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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

A democracia na APE

Cheguei de Moçambique, em Fevereiro de 1969. Havia cumprido a minha primeira comissão nas colónias. Como sou da Força Aérea tinha-me tocado ficar na cidade da Beira. Lá, no ano anterior, um punhado de antigos alunos tinha-se mobilizado e havíamos recebido condignamente a «Caravana da Amizade» — prometo, um dia, contar-vos essa tarefa — chefiada pelo saudoso brigadeiro Álvaro de Oliveira. Na sequência, activou-se o «Núcleo de Antigos Alunos Residentes na Cidade da Beira». Todos os meses nos reuníamos em almoçarada. Formávamos um conjunto com idades heterogéneas, porque composto por ex-alunos de épocas diferentes. Todavia, havia entre nós bastantes militares.

Como resultado da passagem da «Caravana de Amizade», fui portador de duas grandes e pesadas placas de bronze pregado em madeira rara daquele território. Vieram na minha bagagem: uma, figura nos claustros, infelizmente «remendada» com um pedaço de madeira de má qualidade, porque alguém ao manuseá-la quebrou parte... quando dela fiz entrega ao Director, estava inteira; outra, ocupa lugar de destaque na parede do salão da sede da APE.

O ânimo trazido de África e a proximidade que se havia estabelecido entre mim e o brigadeiro Álvaro de Oliveira — homem com feitio difícil, mas inteiramente devotado à Associação e ao Instituto que o preparara para a Vida — fizeram-me estar presente nas reuniões da Direcção da Associação dos Pupilos do Exército (APE) durante o resto do ano de 1969 e integrar os corpos directivos no ano de 1970 (naquele tempo os mandatos tinham a duração de doze meses e nada mais!).

Nesse período tive oportunidade de conhecer figuras com um perfil moral e cívico fora do vulgar. Avultam-se o Presidente da Direcção — o brigadeiro, que foi sucessivamente eleito para o cargo durante anos a fio — e o inesquecível José Barroso Júnior, tio da Dr.ª Maria Barroso.

Nunca assisti a reuniões onde a prática da democracia fosse maior. Tudo era votado à volta da mesa da Direcção (que continua a ser a mesma e veio, há muitos, muitos anos, direitinha do gabinete do Director da Manutenção Militar para a Associação, por iniciativa do antigo aluno Álvaro de Oliveira! Coisas extraordinárias que se faziam nesses tempos levadas a cabo por gente extraordinária). Não se tomava uma decisão sem ser votada e sem cada um dizer das suas razões. Nisso era mais extraordinário o Barroso Júnior, homem com mais de sessenta anos, mas com a mocidade de espírito de um jovem. A vida para ele era levada a sério e todos tinham direito a expressar a sua opinião, por muito disparatada que ela fosse.

Durante dois anos, na velha sede da Rua da Misericórdia, uma vez por semana eu tive um serão de Democracia prática. Foi lá que aprendi a ver ganhar quem não tinha razão e a perder quem estava cheio dela. Mas o curioso é que, depois de votada uma decisão todos a tomavam como sua, mesmo que a ela se tivessem oposto. E ninguém ficava ressabiado, porque as regras eram límpidas e o jogo era feito com clareza. Para viver ditaduras já nos bastava a que nos era imposta pelo Governo de então. É evidente que muitas vezes a discussão era rija, os esclarecimentos frontais, as oposições iam até à exaustão, mas nem fazíamos favores uns aos outros nem ninguém calava a nossa razão... só a maioria. Interessante era ver como esta era modesta depois da vitória! Nós não transportávamos para a sala da Direcção as nossas frustrações pessoais. Nem as nossas vaidades.

O brigadeiro Álvaro de Oliveira andava, então, em campanha para angariar fundos destinados à construção da nova sede da APE. Era o mais forreta que se possa imaginar. Até o preço de um selo postal se discutia. Aceitava tudo o que quisessem dar para a Associação, mas esta não dava nada a ninguém.

Certa noite fui direito ao assunto e com o feitio que tenho, olhando Álvaro de Oliveira bem nos olhos, disse-lhe:

— Meu brigadeiro, o Senhor só pensa em sacar dinheiro aos associados. A Associação dá uns brinquedos, pelo Natal, aos filhos pequenos do sócios, um Boletim de vez em quando e nada mais. Não acha que é altura de dar qualquer coisa para todos numa data que seja importante para cada um?

O presidente da Direcção olhou-me, muito sério e respondeu:

— E qual é a sua proposta?

— Simples — respondi pausadamente — mandar a cada associado, no dia do seu aniversário natalício, um cartão, felicitando-o pelo acontecimento.

— Vamos votar — disse.

Votámos e a minha proposta ganhou por maioria. Ele ficou isolado. Sorriu-me e comentou:

— É tempo de a Associação oferecer qualquer coisa aos sócios, para além do Boletim.

A 19 do mês passado recebi um envelope da APE. Ainda não o abri, mas sei que o cartão lá está igualzinho ao do ano passado e igual ao que há trinta e cinco anos venho recebendo no mesmo dia.

A democracia, no tempo do fascismo, era límpida e singela quando e onde podia ser exercida...

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