto, vigiando-nos, a todas as horas e momentos, obrigando-nos a cuidarmo-nos, a sentirmo-nos dignos de nós mesmos.
Quem como eu é militar de carreira sabe perfeitamente que a alteração de atitude é fundamental para a mudança de comportamentos. Um comandante exigente dá origem a uma tropa cheia de panache; uma tropa entregue a si mesma rapidamente se transforma num bando.
Em 1955 nós éramos um bando com um ar saloio, rufião até desmazelado.
Queiram os deuses que, por falta de acompanhamento e de vigilância, os alunos destes anos que correm não tenham o mesmo aspecto exterior que nós tínhamos há cinquenta e dois. Seria muito triste que tal acontecesse.

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