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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Assalto à 1.ª Companhia

Há tempos recebi, numa das minhas caixas de e-mails, uma larga quantidade de fotografias de um ex-aluno muito mais moderno do que eu no Instituto. Uma delas chamou-me a atenção mais do que as outras, porque ali se viam três alunos “armados” com as tradicionais toalhas enroladas em forma de moca preparados para uma surtida punitiva a qualquer camarata, pois o “retrato” tinha sido tirado à noite.
 
A fotografia trouxe-me à memória os célebres “assaltos” à 1.ª Companhia levados a efeito por altura do Carnaval, nos recuados anos do início da década de 50 do século passado.
 
Tentarei recordar, com tanta soma de pormenores quantos os possíveis, o que eram essas “campanhas punitivas” de tão distantes anos.
 
Sendo a 1.ª Companhia a dos alunos mais novos — entre os dez e os treze ou, no máximo, catorze anos — comandados por um punhado de graduados de idades entre os dezasseis e os dezoito, esse “bendito” “assalto”, feito por todos os mais velhos, vindos das 3ª e 4 .ª Companhias, correspondia a um verdadeiro massacre em que os “putos” “enfardavam”, até à exaustão, segundo a vontade dos mais velhos cobardemente defendidos pelo seu tamanho e maior número.
Era uma estúpida tradição só possível num colégio onde os alunos, depois das aulas, ficavam entregues ao descuido de um qualquer oficial de serviço disposto a não se incomodar excessivamente com o que acontecia nas instalações pelas quais devia zelar. Um colégio — repito-o, sem qualquer rebuço — bem próximo, na aparência da vida interna, de ser um reformatório ou asilo de infância desvalida. Um colégio onde proliferavam os javardos que, tendo saído de casa sem nenhuma ou com pouca educação, por lá aprenderam a impor-se pelos princípios da força que, como se sabe, dá guarida aos mais cobardes e mais mal formados caracteres.
Que me lembre, houve “assaltos à 1.ª Companhia” nos anos lectivos de 1954/55, 1955/56 e, talvez, 1956/57. Depois acabaram, como acabaram muitos comportamentos próprios de asilados. Foi a mão férrea, mas destemida e empenhada, do coronel Ferreira Gonçalves quem deu a machadada final nessa vergonhosa tradição de cobardia colectiva.
 
Já não posso precisar em qual, mas num dos anos acima referidos, na noite aprazada para o “assalto” estava de serviço o célebre capitão Vávora (ainda hoje não sei o que quer dizer, nem se é assim que se escreve), de seu nome Marques Lopes. Era um verdadeiro oficial de Infantaria, de estatura meã, míope em grau avançado, mas disciplinado e disciplinador como poucos passaram, nesse tempo, pelo Instituto. Calçava sempre botas altas e, de quando em vez, segurava na mão um bonito pingalim de couro, símbolo de autoridade e comando.
Os preparativos, após a 3.ª refeição, começaram de imediato — quer no lado dos “atacantes” quer no dos pobres “defensores”. As toalhas bem enroladas e, recheadas, segundo a imaginação de cada um, com os objectos mais duros que se encontrassem à mão. Depois do toque a recolher já se encontravam a “hostes” preparadas para saírem dos edifícios junto aos portões de entrada e deslocarem-se em “ordem de batalha”, silenciosamente, para os lados da área conventual. Eu estava, ainda, nestes últimos e, por ser um dos mais altos de toda a miudagem, tinha como obrigação plantar-me na primeira linha de defesa, com os graduados. As “guardas-avançadas postaram-se nos locais apropriados para darem o alarme do avanço adversário e assim o fizeram ao verem a movimentação da massa bruta dos matulões da 4.ª Companhia. A contenda começou renhida, defendendo, cada um, como podia, a porta das respectivas camaratas para não permitir a entrada e a grande confusão. Bem aguerrida estava a peleja quando alguém gritou: — Chui malta... olha o Vávora!
Realmente a figura do terrível capitão surgiu, pouco depois, empunhando o pingalim, enquanto vociferava: — Então meninos, então meninos.
Os distúrbios já tinham sido de monta, principalmente no que respeita a vidros partidos nas portas das camaratas, pois os “atacantes”, na fúria de tudo levar de rompante, quebravam-nos enquanto gritavam para gerar o pânico nos mais pequenos. Rapidamente o “assalto” cessou e a ordem foi retomada com a entrada em vale de lençóis ainda sob o efeito da adrenalina ao rubro.
No dia seguinte, algum poeta e melómano pôs a circular uma cantiga da qual já só recordo alguns versos brancos. Rezava assim:
Gritos, alaridos
Vidros partidos,
É o Carnaval da Malta
O Vávora de chicote
Isto é um pagode
É o Carnaval da Malta
E continuava numa lengalenga que os anos varreram da minha lembrança.
À guisa de parênteses, contudo, não posso deixar de aqui lavrar uma coincidência curiosa.
Por volta de 1983 ou 1984, era eu major, já levando quase vinte anos de oficial, tive como condutor um jovem praça, educado, comedido e correcto, que todos os dias me levava para a Base Aérea n.º 1, em Sintra. Certa manhã, por qualquer razão que não lembro, desviámo-nos do trajecto normal, fazendo caminho por Benfica passámos junto à 2:º Secção dos Pupilos. Com naturalidade, deixei cair a frase «Foi aqui que estudei durante sete anos» e, para espanto meu, diz-me o condutor: — Então é capaz de ter conhecido o meu pai! Quis, de imediato, saber quem ele era, porque admiti tratar-se de algum ex-aluno e, qual não é o meu espanto, diz o condutor: — O meu pai é o brigadeiro Marques Lopes.
Nem quase podia acreditar! Então o motorista que há vários meses me conduzia à Base era filho do Vávora?! Mandei cumprimentos para o pai e calei as muitas estórias que poderia contar-lhe do progenitor.
A Vida dá muitas voltas e, em algumas delas, faz-nos surpresas que julgávamos impossíveis. Esta foi uma delas!
 
Como estamos na época carnavalesca aqui ficam recordações que já têm muitos anos!
Meditem, os mais jovens, nas javardices desses tempos recuados e recordem, os mais velhos, algumas verdades que, se calhar, querem esquecer.
Brinquem muito ao Carnaval...

Quando usávamos luvas

 

Já vai muito longe o tempo em que os alunos dos Pupilos do Exército e os do Colégio Militar, tal como os da Escola Naval e os da Academia Militar, a par de todos os oficiais dos três ramos das Forças Armadas, usavam luvas com o trajo de saída, também chamado n.º 1. Começaram por ser umas luvas de algodão cinzentas, mas rapidamente deram lugar a outras de pelica castanha.
 
Parece não ter importância nenhuma este simples pormenor do fardamento... mas a verdade é que tem e é muito grande.
O uso da luva calçada na mão esquerda, que segurava a outra da mão direita, caracterizou um tempo em que os grupos sociais se distinguiam pela forma de trajar. As luvas eram sinal de que o trabalho de quem as usava não era braçal, porque simbolizavam a protecção das mãos para a execução de labores delicados, tais como escrever, ler, pintar, tocar instrumentos musicais e tantos outros. Na vida castrense eram um distintivo de comando, de graduação superior, porque os soldados e os sargentos só colocavam luvas em dias de cerimónia, quando integravam formações armadas e equipadas para se mostrarem em luzidas paradas militares. Contudo, os oficiais usavam-nas sempre, porque eram cavalheiros de sociedade.
Não acredito que «o hábito faça o monge», mas o uso constante do mesmo «hábito» acaba por se impor e obrigar à adopção de regras que, muitas vezes, quem não é «monge» passa a comportar-se como tal.
 
É natural que, nos tempos correntes, especialmente no nosso país, onde o conceito de Democracia é um novo-rico bem aperaltado, penteado, exibindo grossos anéis de ouro, mas com um polimento ligeiro, que estala ao primeiro passo mais largo, é natural, dizia, que se tenha abandonado o uso das luvas como adorno distintivo de grupo social ou de comando. Todos querem parecer o que não são, sendo, realmente, umas marafonas sócio-culturais que se travestem para agradar a quem os pode criticar. Se os meus leitores tiverem dúvidas reparem no exemplo do líder do CDS/PP que todos os dias aparece na televisão ornamentado de gravata, mas, quando se desloca, em comícios, junto do povo humilde das aldeias, aparece de colarinhos abertos para se confundir com o homem da rua; ou, se preferirem, o líder do PCP que, por regra não usa gravata, mas quando vai a um debate televisivo lá se adorna com o pedaço de pano ao pescoço. E isto são meros exemplos! Afinal, cada um de nós parece estar mais preocupado com a imagem que transmite para fora do que com aquilo que, na verdade, é ou defende.
Tais atitudes resultam, na minha opinião, de uma aprendizagem rápida e desajeitada do que é Democracia; o pedreiro perdeu o orgulho da sua profissão, tal como o balconista, o sapateiro, o canalizador — todos querem parecer bem instalados na vida, enfarpelando-se como burgueses — e, do mesmo modo, os estudantes, os políticos, os professores, os médicos, os oficiais das Forças Armadas desejam não se mostrar por fora como pertencendo a um grupo culturalmente distinto dos restantes e, assim, nivelam-se por baixo. Somos todos uns farsantes, pois vivemos e cultivamos a farsa como forma correcta de estar em sociedade.
 
É sabido que, desde muito jovem — talvez lá pelos dezoito anos, estava ainda no Instituto — manifestei as minhas poucas ou nenhumas simpatias pelo Estado Novo. Por isso, é com grande à-vontade que afirmo o meu agrado pelo tempo em que os alunos dos Pupilos, obrigatoriamente, usavam luvas de pelica castanha quando trajavam o uniforme de saída. Nessa época cultivávamos o gosto pela diferença, o prazer por sermos mais do que os outros... E fazíamo-lo sem vergonha, de cara levantada, porque era honroso. Hoje em dia, até vergonha há em andar fardado, quanto mais de luvas na mão! Há quantos anos não vejo na Baixa, ou em qualquer centro comercial — que não seja o «Fonte Nova» ou o «Colombo» — um aluno uniformizado!
 
Se não se cultiva o orgulho e a saudável vaidade exterior, como se pode esperar que existam verticais valores nos jovens que frequentam o Instituto?
As minhas experiências recentes deixaram-me bastante desiludido! Está claro que uma árvore não faz a floresta!