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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Alexandre Cabral e os Pupilos do Exército

 
Há dias tomei conhecimento de que a Associação dos Pupilos do Exército (APE) — da qual, felizmente, já não sou sócio por vontade própria — decidiu homenagear a memória do antigo aluno Alexandre Cabral (que muitos de nós só sabem ter escrito um livro com o título Malta Brava). Em abono da mais elementar honestidade intelectual, tenho de aplaudir a iniciativa.
 
Claro que, como era fácil de imaginar, o salão de honra, bar, sala de jogo e salão de exposição — pois para tudo serve a maior divisão da sede da APE — estava literalmente às moscas, não fosse a presença de umas quantas «almas caridosas» que «vão a todas». Disto mesmo deu notícia um dos mais recentes trabalhadores voluntários da referida Associação. Da Direcção só compareceu ao acto um elemento (presumo que tenha sido o presidente da mesma).
Mais palavras para quê?
 
Quando, por iniciativa da APE, se vai homenagear uma das mais destacadas — ou talvez mesmo a mais destacada — figura intelectual, de todos os tempos, do Instituto dos Pupilos do Exército e não está presente, em força e peso, a Direcção da Associação é porque alguma coisa se passa de muito mau no seio da mesma. É porque a Casa de que muitos se orgulham de ter frequentado não criou assim um escol tão evidente quanto se apregoa aos quatro ventos.
Duvido mesmo que a maioria dos antigos alunos tenha lido o romance Malta Brava e que conheça onde e como se destacou o seu autor. Duvido que saibam que Alexandre Cabral foi a maior autoridade e o mais excelente conhecedor de Camilo Castelo Branco (não me estou a referir àquele ser que se passeia pela televisão e que dá pelo sobrenome de Castel Branco!); que, para além de Malta Brava, escreveu contos maravilhosos e realistas que compilou nos livros O Sol Nascerá um Dia, Contos da Europa e da África e Histórias do Zaire, tal como a novela Terra Quente, e os romances Fonte da Telha e Margem Norte. Deixou, também, uma peça de teatro intitulada As Duas Faces. Deve acrescentar-se, ainda, Memórias de um Resistente.
 
Conheci Alexandre Cabral nos Pupilos, no final da década de 50 do século passado, quando ali foi fazer, aos alunos, uma palestra que intitulou «Camilo Castelo Branco e a questão do viscondado». Ouviu-o atentamente, não só por se tratar de um ex-aluno «famoso», mas também por já nessa altura ser um escritor de nomeada. Se calhar, serão poucos os condiscípulos do meu tempo que se recordam desse magnífico serão!
Muitos anos mais tarde, fruto de relações familiares, tive oportunidade de contactar com ele em brevíssimos encontros. Pouco ou nada falámos do Instituto, porque sempre me pareceu não ser da sua inteira simpatia recordar esses tempos longínquos.
 
Em anos transactos, desgastei-me em pequenas polémicas no «Fórum XXI» — suposto ponto de encontro, na Net, de antigos alunos — sobre o pouco honroso lugar ocupado pelo Instituto no ranking das escolas do ensino secundário nacional.
Chamei a atenção para a necessidade de se «repreender» os professores e os alunos pela sua falta de exigência, pelo seu pouco empenhamento nos estudos, pela ausência de acompanhamento a que, afinal, todos estão votados. Sempre houve quem apresentasse mil e uma razões justificativas, que desculpavam formadores e formandos.
 
Soube de homenagens feitas ao aluno que alcançou um lugar notável num qualquer campeonato de esgrima — vai saltar já alguém pronto a chamar-me a atenção para o facto de não ser «um qualquer campeonato»… —, soube de um ágape em homenagem (ou seria de apoio?) ao presidente da Câmara Municipal de Loures, sei de jantares de ex-alunos militares (ao qual, afinal, também podem ir os civis) para comemorar o aniversário do Instituto, sei de homenagens que já houve ao antigo aluno Medina Carreira — que dá tanta importância aos Pupilos como eu dou à primeira camisa que vesti —, sei tudo isto e pasmo perante a mentalidade distorcida que colectivamente apresenta a massa de Pilões. Mas, sinceramente e sem qualquer mágoa, felicito-me por me ter desligado da APE, porque, realmente, mantendo a minha condição de antigo aluno, cada vez mais me convenço de que nada tenho a ver com todos aqueles que apregoam a sua passagem pelo vetusto convento de São Domingos e se proclamam de sócios da tal Associação. Ao menos, não posso ser acusado de ter faltado à homenagem a Alexandre Cabral… Mas leio atentamente as páginas que deixou sobre Camilo Castelo Branco, porque assim, pelo menos, aprendo alguma coisa!

 

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