Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Falta pouco para 50

 
É verdade, faltam poucos meses — três somente — para a fotografia que apresento em cima fazer 50 anos de existência. Andava eu no 1.º ano do Curso de Contabilistas, ou seja, qualquer coisa como 10.º ano de escolaridade, segundo a linguagem dos dias que correm.
 
Recuar àquela época faz-me lembrar tantas e tão variadas coisas! Há, contudo, uma que me assalta o espírito com muita mais força que toda a catadupa de lembranças nas quais estou mergulhado: a nossa formação técnica.
 
Realmente, no 10.º ano de escolaridade, faltavam-me mais dois para ter um curso médio concluído.
Curso médio era a designação oficial da época para os estudos que se situavam entre aquilo que se chamava «secundário» e «superior». O curso médio era uma excelente habilitação para a vida, porque, ter-se uma formação que ensinava a «fazer com conhecimento científico» era básico e essencial num tempo em que não havia a actual proliferação de licenciados: isto de todos o serem acaba por conduzir à situação de se não dar valor ao grau académico, facto que tem de nos levar a rever a tradicional forma de tratamento deferente por «Senhor Dr.».
 
Reparem, os meus leitores, nesta coisa estranha que a Democracia — e eu sou o mais possível a favor dela, embora não concorde com certas distorções que nos trouxe — gerou em Portugal: acabou com os cursos profissionais e técnicos para fazer de toda a gente pessoas aptas a frequentar uma Universidade ou Instituto Politécnico; depois, fez proliferar, entre nós, inúmeras instituições de ensino superior; acabou com o ensino técnico e profissional.
Um bom mecânico de automóveis, nos tempos que correm, para o ser tem de começar como aprendiz, mesmo que possua o 12.º ano de escolaridade. O mesmo acontece com um electricista e com um empregado de escritório que se limite a ser operador de um qualquer sistema computorizado.
 
Há 50 anos, não havia tantos «Senhores Drs.» mas, também os que existiam tinha emprego certo! Há 50 anos havia mecânicos que aprendiam a profissão começando como moços de recados na oficina e havia aqueles que, por terem frequentado, até ao 9.º ano de escolaridade, um curso técnico de indústria, estavam habilitados com um diploma e começavam imediatamente como responsáveis por oficinas — grandes ou pequenas.
Nos cursos médios — que, realmente, não tem equivalência aos bacharelatos politécnicos — discutia-se pouca teoria e aprendia-se, privilegiando a prática, mas uma prática cujos fundamentos teóricos não se deitavam fora.
No Curso de Contabilistas estuda-se Direito Comercial de modo a saber como proceder correctamente e não para defender causas em tribunal; estudava-se Direito Civil para se conhecer o essencial sobre contratos e direitos sucessórios; estudava-se Economia Política para se saber como se desenvolviam a micro e a macro economias com vista a perceber o papel da empresa no mercado e não para se discutir finanças ou políticas económicas; estudava-se Cálculo Financeiro, aplicando todos os conhecimentos matemáticos necessários à resolução de problemas comuns de juros simples e compostos e outras formas de capitalizar, mas nunca na perspectiva de aprofundar o que não fazia falta à função.
Com os conhecimentos práticos e teórico-práticos aprendidos e com a experiência de vida profissional chegava-se, na maioria dos casos, a poder discutir questões concretas com licenciados em Economia ou em Finanças (não havia a licenciatura em Gestão de Empresas).
 
Há 50 anos a sociedade do conhecimento era restrita, por força do regime político que governava o país, mas tinha a vantagem de ser hierarquizada, facto que, só por si, não constitui pecado. Pecado é terem-se hoje licenciados a servir à mesa de restaurantes, a venderem de porta em porta, a cobrarem dívidas difíceis, a fazerem de conta que sabem trabalhar num escritório, a reverem jornais, a limparem piscinas, enfim, com todas as possíveis e imagináveis profissões das quais não passam de meros aprendizes.
 
O desejo de democratizar o ensino levou à distorção do mesmo ensino, provocando profissionais traumatizados, porque não fazem nada daquilo para que foram supostamente preparados.
 
Parece que, finalmente, se começa a ter, muito a medo, alguma consciência do grave prejuízo que foi para a nossa economia e para a estruturação do tecido laboral o fim dos cursos técnico-profissionais e dos cursos médios de comércio e indústria.
Claro que não preconizo a repetição do modelo de há 40 anos! Mas defendo que é necessário voltar a fazer bons técnicos para enfrentarem o mercado de trabalho com competência e conhecimento sem que, com isto, esteja a preconizar que um técnico deva deixar de estudar; não. Aos técnicos pode e deve estar aberta a porta de acesso à universidade, desde que ele tenha consciência que tal frequência ou só lhe vai trazer mais cultura geral ou, em casos excepcionais, mais cultura técnica.
 
O Instituto dos Pupilos do Exército pode voltar a ser pioneiro no ensino técnico sem complexos, porque aos seus antigos alunos estarão acessíveis as mesmas oportunidades que tem qualquer outro estudante que conclua o 12.º ano de escolaridade com a vantagem de estarem habilitados com condições imediatas de utilidade laboral.
 
Que se feche o ciclo dos bacharelatos para dar início ao ciclo dos cursos técnicos, porque, todos quantos frequentámos os cursos médios andámos naquela Casa, afinal, até ao 12.º ano de escolaridade e nada mais. E, com isso, fomos capazes de ir muito longe!

3 comentários

Comentar post