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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Uma polémica que não interessa

 

 
O Colégio Militar voltou a ser alvo de um periódico que dá pelo nome de 24 Horas o qual vive, essencialmente, de escândalos. Desta vez, apontam-se mais maus-tratos a uma criancinha que não conseguiu aguentar dois anos de internato. É uma questão polémica que não interessa alimentar, como mais abaixo se verá porquê.
Pessoalmente não acredito nas parangonas do jornal. Uma bofetada dada por um graduado ou um pontapé no traseiro não podem ser classificados com o epíteto de maus-tratos. A ter acontecido qualquer coisa deste género, esta criancinha só demonstra que foi mal-educada até ao momento presente, por não ter estaleca para se aguentar com tais mimos «oferecidos», provavelmente, na sequência de uma demonstração de insubordinação ou como resultado de resistência àquilo que em Sociologia se chama socialização.
 
É evidente que muitos de nós chorámos — não foi o meu caso — nos primeiros tempos de internato. Chorámos por dois motivos: saudades de uma vida que deixáramos de livre vontade ou mais ou menos obrigados; dificuldade de adaptação a um novo sistema onde não éramos o centro das atenções, mas mais um entre muitos mais. Há crianças que não aguentam o somatório destas duas forças. São fracos e incapazes de se superarem, provavelmente como fruto da educação que receberam, antes, em casa dos pais.
Pelo Pilão do meu tempo, passaram alguns, mas poucos.
 
Ora, o que está a acontecer ao Colégio Militar preocupa-me, porque indicia, em meu entender, uma campanha contra uma instituição tutelada pelo Exército, tal como o nosso Instituto. Se as barbas do Colégio estão a arder temos por obrigação ajudá-los e pôr as nossas de molho, porque, mais tarde ou mais cedo, vai, como dizem os Brasileiros, sobrar para nós.
 
Pupilos e Colégio Militar são duas Casas que têm os seus pergaminhos, as suas tradições as suas dignidades. Não são instituições iguais, mas o que as separa é muitíssimo menos do que tudo o que as une. A rivalidade que sempre existiu é nossa, só nossa e entre nós se resolve. Mas é, acima de tudo, uma rivalidade saudável, porque desafia o nosso espírito de emulação; superarmo-nos, em cada momento, para cumprirmos melhor a nossa finalidade, foi sempre assim que olhei para os Meninos da Luz e, tenho a certeza, é deste modo que eles olham para nós.
É evidente que ovelhas negras sempre as houveram quer nos Pupilos quer no Colégio… Ovelhas que nunca foram capazes de ultrapassar a fase da mera rivalidade primária e nunca perceberam que só, essencialmente, foram origens sociais distintas que nos separaram, mas que, por não vivermos num Estado aristocrático, todos somos, afinal, iguais no nascimento e com iguais oportunidades na Vida. E esta última afirmação é tão verdadeira que, ao longo dos quase cem anos de existência dos Pupilos, muitas vezes houve irmãos a frequentarem cada uma das instituições. Do meu tempo, recordo os Aguinchas e o Rui Campos; muito mais antigos, lembro os Taborda e Silva.
 
Que os meus leitores, antigos alunos dos Pupilos, possam meditar nas minhas palavras — não por serem minhas, mas por as julgar ditadas pelo bom senso — e fazer causa comum com o Colégio Militar para nos defendermos enquanto instituições tuteladas pelo Exército e Casas dignas e tradicionalmente honradas por muitos e muitos ex-alunos que souberam levantá-las à posição que hoje ocupam na sociedade portuguesa.
Pelo Colégio Militar, salve, salve, salve!

2 comentários

  • Minha Senhora,
    Como, certamente, já percebeu, sou um homem com uma longa experiência de vida, muita prática de ensino e um bom conhecimento da vida militar. Agradeço-lhe o ter escolhido o meu blog para deixar aqui o seu precioso e muito claro depoimento sobre o Colégio Militar. Eu sou antigo aluno dos Pupilos do Exército, instituição similar à do Colégio, talvez menos «luxuosa», mas que tem procurado manter, ao longo dos quase cem anos de existência, bons padrões educativos, começando nos valores que incute nos alunos.
    Também eu fui «voluntário», no distante ano de 1954, para o Instituto dos Pupilos do Exército e ainda hoje sinto muita vaidade e orgulho na escolha que fiz.
    Nunca é fácil deixar a casa dos pais para se optar por viver num colégio interno. Há uma série de pequenas ou grandes mordomias que se perdem, mas ganha-se uma extraordinária e única experiência de vida que o lar paterno não nos proporciona.
    Um colégio interno com matriz militar tem como primeira característica o facto de nenhum de nós, por volta dos dez anos, querer brincar aos «polícias e ladrões», aos «cowboys» ou a qualquer outro jogo que meta armas e violência. Não precisamos, porque temos uma espingarda e somos pequenos soldados, aprendendo a conviver com a violência própria e alheia. Isso faz-nos crescer sem perdermos o prazer da infância, porque continuamos a jogar à bola, ao berlinde (no meu tempo jogava-se!), à bilharda. Em simultâneo, auto incutimos o sentido e sentimento de responsabilidade que nenhum lar paterno, por muito austero que seja, nos consegue dar. No internato, por muito protegidos que estejamos, estamos entregues a nós mesmos. Temos de desenvolver capacidades de sobrevivência (à medida da idade e conforme ela vai avançando) que nos aguçam a maneira de conviver com toda a gama de personalidades existentes… e não podemos fugir, porque o contacto é diário. Vamos escolhendo, nos mais velhos, os exemplos que pretendemos adoptar como padrão da nossa vida futura. De outros rejeitamos posturas que nos desagradam. O meu primeiro comandante de pelotão, nos Pupilos, foi fundamental para o meu crescimento: fui um jovem católico – como ele o era – chegando à comunhão diária, por volta dos meus 18 anos. Hoje sou agnóstico, depois de na Academia Militar, aos 20 anos, ter sido dos raros cadetes jucistas (Juventude Universitária Católica). Sou agnóstico por escolha consciente, mas devo muito da minha postura na Vida à Igreja Católica e à religião que pratiquei por cópia do meu velho amigo Tenente-Coronel Fernando Gonçalves Roberto… o tal primeiro comandante de pelotão.
    Numa instituição com as características dos Pupilos do Exército e do Colégio Militar cultivam-se valores que já vão sendo, cada vez mais raros na sociedade globalizante dos nossos dias: a lealdade, a camaradagem, a amizade fraterna (conto entre antigos alunos alguns de quem me sinto verdadeiro irmão), o espírito de sacrifício, o sentido da ordem e da disciplina, o gosto pelo trabalho, o reconhecimento de hierarquias, a capacidade de sobrevivência pelos próprios meios, enfim, um conjunto de qualidades que nos levam a orgulharmo-nos da Escola e dos companheiros que tivemos.
    Minha Senhora desejo para o seu filho as maiores felicidades no Colégio Militar, porque de uma coisa estou certo: de lá ele vai sair um Homem bem formado e com os valores sociais e humanos correctos.
    Aceite os cordiais cumprimentos do antigo aluno dos Pupilos do Exército
    Luís Alves de Fraga
    282/1954
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