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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

O meu tímpano do ouvido, os Pupilos e o Colégio Militar

 
Estava de férias — uma curta interrupção nas minhas actividades docentes e de investigação — quando dei, através do blog de um jovem antigo aluno do Colégio Militar, com a notícia do 24 Horas sobre a anulação de inscrição de 23 alunos no referido estabelecimento como consequência de um outro ter sofrido a perfuração do tímpano em resultado de uma bofetada de um aluno graduado.
 
Recuei, mentalmente, ao ano de 1955 ou 1956 e recordei-me de uma estória da qual fui protagonista quando era ainda aluno do Instituto dos Pupilos do Exército. Não posso deixar de contá-la para se estabelecerem comparações e tirar conclusões. Provavelmente, a minha estória não constitui caso único tanto no Instituto dos Pupilos  do Exército como no Colégio Militar.
 
Nesses anos recuados andava em voga uma canção portuguesa cujos versos já não recordo, mas lembro-me de parte da adaptação que nós, alunos, fizemos. Dizia assim: «A sopeira de Famalicão/ Que não era bonita nem boa/ … / Já vai para a cama/ Dormir com o patrão/ etc.».
Ora, numa bela tarde, vindo um pelotão formado da 2.ª para a 1.ª Secção, passa por nós, na travessa de S. Domingos de Benfica, uma empregadita de servir que ouviu, antes da segunda metade da formatura, algum «engraçado» cantar-lhe os versos da cançoneta em moda. A moça não terá gostado — não sei se por se achar «bonita» ou «boa» ou, por ir ou não ir para a cama com o patrão — e, vai daí, apresenta queixa ao sargento de dia. Este, como era hábito na época, por não ver grande mal no acontecimento, falou com o aluno comandante de batalhão para que fosse chamado à atenção o engraçadinho autor do dito que tanto ofendera a sopeira.
Depois do jantar, como era da praxe, forma o pelotão nos claustros e começa o interrogatório. Devo dizer que tivemos de formar nas posições que ocupávamos à tarde. Eu, como um dos mais altos, vinha na cauda da formatura.
 
Como se recordam os «jovens» do meu tempo, as horas destinadas às actividades extra-escolares eram poucas e, depois do jantar, era o momento que pessoalmente reservava para ler um jornal ou uma revista; estar ali na formatura, sofrendo colectivamente um interrogatório estúpido, constituía um verdadeiro tormento para mim.
Como ninguém se acusava, o graduado — comandante de secção — finalista, salvo erro, 344, Dores, garantiu que se o responsável se desse a conhecer nada lhe acontecia.
 
Farto de esperar pelo meu tempo de leitura, consciente de não ter sido eu o autor da ocorrência, num repente, decidi acusar-me: — Fui eu, gritei lá do fundo.
O Dores não esteve com meias medidas. Mandou-me avançar até ele e, mal tinha chegado, fui «aviado» com uma valente chapada na face esquerda (que me apanhou o ouvido) acompanhada da seguinte frase: — Heroísmos são para o campo de batalha!... Eles, os graduados, sabiam que os versos tinham sido cantados por alguém que vinha na primeira metade do pelotão.
 
A dor foi aguda e, quando me assoei, o ar saía pelo ouvido esquerdo. Tinha sofrido uma perfuração.
No dia seguinte, à hora da revista de saúde, fui ao médico queixar-me de ter levado uma bolada no ouvido, quando jogava andebol. O clínico — uma suma «inteligência» que por lá andava — «descobriu» que eu tinha, afinal, um furúnculo no ouvido e vá de me aplicar com três ou quatro gotas de um qualquer produto. Claro que, ao chegar ao refeitório, tive de voltar em braços para a enfermaria pois havia perdido toda a noção de equilíbrio. Passei a tarde deitado sobre o lado esquerdo para escorrer o líquido entrado e, no dia seguinte, que era sábado, lá vim a casa onde, ao meu pai, enfermeiro de profissão, contei de novo a estória da bola e do «tratamento» aplicado pelo médico. Ele observou-me e proibiu-me de tomar banho sem antes ter resguardado o ouvido com um bom bocado de algodão e de me assoar com esforço. O tímpano havia de se regenerar. E não é que se regenerou sem perda de audição! Ainda anda por cá, sem problemas.
 
Ficou-me a lição: Heroísmos, só no campo de batalha!
 
Depois da estória resta perguntar-me: — Que tipos de gente andam os pais de hoje a formar? Que tipo de gente são os filhos dos pais de hoje?
Se há 50 anos eu tivesse dito a verdade ao médico e ao meu pai o máximo que teria ocorrido era o Dores ouvir uma forte reprimenda do Director e o meu pai ter-me dito qualquer coisa do género: — Quem te manda ser parvo e chamares a ti uma responsabilidade que te não cabia?
 
Que os meios violentos devem estar ausentes dos sistemas educativos, todos nós o sabemos, mas nem sempre se perde grande coisa com a aplicação de uma bofetada dada a tempo… Mais vale isso do que ver um filho nos «suaves» braços da toxicodependência!
 
Como pai, avô e coronel, antes de saber as razões, estou solidário com o graduado do Colégio Militar e em total desacordo com os papás dos meninos que desistem da inscrição das suas doces crianças naquele estabelecimento de ensino. O graduado deve saber conter os seus impulsos e os papás devem deixar de colocar algodão em rama no caminho das suas criancinhas… E não é preciso operar um tímpano perfurado, digo eu, que disso sei bastante!

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