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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Noventa e sete anos... Linda idade!

 

 
Pois é, o Instituto dos Pupilos do Exército faz hoje 97 lindas Primaveras.
Faltam três anos para comemorar o centenário de existência de uma Escola que já foi paradigma de excelência formativa. E, se é verdade que nela funcionaram cursos superiores politécnicos, não foi nessa época que a máxima excelência foi atingida. O verdadeiro período áureo dos Pupilos do Exército rondou o final dos anos 30 até ao termo da década de 40 do século passado. Foi o tempo dos contabilistas e dos engenheiros técnicos que, com pouco mais de 18 anos de idade, tinham ofertas de empregos, como hoje diríamos, milionárias. Porquê? Tão-só porque eram raros os contabilistas e os engenheiros técnicos e, mais do que tudo, porque os saídos do Instituto levavam uma formação militar muito especial o que dava garantias ao empregador de, mesmo tendo em conta a juventude do empregado, haver sentido de responsabilidade, noção de hierarquias e, acima de tudo, disciplina laboral. Eram estas as mais-valias procuradas nos ex-alunos dos Pupilos.
 
A repetição do modelo foi tentada no final dos anos 60 do século XX, mas a posterior alteração política subsequente ao 25 de Abril de 1974 e o fim dos cursos técnicos não deixaram que houvesse o espaço necessário para o ensino ganhar o balanço anterior. A multiplicação de Institutos Politécnicos pelo país veio retirar peso específico aos Pupilos do Exército. As características modificaram-se com a abertura à frequência de alunos externos; para o bem e para o mal, o Instituto mudou. Um certo cariz «mercenário» dos docentes do ensino superior contribuiu para as alterações; perdeu-se o élan de outros tempos; passou a haver clivagens surdas entre os chamados oriundos e os cães — acho que não devemos ter medo de usar os vocábulos da gíria, exactamente, porque eles existiam e faziam parte do quotidiano dos alunos.
Pessoalmente penso que foi uma má aposta a da introdução do ensino politécnico no Instituto; dever-se-ia ter ficado pelo secundário e procurado estabelecer logo a vertente técnica de modo a não se desperdiçar uma idiossincrasia existente… Mas ninguém é bruxo! Quando se tomou a decisão as poucas vozes que se fizeram ouvir contra foram abafadas pela algazarra dos inovadores.
 
O descalabro, depois de um período de grande euforia, foi brutal. Pode dizer-se que a década do Governo de Cavaco Silva marcou o começo do princípio do fim.
 
Hoje o Instituto tem um caminho traçado. Talvez tenha sido doloroso para todos os que sonhavam com glórias impossíveis as quais só eram realizáveis nas suas mentes delirantes. Os Pupilos recuaram quase até à origem, mas, tenho para mim como certo, engatou-se o destino da nossa Casa à locomotiva do futuro e do progresso. A aposta está e vai estar na formação de quadros técnicos com a possibilidade de seguirem, ou não, para a frequência de cursos superiores em escolas civis ou estabelecimentos militares. Esse é o rumo.
Depois de termos vivido a ambição da rã da fábula resta-nos, volvidos cem anos de existência, voltar ao início e recomeçar com perseverança. A crise económica que se aproxima a passos bem largos em vez de ser prejudicial ao Instituto vai catapultá-lo para a frente como Escola a ser usada por todos os servidores do Estado que, tendo baixos rendimentos, queiram dar aos filhos um curso apropriado para imediatamente os encaminhar rumo ao mercado de trabalho sem lhes cortar a possibilidade de prosseguirem estudos superiores se assim o desejarem e forem capazes. E o Estado tirará proveito desta mudança.
 
O inexorável rodar do tempo vai impedir-me de ver reerguer-se altaneiro o Instituto dos Pupilos do Exército, porque as recuperações do ensino não se fazem numa década, nem, talvez, em duas, mas quando chegar a hora de partir levarei comigo a certeza de que a Casa, que há 54 anos me viu entrar através dos seus portões para fazer de mim um homem, vai continuar a oferecer à sociedade portuguesa outros homens que a honrarão no futuro.
 
Parabéns meu velho Pilão!

 

Uma exibição com valor

 

 
Confesso que não fui de propósito ao Centro Comercial Colombo para assistir hoje, domingo, 11 de Maio de 2008, à exibição dos Pupilos do Exército, mas como passei por lá, não me eximi a ver o espectáculo.
 
O centro comercial, na sua majestosa amplitude estava pejado de meninos fardados ou do Colégio Militar ou dos Pupilos do Exército. Curiosamente passou-me despercebida a presença das meninas de Odivelas.
Olhei-os, a todos, criticamente. Queria descobrir diferenças nas fardas e nos comportamentos. Vi de tudo; desde alunos do Colégio Militar bem fardados e garbosamente mostrando as suas botas altas de montar a cavalo até alguns com fardas mal talhadas, amarrotadas e dando nota de certo desleixo; vi o mesmo — com exclusão das botas altas — nos alunos dos Pupilos do Exército. Tanto uns como outros já não usam o debrum de plástico branco por dentro da gola das fardas — tal como trazíamos no meu tempo — o qual dava um ar mais composto ao fecho do colarinho. Ficam com um aspecto desmazelado.
 
Havia no ar uma atmosfera de festa.
Tive imensa sorte, porque quando cheguei à nave central ia começar a actuação dos Pupilos do Exército. Lá estavam presentes os ex-alunos do costume! Acenei a uns e a outros, tendo o Américo Ferreira evitado olhar-me. Paguei-lhe da mesma moeda!
Veio falar comigo o Manuel Andrade — o 298 de 1963 — que está a fazer uma obra de muitíssimo mérito, cuja valia ultrapassa de longe tudo o que se possa imaginar: uma recolha fotográfica dos cem anos do Instituto. É um trabalho como antigamente se dizia «de se lhe tirar o chapéu»… E eu, com muita humildade, tiro-lhe o meu, porque tudo o que não sou capaz de fazer obriga-me a sentir-me pequenino perante quem o faz! Só pelo que já conseguiu executar, o Manuel Andrade entrou, para mim, na galeria dos Grandes Pilões. Será que a Associação saberá honrá-lo como merece? A ver vamos!
 
A exibição começou com o grupo coral. Confesso que desde os meus tempos de criança que não tenho nem ouvido, nem voz, nem capacidade nenhuma para apreciar música e canto, mas, ouvir os alunos do «meu» Instituto cantar, até parece que me deu habilidades especiais. Era a emoção, está visto! Emoção que redobrou quando escutei os aplausos da assistência… E eles vinham do piso térreo, do primeiro e do segundo andar do enorme átrio central do majestoso edifício.
Depois, houve uma altura em que um só aluno cantou com uma excelente voz. A minha mulher, que estava ao meu lado e é dada a entender de canto, disse-me baixinho: — Magnífico! Os olhos marejaram-se-me de lágrimas.
 
Gostei de ver a apresentação da classe de luta, nas suas diferentes modalidades, embora fosse impossível deixar de associá-la às notícias de recontros pugilistas entre os alunos dos Pupilos e os de uma qualquer escola secundária da zona de Benfica. Com aquelas performances ai de quem se meter na frente dalguns dos nossos Pilões! Uma publicidade que aponta para uma Escola onde se desenvolve a agressividade física, talvez não seja a mais conveniente neste momento… Mas os programas já estavam feitos e as actividades destinadas!
 
Em mim, a emoção subiu ao rubro quando se cantou o hino da nossa Casa. A voz embargou-se-me. Não fui capaz de dizer mais do que o «Querer é poder, querer é poder». E disse-o baixinho, com uma lágrima teimosa a saltar-me dos olhos, porque, realmente, ao longo da minha vida, deixei que o nosso lema me entrasse na circulação sanguínea e seja ele quem me comanda os passos.
 
Não fiquei para ver o resto do festival. O que poderia ser melhor do que a exibição dos nossos continuadores?!
 
É verdade que os painéis onde se patenteavam as fotografias do Instituto eram os mais pobres dos três, mas a exibição dos alunos mostrou o equilíbrio entre o canto e a capacidade de lutar. Simbolicamente valeu por uma excelente explanação entre, por um lado, a doçura de sentimentos e a capacidade de expressá-los e, por outro, a mostra viril de expor publicamente a habilidade de vencer os mais duros desafios.
Depois disto, resta dizer aos alunos que é preciso estudar de modo a que os resultados académicos possam estar a um nível mais alto do que o habitual para serem reais e completos os equilíbrios da nossa «Casa tão bela e tão ridente».
Valeu a pena este domingo!