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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Eu, a História e o Instituto

Os meus professores de História, no Instituto, foram somente dois: os majores Molarinho do Cramo e Elói Valverde — conhecido entre nós, e desde sempre, por Shôr Elói, devido à sua marcada pronúncia nortenha com acentuação dos “ches”. O primeiro, durante um ano — o 2.º do ciclo preparatório — e, o segundo, ao longo de todos os restantes.
Em abono da verdade, nenhum dos dois era excepcional. Ambos tinham uma profunda dificuldade no ensino da matéria e quase total ausência de um método pedagógico apropriado. Todavia, os dois conseguiam ser, paradoxalmente, bons professores de História! Explico.
Não sabendo “fazer passar” o gosto pela matéria leccionada aos alunos que os ouviam com enfado, eram exigentes no conhecimento, obrigando-nos a um estudo atento dos livros aconselhados. Assim, entre aulas que se tornavam fastidiosas e momentos de estudo intenso, lá fomos, cada um a seu modo e com o gosto pessoal pela matéria, lá fomos, dizia, satisfazendo as provas que nos impunham. E sabíamos!
Agora, com a idade que já atingi e com a experiência de quase quarenta anos de ensino de História — em estabelecimentos secundários e universitários — sei avaliar melhor o paradoxo antes enunciado, integrando-o no contexto do internato.
Realmente, professores daquele calibre numa escola onde os alunos tivessem uma relação fugidia com os docentes, por frequentarem as aulas e regressarem a casa, jamais seriam recordados! O importante, e a diferença, é que nós estávamos a viver num internato. Um internato com características militares, onde a disciplina era caldeada com a idade e o isolamento. Ora, os saudosos majores, não tendo sido talhados para a docência da História, eram, contudo, homens inteligentes e, por isso, capazes de suprir as suas próprias dificuldades através de uma exigência à qual nós correspondíamos com trabalho; eles, para amenizar, compensavam a aparente austeridade com uma bonomia que nos deixava confiantes em relação aos resultados finais.
Havia mais um outro dado que agora identifico, fruto da experiência: eram cidadãos de “corpo inteiro” num Portugal a viver a ditadura de um regime que nos queria silenciar e moldar na conveniente obediência política.
Como para nós se tornava evidente, nem o Shôr Elói nem o Molarinho do Carmo, nas aulas, fazia qualquer referência política — isso seria um suicídio imediato — no entanto, havia nos seus comportamentos tomadas de posição que os mais atentos — entre os quais me incluo — se apercebiam. Eram coisas menores, mas próprias de quem ansiava pela liberdade que nos havia sido cerceada. Não nos ensinaram — no sentido real do termo — História, mas deram-nos pistas para nos tornarmos cidadãos mais responsáveis e críticos.
Pessoalmente acho que nasci com o gosto pelo estudo do passado. Não foi o major Molarinho do Carmo nem o Shôr Elói quem mo desenvolveu. Devo-lhes o estudo atento que me obrigaram a fazer dos manuais — um, pelo menos, ainda faz parte da minha biblioteca — e o despertar para dúvidas sobre o sistema político de então.
A maior lição que o major Molarinho do Carmo deu a todos os alunos do meu tempo traduziu-se pelo seu comprometimento com uma tentativa de golpe revolucionário no final dos anos 50. Foi preso e condenado. Nessa altura as minhas desconfianças passadas concretizaram-se em certezas: não ensinava História, mas ensinava cidadania! Aos 17 ou 18 anos tais lições são pouco “trabalhadas” por todos nós, mas ficam adormecidas para nos servirem mais tarde, quando a maturidade chega.
Hoje, não vou dizer que sou um bom professor de História; ficar-me-ia mal tal prosápia, contudo, tenho a certeza que, à semelhança dos meus velhos Mestres do Instituto, embora gozando da liberdade que eles não tinham, nas minhas lições faço os impossíveis por deixar transparecer conceitos de cidadania, de honestidade intelectual, de comportamentos civicamente correctos, de sentido de responsabilidade. Faço-o porque acredito no papel social que tenho de desempenhar e, em grande parte, como homenagem aos meus professores de História dos Pupilos do Exército.

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