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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

A história de uma fotografia

 
Tudo começou quando estava eu na 4.ª classe (hoje chamado 4.º ano de escolaridade). Os meus pais, já nos dois últimos meses de aulas, receosos dos exames de admissão aos liceus, às escolas técnicas e aos Pupilos do Exército, haviam-me arranjado uma explicadora para fazer revisões e exercícios de todo o tipo de modo a garantir o maior êxito nas provas que se avizinhavam.
 
Na sala onde a saudosa senhora pacientemente recapitulava toda a matéria recebia também explicações uma jovem, uns meses mais velha do que eu, loira, com uma voz esganiçada, uns olhos vivos, palavra fácil, muito vistosa. Nos meus doze anos fiquei, logo de imediato, apaixonado pela criatura. Uma paixão, que como todas as que ao longo da vida fui tendo, não tinha explicação. Estava apaixonado, porque estava. Ela dava-me volta ao estômago e à cabeça.
 
A menina morava a meio caminho de casa dos meus pais e da residência da explicadora. Isso foi razão suficiente para, sempre que podia, me fazer encontrado com a jovem — de quem vou ocultar, naturalmente, o nome porque, estará viva e não acho importante referi-lo — e com ela trocar meia dúzia de palavras banais, pois outra coisa não sabe dizer um garoto no começo da puberdade.
 
Nesse ano, por falta de vaga, não entrei no Instituto. Os meus pais, acertadamente, matricularam-me no ciclo preparatório, numa escola que ficava exactamente algumas centenas de metros mais à frente da casa da jovem menina. Os «ocasionais» encontros foram-se repetindo e, ao contrário de diminuir, aumentava a paixão silenciosa e secreta que por ela nutria.
 
No final desse ano lectivo, de novo concorri ao Instituto dos Pupilos do Exército, agora, para o 2.º ano e, ou porque o número de ingressos era grande ou porque as condições objectivas haviam mudado, fui admitido. Não cabia em mim de contente! Esse Verão foi longo e tristonho, porque a menina tinha ido passar férias para longe de Lisboa — longe para a época, entenda-se… Fora para as Caldas da Rainha onde a avó fazia tratamento, nas termas. Esperei pacientemente o mês de Setembro, mas nada aconteceu. As janelas da casa, que todos os dias ia espiar, mantinham-se cerradas sem que dessem sinais de qualquer tipo de vida.
 
As aulas recomeçaram em Outubro e lá fui para Benfica, para muito distante da paixão que me ia consumindo. No final do ano lectivo, de conluio com o meu Amigo José Luís Carreiras Constantino — o 232, que morava na minha rua, e tinha mais dois anos de idade do que eu — escrevi uma carta à menina que tão embeiçado me trazia havia tanto tempo. Uma carta a pedir-lhe namoro, porque naqueles tempos — já passou mais de meio século! — as coisas não eram como hoje. Tudo se fazia com muito rigor e denotando grande respeito.
 
A resposta chegou pelo correio, dias depois, numa letra muito bem desenhada. Não podia aceitar, éramos muito novos e mais isto e mais aquilo. Amigos, poderíamos ser, mas mais nada. O estilhaçou-se-me o coração.
 
Novo ano lectivo, novas férias grandes — desta vez fui eu passá-las aos Açores — e, ao contrário de se me reduzir a paixão ela aumentava. Na impossibilidade de a ver satisfeita tentei deixar-me atrair por outras jovens que conheci nas ilhas atlânticas. Nasceram pequenos amores semelhantes a fogos-fátuos sem o calor e a ardência do sentimento que havia anos me queimava o coração.
 
Seguiram-se os sucessivos anos lectivos até atingir o primeiro de Contabilistas — qualquer coisa como o equivalente agora ao décimo — ia a caminho das minhas dezoito primaveras. Nas férias do Natal, encontro, por mero acaso, na rotunda do Marquês de Pombal, a menina que não tinha esquecido e que silenciosamente me corroía o coração. Nunca a havia perdido de vista, conversávamos de quando em vez, mas sempre muito de fugida. Vivia enclausurada em casa, tendo como guardiãs a avó e a mãe, porque era órfã de pai desde tenra idade.
 
Esse encontro foi providencial. Estava uma jovem bela, elegante, vistosa, de formas corporais bem delineadas, de conversa já adulta, enfim, uma mulher. Com todo o aprumo que a vivência no Instituto me havia ensinado e a educação que tinha aprendido na casa paterna e no internato, lá me fui insinuando, pedindo-lhe o número de telefone, sabendo se tinha namorado e tantas outras coisas tão necessárias a uma «abordagem» que se deseja segura e vitoriosa. O caminho estava livre e o Menino Jesus, na quadra a Ele dedicada, deixou-me no sapatinho a prenda há muito querida: um namoro sério e comprometedor com aquela que desde sempre eu sonhava para mim.
 
Em abono da verdade, devo dizer que o namoro passou por uma prévia conversa com a mãe da menina, tornando oficial o que poderia ter sido mais recôndito. Mas foi melhor assim, pois fiquei autorizado a fazer regulares visitas lá a casa com todas as limitações e liberdades possíveis para aquele tempo. O ano lectivo decorreu rápido, mas, no final, as minhas classificações não foram tão folgadas como nos anteriores. Gastava muito tempo a escrever longas cartas de amor nas horas destinadas ao estudo.
 
O Verão foi maravilhoso. Passei o máximo de dias junto daquela que me enchia o coração. Respirávamos o mesmo ar. Os beijos que trocávamos faziam de mim o mais feliz dos jovens portugueses, talvez o mais feliz de todo o universo. A paixão transbordava. Os planos para uma vida futura sofreram todas as alterações possíveis. Havia, agora, que rapidamente concluir o 2.º e o 3.º ano de Contabilistas para, depois, durante o cumprimento do serviço militar obrigatório, casarmos e vivermos felizes para sempre. O meu velho sonho de seguir a carreira militar, acalentado há tantos anos — mais do que a paixão que me prendia àquela menina — ficou arrumado e esquecido.
 
Começou o ano lectivo seguinte e as cartas aumentaram de ritmo. Agora eram diárias, e tínhamos sempre tanto para dizer um ao outro! As notas do primeiro período começaram a acusar a falta de aplicação ao estudo; as do segundo garantiram que o ano estava em fase de perda e as do terceiro tornaram realidade o que era já irremediável. Foi próximo do fim do ano, no baile de finalistas, que o fotógrafo dos Pupilos fez o quase instantâneo que encima esta crónica — lá estou eu com a menina dos meus sonhos juvenis e o meu velho Amigo Trancoso, que, mais avisado e realista do que eu, dançava com uma das suas já várias namoradas “oficiais”. O «boneco» deu que falar na nossa Casa! O padre Ruy Corrêa Leal, se tivesse tais poderes, ter-me-ia excomungado do seio da comunidade católica e, por certo, também do convívio com os meus companheiros de internato. Aquilo não era forma decente de dançar! Aquilo era o pecado fardado de aluno dos Pupilos, agarrando uma qualquer mulher perdida e de perdição!
 
A tempo consegui arrancar o exemplar da prova fotográfica, sacando-o do conjunto que circulava para encomenda das pelingrafias com que cada um queria ficar. Fiz desaparecer a «prova» do «pecado», mas não consegui apagar a lembrança do mesmo.
Na reunião do conselho escolar — como mais tarde vim a saber — o padre-capelão foi implacável, dando de mim as piores referências perante a hesitação ou relutância de alguns mestres em reprovarem-me… — Que não, que devia reprovar a todas as disciplinas! Mas a todas, sem excepção!
 
As férias de Verão começaram sob o signo do fracasso. Eram, em casa, os meus pais, olhando-me de soslaio quando ia namorar como que a recordarem-me, no silêncio mais dorido, que o meu falhanço escolar se devia a uma paixão inconsequente; era a menina que via — e não escondia esse sentimento — retardado o casamento, pelo menos, por mais um ano; era eu que me sentia mal com todos e comigo mesmo.
 
Claro, em Setembro, a menina, com aquela crueldade própria de quem viu falidos os planos e sonhos, com grande desfaçatez, acabou o namoro. Fiquei desfeito. Salvou-me o meu Pai. Com a paciência de quem ajuda um inválido fez-me perceber que, uma coisa, são os nossos próprios sentimentos, outra, os sentimentos alheios sobre nós e outra, ainda, o conjunto dos anteriores; só quando tudo se conjuga harmoniosamente pode haver futuro, de contrário, mais cedo ou mais tarde, as paixões desfazem-se, porque são, afinal, uma profunda perturbação dos sentidos.
 
Repeti o 2.ºano de Contabilistas e ingressei na Academia Militar, tal como sempre tinha desejado.
 
O futuro veio trazer-me outras surpresas, mas essas já não são contas deste rosário…

Considerações à volta do encerramento do Instituto

 
 
Nos últimos meses tenho mantido conversas sobre a existência do Instituto dos Pupilos do Exército com individualidades militares e civis que ou já ocuparam cargos decisivos no Exército ou ainda os ocupam.
 
Todos são unânimes em três aspectos: a estratégia prosseguida pelos antigos alunos quanto às alterações a ocorrer no Instituto esteve e está errada; os cursos superiores são incomportáveis no Instituto; e, por fim, é impensável manter três estabelecimentos de ensino a debitarem exactamente o mesmo tipo de formação.
 
Contra estes argumentos nada se pode opor quando, em consciência, se é honesto.
A franca teimosia em manter em funcionamento os cursos superiores a partir do início da década de 90 do século passado foi uma asneira de palmatória. Nessa altura, dever-se-ia ter aberto mão dos bacharelatos quando ainda se tinha massa crítica de alunos para lhes dar uma formação técnica secundária e capacidade negocial para encontrar novos rumos para o(s) curso(s) secundário(s) a leccionar.
Mais uma vez repito, a vocação dos Pupilos do Exército esteve e está ligada à formação de quadros intermédios que sirvam aos interesses e necessidades do Estado, sem prejuízo de dotar os alunos com possibilidades de prosseguirem cursos superiores em estabelecimentos apropriados, militares ou civis. Contudo, repiso, o importante é que os alunos concluam o 12.º ano e saibam fazer algo de prático que tenha aplicação no aparelho do Estado. Não satisfazendo esta condição o Instituto está condenado a curto espaço de tempo. E ninguém acredite na solução da cedência de seja o que for para ali se fazer uma fundação ou algo semelhante.
 
Há dias, de conversa com um antigo e excelente professor do Instituto, ele dizia-me que ter-se-ia de revocacionar o Instituto de modo a diversificá-lo do Colégio Militar. E não se trata de diminuir a importância dos Pupilos; trata-se de ver com realismo que o Exército, quando tiver de escolher um estabelecimento dele dependente para fechar portas, optará, naturalmente pelo nosso Instituto por ser o mais moderno e o que tem o lobby de antigos alunos mais fraco. E isto é inteiramente verdade!
 
Num outro encontro com um velho oficial do Exército, antigo aluno do Colégio Militar, contava-me ele que, na Associação dos Antigos Alunos, já se discutira a situação dos Pupilos e que havia consciência que o encerramento da nossa Escola punha imediatamente o Colégio na mira do Estado-Maior e, mais anos menos ano, calharia em sorte ao velho estabelecimento da Luz ver as suas portas fechadas. Assim, alguns dos mais cautelosos antigos alunos, preconizavam uma concertação de estratégias, entre os lobbies do Colégio e dos Pupilos, para se garantir que nenhum aceitava ver as suas portas encerradas. Mas que, para isso, era preciso discutir o papel de cada uma das instituições dentro da sociedade portuguesa do futuro. E que não se pode ir para um tal diálogo com «pedras no sapato» nem desconfianças; cada um — Pupilos e Colégio — tem o seu lugar e não pode ser tentando roubar protagonismo ao outro que se ganha esta batalha.
 
Enfim, do que tenho auscultado como ex-aluno do Instituto e não membro da Associação dos Pupilos do Exército (onde, por vontade e decisão própria, não mais terei assento) conclui que nem tudo está perdido, ainda, para o Instituto… Mas para que as portas da negociação se mantenham abertas não se podem fazer propostas irrealistas nem descontextualizadas; não pode haver «braços-de-ferro» e, de preferência, as propostas deverão articular soluções com os antigos alunos do Colégio Militar, de modo a interessá-los na nossa sobrevivência (recordem-se, os mais dados a estas coisas, que a resistência branca na Africa do Sul, na Namíbia e na Rodésia só caiu quando Portugal deu a independência a Angola e a Moçambique… éramos o «tampão» que os segurava! O mesmo pode ser o nosso Instituto para o Colégio Militar e para Odivelas).
 
Não cobro nada pelas ideias que aqui deixo lançadas. Anima-me a possibilidade de saber que, afinal, o Instituto dos Pupilos do Exército poderá sobreviver no meio de ventos e tempestades. Assusta-me a incomensurável vaidade e intransigência de muitos antigos alunos que não sabem como é importante, muitas vezes, recuar dois passos para se poder, mais tarde, avançar cinco ou seis. Será, por causa desses que o Instituto se perderá. É a história dos ultras, dos extremistas, dos monolíticos, dos «calhaus com olhos», se preferirem uma expressão mais popular e mais facilmente compreensível.