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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

O meu tímpano do ouvido, os Pupilos e o Colégio Militar

 
Estava de férias — uma curta interrupção nas minhas actividades docentes e de investigação — quando dei, através do blog de um jovem antigo aluno do Colégio Militar, com a notícia do 24 Horas sobre a anulação de inscrição de 23 alunos no referido estabelecimento como consequência de um outro ter sofrido a perfuração do tímpano em resultado de uma bofetada de um aluno graduado.
 
Recuei, mentalmente, ao ano de 1955 ou 1956 e recordei-me de uma estória da qual fui protagonista quando era ainda aluno do Instituto dos Pupilos do Exército. Não posso deixar de contá-la para se estabelecerem comparações e tirar conclusões. Provavelmente, a minha estória não constitui caso único tanto no Instituto dos Pupilos  do Exército como no Colégio Militar.
 
Nesses anos recuados andava em voga uma canção portuguesa cujos versos já não recordo, mas lembro-me de parte da adaptação que nós, alunos, fizemos. Dizia assim: «A sopeira de Famalicão/ Que não era bonita nem boa/ … / Já vai para a cama/ Dormir com o patrão/ etc.».
Ora, numa bela tarde, vindo um pelotão formado da 2.ª para a 1.ª Secção, passa por nós, na travessa de S. Domingos de Benfica, uma empregadita de servir que ouviu, antes da segunda metade da formatura, algum «engraçado» cantar-lhe os versos da cançoneta em moda. A moça não terá gostado — não sei se por se achar «bonita» ou «boa» ou, por ir ou não ir para a cama com o patrão — e, vai daí, apresenta queixa ao sargento de dia. Este, como era hábito na época, por não ver grande mal no acontecimento, falou com o aluno comandante de batalhão para que fosse chamado à atenção o engraçadinho autor do dito que tanto ofendera a sopeira.
Depois do jantar, como era da praxe, forma o pelotão nos claustros e começa o interrogatório. Devo dizer que tivemos de formar nas posições que ocupávamos à tarde. Eu, como um dos mais altos, vinha na cauda da formatura.
 
Como se recordam os «jovens» do meu tempo, as horas destinadas às actividades extra-escolares eram poucas e, depois do jantar, era o momento que pessoalmente reservava para ler um jornal ou uma revista; estar ali na formatura, sofrendo colectivamente um interrogatório estúpido, constituía um verdadeiro tormento para mim.
Como ninguém se acusava, o graduado — comandante de secção — finalista, salvo erro, 344, Dores, garantiu que se o responsável se desse a conhecer nada lhe acontecia.
 
Farto de esperar pelo meu tempo de leitura, consciente de não ter sido eu o autor da ocorrência, num repente, decidi acusar-me: — Fui eu, gritei lá do fundo.
O Dores não esteve com meias medidas. Mandou-me avançar até ele e, mal tinha chegado, fui «aviado» com uma valente chapada na face esquerda (que me apanhou o ouvido) acompanhada da seguinte frase: — Heroísmos são para o campo de batalha!... Eles, os graduados, sabiam que os versos tinham sido cantados por alguém que vinha na primeira metade do pelotão.
 
A dor foi aguda e, quando me assoei, o ar saía pelo ouvido esquerdo. Tinha sofrido uma perfuração.
No dia seguinte, à hora da revista de saúde, fui ao médico queixar-me de ter levado uma bolada no ouvido, quando jogava andebol. O clínico — uma suma «inteligência» que por lá andava — «descobriu» que eu tinha, afinal, um furúnculo no ouvido e vá de me aplicar com três ou quatro gotas de um qualquer produto. Claro que, ao chegar ao refeitório, tive de voltar em braços para a enfermaria pois havia perdido toda a noção de equilíbrio. Passei a tarde deitado sobre o lado esquerdo para escorrer o líquido entrado e, no dia seguinte, que era sábado, lá vim a casa onde, ao meu pai, enfermeiro de profissão, contei de novo a estória da bola e do «tratamento» aplicado pelo médico. Ele observou-me e proibiu-me de tomar banho sem antes ter resguardado o ouvido com um bom bocado de algodão e de me assoar com esforço. O tímpano havia de se regenerar. E não é que se regenerou sem perda de audição! Ainda anda por cá, sem problemas.
 
Ficou-me a lição: Heroísmos, só no campo de batalha!
 
Depois da estória resta perguntar-me: — Que tipos de gente andam os pais de hoje a formar? Que tipo de gente são os filhos dos pais de hoje?
Se há 50 anos eu tivesse dito a verdade ao médico e ao meu pai o máximo que teria ocorrido era o Dores ouvir uma forte reprimenda do Director e o meu pai ter-me dito qualquer coisa do género: — Quem te manda ser parvo e chamares a ti uma responsabilidade que te não cabia?
 
Que os meios violentos devem estar ausentes dos sistemas educativos, todos nós o sabemos, mas nem sempre se perde grande coisa com a aplicação de uma bofetada dada a tempo… Mais vale isso do que ver um filho nos «suaves» braços da toxicodependência!
 
Como pai, avô e coronel, antes de saber as razões, estou solidário com o graduado do Colégio Militar e em total desacordo com os papás dos meninos que desistem da inscrição das suas doces crianças naquele estabelecimento de ensino. O graduado deve saber conter os seus impulsos e os papás devem deixar de colocar algodão em rama no caminho das suas criancinhas… E não é preciso operar um tímpano perfurado, digo eu, que disso sei bastante!

O Pilão em destaque no Exército

 

Pois é, a APE tem tido o cuidado de anunciar no Fórum XXI as sucessivas palestras que por lá se fazem para salas mais ou menos às moscas, mas esqueceu-se de dar relevo ao último número do Jornal do Exército que, como se pode ver na fotografia em cima, tem a capa inteiramente dedicada ao nosso Instituto!

E qual o motivo deste silêncio sepulcral por parte da Direcção?

 

Como dizia o Senhor Banana, das duas três: ou porque lhe passou à margem o Jornal do Exército, o que me parece absurdo e impossível; ou porque não há ninguém na Associação para abrir a correspondência e ver o que interessa; ou, finalmente, porque a notícia que dá origem à capa e que ocupa as páginas centrais — 9 (nove) páginas no total — não vai de acordo com os sonhos de grandeza que a Direcção alimentou entre a massa associativa.

 

Esta última hipótese é capaz de ser a mais verdadeira!

 

E o que diz de tão importante o Jornal do Exército?

Pois quem tenha curiosidade carregue em cima das fotografias que insiro e leia o que por lá se diz. Mas para os que já tem dificuldades de visão eu faço uma síntese:

 

Que o IMPE deixe de ministrar o ensino superior e o Ensino Básico e Secundário e passe a leccionar «cursos de especialização tecnológica nas áreas tradicionalmente ministradas no Instituto, com fortes ligações à Instituição Militar, (….). Este novo modelo formativo, (…), prevê, em primeiro lugar, as possibilidades de adopção de cursos com apetência para as Forças Armadas e indústrias de defesa, incluindo a formação inicial tendo como projecção as empresas estratégicas nacionais, (…). O novo modelo prevê ainda a formação de quadros técnicos para os PALOP, ao abrigo das cooperações entre o Estado Português e os Estados membros desses países. (…). Ontem como hoje é necessário afirmar os valores intrínsecos do IMPE, nomeadamente a aliança entre o saber doutrinário (sustentáculo de todo o conhecimento) e a sua base ou aplicação experimental, sem a qual todo o saber é vácuo. (…). A enquadrar um modelo de ensino que se tem revelado ajustado às necessidades do País encontram-se valores que intrinsecamente caracterizam o espírito pilónico [sic] e que contribuíram significativamente para estabelecer um vínculo incorruptível entre várias gerações de ex-alunos que a esta casa [sic] permanecerão ligados durante a sua vida».

 

 

Não levo mais longe a transcrição para não roubar o prazer da leitura (aliás, difícil, embora possível de se conseguir com bastante paciência!) aos meus visitantes, mas não posso deixar de realçar que o projecto adoptado, afinal, pela Chefia do Exército parece ter sido inspirado no muito que tenho deixado escrito tanto no Boletim (quando ainda era sócio), no Fórum Pilão XXI e neste blogue que é consultado por muitos e variados visitantes, vindos de todos os quadrantes da vida nacional.

Não sinto vaidade por ter estado sempre no verdadeiro e único caminho possível para o Pilão, mas sinto-me satisfeito por ter vencido a razão e o bom senso que me nortearam no que fui dizendo nestes últimos anos.

O Instituto vai sobreviver norteado para o seu destino histórico e vai continuar a dar homens e cidadãos válidos para este Portugal que é de todos nós. Vai continuar na senda da formação de técnicos que serão bem preparados se tiver professores à altura da sua missão; vai continuar a dar gente válida para servir o Estado e as empresas estratégicas nacionais; vai continuar a fornecer gente para guarnecer as fileiras militares; e, se tudo isto não fosse suficiente, vai formar quadros técnicos para os países africanos de expressão oficial portuguesa, ou seja, vai agora desenvolver a acção formativa que durante a ditadura não foi possível, por não ter havido vontade política, e que durante a 1.ª República não houve tempo para realizar.

 

Fechou-se um ciclo e outro vai abrir-se. Auguramos bons resultados para o que aí vem.

Estamos de parabéns!

Sem medo dos bons exemplos

 
Hoje vou ser muito sintético.
Há vários meses que acompanho de perto o blogue de um ex-aluno do Colégio Militar, o jovem Ricardo Neto Galvão, ao qual resolveu dar um nome sugestivo: «Sonho, Coragem & Devoção».
Aconselho os meus leitores, especialmente os alunos e antigos alunos dos Pupilos do Exército, a irem até lá e darem uma espreitadela.
Há, no dia 3 de Junho deste ano que corre, uma postagem muito curiosa. É um vídeo de uma peça de teatro — minúscula, mas esclarecedora — representada por alunos dos primeiros anos. Demora um pouco a “carregar”, mas, depois vale a pena ser vista e lida (é legendada, por causa da fraca qualidade do som). Ali, sem complexos, assumem-se, a par das qualidades do bicentenário Colégio, as dificuldades presentes — nomeadamente a falta de ingresso de novos alunos; ali, com coragem, declara-se que está nas mãos dos alunos resolver esta situação. Implicitamente, fica no ar a mensagem de que, sem choros nem ranger de dentes, quanto melhores forem os alunos do Colégio Militar, mais possibilidades há de ultrapassar os problemas actuais.
 
É isto que falta no nosso Instituto! É isto que falta à Associação dos Pupilos do Exército reconhecer!
Nada se pode fazer pela nossa Casa, se os alunos que a frequentam não forem exemplares. Exemplares, acima de tudo, nos estudos — todos nós sabemos que temos potencialidades desportivas! É importantíssimo que o nível de exigência vá subindo de ano para ano, que os incentivos ao estudo se tornem realidades, que o acompanhamento dos alunos mais fracos se transforme não numa porta aberta para a facilidade, mas num caminho para a verdadeira aprendizagem.
 
Não acredito em soluções que descaracterizem os Pupilos do Exército. Não acredito em soluções que passem pela manutenção dos cursos superiores. Não acredito em sistemas de semi-internato (o que é semi-interno também é semi-externo, acabando por não ser absolutamente nada!). Acredito que o ensino secundário tem de criar duas vias simultâneas: a que possibilita a continuação dos estudos em estabelecimentos de ensino superior e a que habilita com uma profissão com utilidade no aparelho do Estado (com admissão imediata para todos os alunos que queiram empregar-se após a conclusão do 12.º ano de escolaridade). Acredito que só mantendo o regime de formação militar, sem perdas de características (e, se possível, recuperando algumas que estão esquecidas desde há quase trinta anos) é que se torna conveniente e interessante o curso dos Pupilos do Exército.
 
Malabarismos para, a qualquer preço, manter os portões do nosso Instituto abertos, isso nunca! Isso é renegar um passado e uma tradição, que já a temos. Os Pupilos têm de se assumir naquilo que foram e têm vindo a ser: uma escola profissionalizante com educação militarizada. Foi isso que distinguiu, no passado, os Pupilos do Exército do Colégio Militar. Foi isso que nos valorizou como Escola diferenciada; é isso que nos pode garantir a sobrevivência no futuro próximo.
Malabarismos para manter um “cadáver” com aparência de ser vivo, é mórbido e próprio de espíritos pouco elevados. Se tiver que acabar, que acabe o Instituto dos Pupilos do Exército como acabam as árvores, de pé e com dignidade.

Alexandre Cabral e os Pupilos do Exército

 
Há dias tomei conhecimento de que a Associação dos Pupilos do Exército (APE) — da qual, felizmente, já não sou sócio por vontade própria — decidiu homenagear a memória do antigo aluno Alexandre Cabral (que muitos de nós só sabem ter escrito um livro com o título Malta Brava). Em abono da mais elementar honestidade intelectual, tenho de aplaudir a iniciativa.
 
Claro que, como era fácil de imaginar, o salão de honra, bar, sala de jogo e salão de exposição — pois para tudo serve a maior divisão da sede da APE — estava literalmente às moscas, não fosse a presença de umas quantas «almas caridosas» que «vão a todas». Disto mesmo deu notícia um dos mais recentes trabalhadores voluntários da referida Associação. Da Direcção só compareceu ao acto um elemento (presumo que tenha sido o presidente da mesma).
Mais palavras para quê?
 
Quando, por iniciativa da APE, se vai homenagear uma das mais destacadas — ou talvez mesmo a mais destacada — figura intelectual, de todos os tempos, do Instituto dos Pupilos do Exército e não está presente, em força e peso, a Direcção da Associação é porque alguma coisa se passa de muito mau no seio da mesma. É porque a Casa de que muitos se orgulham de ter frequentado não criou assim um escol tão evidente quanto se apregoa aos quatro ventos.
Duvido mesmo que a maioria dos antigos alunos tenha lido o romance Malta Brava e que conheça onde e como se destacou o seu autor. Duvido que saibam que Alexandre Cabral foi a maior autoridade e o mais excelente conhecedor de Camilo Castelo Branco (não me estou a referir àquele ser que se passeia pela televisão e que dá pelo sobrenome de Castel Branco!); que, para além de Malta Brava, escreveu contos maravilhosos e realistas que compilou nos livros O Sol Nascerá um Dia, Contos da Europa e da África e Histórias do Zaire, tal como a novela Terra Quente, e os romances Fonte da Telha e Margem Norte. Deixou, também, uma peça de teatro intitulada As Duas Faces. Deve acrescentar-se, ainda, Memórias de um Resistente.
 
Conheci Alexandre Cabral nos Pupilos, no final da década de 50 do século passado, quando ali foi fazer, aos alunos, uma palestra que intitulou «Camilo Castelo Branco e a questão do viscondado». Ouviu-o atentamente, não só por se tratar de um ex-aluno «famoso», mas também por já nessa altura ser um escritor de nomeada. Se calhar, serão poucos os condiscípulos do meu tempo que se recordam desse magnífico serão!
Muitos anos mais tarde, fruto de relações familiares, tive oportunidade de contactar com ele em brevíssimos encontros. Pouco ou nada falámos do Instituto, porque sempre me pareceu não ser da sua inteira simpatia recordar esses tempos longínquos.
 
Em anos transactos, desgastei-me em pequenas polémicas no «Fórum XXI» — suposto ponto de encontro, na Net, de antigos alunos — sobre o pouco honroso lugar ocupado pelo Instituto no ranking das escolas do ensino secundário nacional.
Chamei a atenção para a necessidade de se «repreender» os professores e os alunos pela sua falta de exigência, pelo seu pouco empenhamento nos estudos, pela ausência de acompanhamento a que, afinal, todos estão votados. Sempre houve quem apresentasse mil e uma razões justificativas, que desculpavam formadores e formandos.
 
Soube de homenagens feitas ao aluno que alcançou um lugar notável num qualquer campeonato de esgrima — vai saltar já alguém pronto a chamar-me a atenção para o facto de não ser «um qualquer campeonato»… —, soube de um ágape em homenagem (ou seria de apoio?) ao presidente da Câmara Municipal de Loures, sei de jantares de ex-alunos militares (ao qual, afinal, também podem ir os civis) para comemorar o aniversário do Instituto, sei de homenagens que já houve ao antigo aluno Medina Carreira — que dá tanta importância aos Pupilos como eu dou à primeira camisa que vesti —, sei tudo isto e pasmo perante a mentalidade distorcida que colectivamente apresenta a massa de Pilões. Mas, sinceramente e sem qualquer mágoa, felicito-me por me ter desligado da APE, porque, realmente, mantendo a minha condição de antigo aluno, cada vez mais me convenço de que nada tenho a ver com todos aqueles que apregoam a sua passagem pelo vetusto convento de São Domingos e se proclamam de sócios da tal Associação. Ao menos, não posso ser acusado de ter faltado à homenagem a Alexandre Cabral… Mas leio atentamente as páginas que deixou sobre Camilo Castelo Branco, porque assim, pelo menos, aprendo alguma coisa!

 

Há cinquenta e dois anos

 
A fotografia que antecede esta pequena crónica tem cinquenta e dois anos e alguns meses — foi tirada no dia 25 de Março de 1955.
Para ajudar à identificação, eu sou o terceiro a contar da esquerda, na última fila de cócoras.
Curiosamente, recordo-me muito bem de nos juntarmos lá em cima, no começo dos «campos» da 2.ª Secção, quando ainda não havia nada mais do que o velho ginásio… Por estranho que possa parecer, a nossa vista perdia-se pelo meio dos terrenos com árvores e muros que dividiam as propriedades até se enxergar, à distância, um pouco do primeiro anel do destruído estádio do Benfica — que tinha sido inaugurado nesse ano, talvez uns meses antes.
 
Recordo o momento em que alguém disse: — Malta toca a juntar para tirar uma fotografia. Éramos a turma B do 2.º ano do ciclo geral preparatório.
Como sempre fui avesso à identificação de pessoas por números — fazendo jus, afinal, ao que se determina no Decreto que criou o Instituto, em 1911, que, claramente, estipula que os alunos serão conhecidos pelos seus nomes e não pelos números — já esqueci a identificação de uma boa parte dos meus companheiros de fotografia; recordo algumas alcunhas e um ou outro nome.
 
Eu tinha entrado em Outubro do ano anterior e vivia, naquela altura, os meus primeiros meses de Casa. Tudo, ou quase tudo, era uma novidade. Começava a fazer as primeiras amizades. Lá estão o Marreiros e o Pinheiro, primeiros Amigos com quem me entendi na fase de adaptação.
 
Ao olhar para esta fotografia — agora ampliada com o auxílio das novas tecnologias digitais — tenho uma estranha sensação. Havia em quase todos nós — nas fisionomias, na postura, na vestimenta — um ar boçal, alguma coisa que, de facto, não anda longe daquilo que muitos velhos companheiros não querem admitir: uma forma de estar idêntica à de meros asilados.
Amplie o leitor a fotografia (basta clicar em cima da mesma) e verifique por si próprio. Tenha sentido crítico e ponha de lado esse «bairrismo» que lhe obstrui a compreensão.
Tínhamos ou não um ar de pategos? Era ou não horrível aquela horrível samarra azul, aquele barrete enfiado na cabeça como se fosse uma boina?
 
Penso que deveríamos dar de nós mesmos uma imagem muito pouco lisonjeira quando marchávamos pela estrada de Benfica, entre a 1.ª e a 2.ª Secção. Deveríamos parecer internos de algum estabelecimento destinado à infância desvalida!
Na minha opinião, não vale a pena tentar tapar o sol com a peneira, porque é pura perda de tempo. É mais curial admitir o que é evidente, embora nos cause uma certa dor cá dentro; nos provoque, até, uma certa vergonha. Mas, como não me canso de repetir, a pior mentira é a que dizemos a nós mesmos. Sejamos honestos. Olhemos de frente para a fotografia, para as nossas caras, para as nossas posições e tenhamos a coragem de reconhecer que estávamos entregues a nós mesmos, que ninguém zelava por nós, que ninguém nos impunha a obrigação de cuidarmos da nossa aparência, de ganharmos uma maneira de estar — talvez, até, de ser — que não fosse bronca.
 
Tenho outras fotografias de anos mais recentes em que este desmazelo desapareceu, em que se alteraram comportamentos e aparências e, ao comparar, pergunto-me se não terá pesado bastante nessa mudança o simples facto de o director ter passado a residir no Instituto, vigiando-nos, a todas as horas e momentos, obrigando-nos a cuidarmo-nos, a sentirmo-nos dignos de nós mesmos.
Quem como eu é militar de carreira sabe perfeitamente que a alteração de atitude é fundamental para a mudança de comportamentos. Um comandante exigente dá origem a uma tropa cheia de panache; uma tropa entregue a si mesma rapidamente se transforma num bando.
Em 1955 nós éramos um bando com um ar saloio, rufião até desmazelado.
Queiram os deuses que, por falta de acompanhamento e de vigilância, os alunos destes anos que correm não tenham o mesmo aspecto exterior que nós tínhamos há cinquenta e dois. Seria muito triste que tal acontecesse.

A história de uma fotografia

 
Tudo começou quando estava eu na 4.ª classe (hoje chamado 4.º ano de escolaridade). Os meus pais, já nos dois últimos meses de aulas, receosos dos exames de admissão aos liceus, às escolas técnicas e aos Pupilos do Exército, haviam-me arranjado uma explicadora para fazer revisões e exercícios de todo o tipo de modo a garantir o maior êxito nas provas que se avizinhavam.
 
Na sala onde a saudosa senhora pacientemente recapitulava toda a matéria recebia também explicações uma jovem, uns meses mais velha do que eu, loira, com uma voz esganiçada, uns olhos vivos, palavra fácil, muito vistosa. Nos meus doze anos fiquei, logo de imediato, apaixonado pela criatura. Uma paixão, que como todas as que ao longo da vida fui tendo, não tinha explicação. Estava apaixonado, porque estava. Ela dava-me volta ao estômago e à cabeça.
 
A menina morava a meio caminho de casa dos meus pais e da residência da explicadora. Isso foi razão suficiente para, sempre que podia, me fazer encontrado com a jovem — de quem vou ocultar, naturalmente, o nome porque, estará viva e não acho importante referi-lo — e com ela trocar meia dúzia de palavras banais, pois outra coisa não sabe dizer um garoto no começo da puberdade.
 
Nesse ano, por falta de vaga, não entrei no Instituto. Os meus pais, acertadamente, matricularam-me no ciclo preparatório, numa escola que ficava exactamente algumas centenas de metros mais à frente da casa da jovem menina. Os «ocasionais» encontros foram-se repetindo e, ao contrário de diminuir, aumentava a paixão silenciosa e secreta que por ela nutria.
 
No final desse ano lectivo, de novo concorri ao Instituto dos Pupilos do Exército, agora, para o 2.º ano e, ou porque o número de ingressos era grande ou porque as condições objectivas haviam mudado, fui admitido. Não cabia em mim de contente! Esse Verão foi longo e tristonho, porque a menina tinha ido passar férias para longe de Lisboa — longe para a época, entenda-se… Fora para as Caldas da Rainha onde a avó fazia tratamento, nas termas. Esperei pacientemente o mês de Setembro, mas nada aconteceu. As janelas da casa, que todos os dias ia espiar, mantinham-se cerradas sem que dessem sinais de qualquer tipo de vida.
 
As aulas recomeçaram em Outubro e lá fui para Benfica, para muito distante da paixão que me ia consumindo. No final do ano lectivo, de conluio com o meu Amigo José Luís Carreiras Constantino — o 232, que morava na minha rua, e tinha mais dois anos de idade do que eu — escrevi uma carta à menina que tão embeiçado me trazia havia tanto tempo. Uma carta a pedir-lhe namoro, porque naqueles tempos — já passou mais de meio século! — as coisas não eram como hoje. Tudo se fazia com muito rigor e denotando grande respeito.
 
A resposta chegou pelo correio, dias depois, numa letra muito bem desenhada. Não podia aceitar, éramos muito novos e mais isto e mais aquilo. Amigos, poderíamos ser, mas mais nada. O estilhaçou-se-me o coração.
 
Novo ano lectivo, novas férias grandes — desta vez fui eu passá-las aos Açores — e, ao contrário de se me reduzir a paixão ela aumentava. Na impossibilidade de a ver satisfeita tentei deixar-me atrair por outras jovens que conheci nas ilhas atlânticas. Nasceram pequenos amores semelhantes a fogos-fátuos sem o calor e a ardência do sentimento que havia anos me queimava o coração.
 
Seguiram-se os sucessivos anos lectivos até atingir o primeiro de Contabilistas — qualquer coisa como o equivalente agora ao décimo — ia a caminho das minhas dezoito primaveras. Nas férias do Natal, encontro, por mero acaso, na rotunda do Marquês de Pombal, a menina que não tinha esquecido e que silenciosamente me corroía o coração. Nunca a havia perdido de vista, conversávamos de quando em vez, mas sempre muito de fugida. Vivia enclausurada em casa, tendo como guardiãs a avó e a mãe, porque era órfã de pai desde tenra idade.
 
Esse encontro foi providencial. Estava uma jovem bela, elegante, vistosa, de formas corporais bem delineadas, de conversa já adulta, enfim, uma mulher. Com todo o aprumo que a vivência no Instituto me havia ensinado e a educação que tinha aprendido na casa paterna e no internato, lá me fui insinuando, pedindo-lhe o número de telefone, sabendo se tinha namorado e tantas outras coisas tão necessárias a uma «abordagem» que se deseja segura e vitoriosa. O caminho estava livre e o Menino Jesus, na quadra a Ele dedicada, deixou-me no sapatinho a prenda há muito querida: um namoro sério e comprometedor com aquela que desde sempre eu sonhava para mim.
 
Em abono da verdade, devo dizer que o namoro passou por uma prévia conversa com a mãe da menina, tornando oficial o que poderia ter sido mais recôndito. Mas foi melhor assim, pois fiquei autorizado a fazer regulares visitas lá a casa com todas as limitações e liberdades possíveis para aquele tempo. O ano lectivo decorreu rápido, mas, no final, as minhas classificações não foram tão folgadas como nos anteriores. Gastava muito tempo a escrever longas cartas de amor nas horas destinadas ao estudo.
 
O Verão foi maravilhoso. Passei o máximo de dias junto daquela que me enchia o coração. Respirávamos o mesmo ar. Os beijos que trocávamos faziam de mim o mais feliz dos jovens portugueses, talvez o mais feliz de todo o universo. A paixão transbordava. Os planos para uma vida futura sofreram todas as alterações possíveis. Havia, agora, que rapidamente concluir o 2.º e o 3.º ano de Contabilistas para, depois, durante o cumprimento do serviço militar obrigatório, casarmos e vivermos felizes para sempre. O meu velho sonho de seguir a carreira militar, acalentado há tantos anos — mais do que a paixão que me prendia àquela menina — ficou arrumado e esquecido.
 
Começou o ano lectivo seguinte e as cartas aumentaram de ritmo. Agora eram diárias, e tínhamos sempre tanto para dizer um ao outro! As notas do primeiro período começaram a acusar a falta de aplicação ao estudo; as do segundo garantiram que o ano estava em fase de perda e as do terceiro tornaram realidade o que era já irremediável. Foi próximo do fim do ano, no baile de finalistas, que o fotógrafo dos Pupilos fez o quase instantâneo que encima esta crónica — lá estou eu com a menina dos meus sonhos juvenis e o meu velho Amigo Trancoso, que, mais avisado e realista do que eu, dançava com uma das suas já várias namoradas “oficiais”. O «boneco» deu que falar na nossa Casa! O padre Ruy Corrêa Leal, se tivesse tais poderes, ter-me-ia excomungado do seio da comunidade católica e, por certo, também do convívio com os meus companheiros de internato. Aquilo não era forma decente de dançar! Aquilo era o pecado fardado de aluno dos Pupilos, agarrando uma qualquer mulher perdida e de perdição!
 
A tempo consegui arrancar o exemplar da prova fotográfica, sacando-o do conjunto que circulava para encomenda das pelingrafias com que cada um queria ficar. Fiz desaparecer a «prova» do «pecado», mas não consegui apagar a lembrança do mesmo.
Na reunião do conselho escolar — como mais tarde vim a saber — o padre-capelão foi implacável, dando de mim as piores referências perante a hesitação ou relutância de alguns mestres em reprovarem-me… — Que não, que devia reprovar a todas as disciplinas! Mas a todas, sem excepção!
 
As férias de Verão começaram sob o signo do fracasso. Eram, em casa, os meus pais, olhando-me de soslaio quando ia namorar como que a recordarem-me, no silêncio mais dorido, que o meu falhanço escolar se devia a uma paixão inconsequente; era a menina que via — e não escondia esse sentimento — retardado o casamento, pelo menos, por mais um ano; era eu que me sentia mal com todos e comigo mesmo.
 
Claro, em Setembro, a menina, com aquela crueldade própria de quem viu falidos os planos e sonhos, com grande desfaçatez, acabou o namoro. Fiquei desfeito. Salvou-me o meu Pai. Com a paciência de quem ajuda um inválido fez-me perceber que, uma coisa, são os nossos próprios sentimentos, outra, os sentimentos alheios sobre nós e outra, ainda, o conjunto dos anteriores; só quando tudo se conjuga harmoniosamente pode haver futuro, de contrário, mais cedo ou mais tarde, as paixões desfazem-se, porque são, afinal, uma profunda perturbação dos sentidos.
 
Repeti o 2.ºano de Contabilistas e ingressei na Academia Militar, tal como sempre tinha desejado.
 
O futuro veio trazer-me outras surpresas, mas essas já não são contas deste rosário…

Considerações à volta do encerramento do Instituto

 
 
Nos últimos meses tenho mantido conversas sobre a existência do Instituto dos Pupilos do Exército com individualidades militares e civis que ou já ocuparam cargos decisivos no Exército ou ainda os ocupam.
 
Todos são unânimes em três aspectos: a estratégia prosseguida pelos antigos alunos quanto às alterações a ocorrer no Instituto esteve e está errada; os cursos superiores são incomportáveis no Instituto; e, por fim, é impensável manter três estabelecimentos de ensino a debitarem exactamente o mesmo tipo de formação.
 
Contra estes argumentos nada se pode opor quando, em consciência, se é honesto.
A franca teimosia em manter em funcionamento os cursos superiores a partir do início da década de 90 do século passado foi uma asneira de palmatória. Nessa altura, dever-se-ia ter aberto mão dos bacharelatos quando ainda se tinha massa crítica de alunos para lhes dar uma formação técnica secundária e capacidade negocial para encontrar novos rumos para o(s) curso(s) secundário(s) a leccionar.
Mais uma vez repito, a vocação dos Pupilos do Exército esteve e está ligada à formação de quadros intermédios que sirvam aos interesses e necessidades do Estado, sem prejuízo de dotar os alunos com possibilidades de prosseguirem cursos superiores em estabelecimentos apropriados, militares ou civis. Contudo, repiso, o importante é que os alunos concluam o 12.º ano e saibam fazer algo de prático que tenha aplicação no aparelho do Estado. Não satisfazendo esta condição o Instituto está condenado a curto espaço de tempo. E ninguém acredite na solução da cedência de seja o que for para ali se fazer uma fundação ou algo semelhante.
 
Há dias, de conversa com um antigo e excelente professor do Instituto, ele dizia-me que ter-se-ia de revocacionar o Instituto de modo a diversificá-lo do Colégio Militar. E não se trata de diminuir a importância dos Pupilos; trata-se de ver com realismo que o Exército, quando tiver de escolher um estabelecimento dele dependente para fechar portas, optará, naturalmente pelo nosso Instituto por ser o mais moderno e o que tem o lobby de antigos alunos mais fraco. E isto é inteiramente verdade!
 
Num outro encontro com um velho oficial do Exército, antigo aluno do Colégio Militar, contava-me ele que, na Associação dos Antigos Alunos, já se discutira a situação dos Pupilos e que havia consciência que o encerramento da nossa Escola punha imediatamente o Colégio na mira do Estado-Maior e, mais anos menos ano, calharia em sorte ao velho estabelecimento da Luz ver as suas portas fechadas. Assim, alguns dos mais cautelosos antigos alunos, preconizavam uma concertação de estratégias, entre os lobbies do Colégio e dos Pupilos, para se garantir que nenhum aceitava ver as suas portas encerradas. Mas que, para isso, era preciso discutir o papel de cada uma das instituições dentro da sociedade portuguesa do futuro. E que não se pode ir para um tal diálogo com «pedras no sapato» nem desconfianças; cada um — Pupilos e Colégio — tem o seu lugar e não pode ser tentando roubar protagonismo ao outro que se ganha esta batalha.
 
Enfim, do que tenho auscultado como ex-aluno do Instituto e não membro da Associação dos Pupilos do Exército (onde, por vontade e decisão própria, não mais terei assento) conclui que nem tudo está perdido, ainda, para o Instituto… Mas para que as portas da negociação se mantenham abertas não se podem fazer propostas irrealistas nem descontextualizadas; não pode haver «braços-de-ferro» e, de preferência, as propostas deverão articular soluções com os antigos alunos do Colégio Militar, de modo a interessá-los na nossa sobrevivência (recordem-se, os mais dados a estas coisas, que a resistência branca na Africa do Sul, na Namíbia e na Rodésia só caiu quando Portugal deu a independência a Angola e a Moçambique… éramos o «tampão» que os segurava! O mesmo pode ser o nosso Instituto para o Colégio Militar e para Odivelas).
 
Não cobro nada pelas ideias que aqui deixo lançadas. Anima-me a possibilidade de saber que, afinal, o Instituto dos Pupilos do Exército poderá sobreviver no meio de ventos e tempestades. Assusta-me a incomensurável vaidade e intransigência de muitos antigos alunos que não sabem como é importante, muitas vezes, recuar dois passos para se poder, mais tarde, avançar cinco ou seis. Será, por causa desses que o Instituto se perderá. É a história dos ultras, dos extremistas, dos monolíticos, dos «calhaus com olhos», se preferirem uma expressão mais popular e mais facilmente compreensível.

Assalto à 1.ª Companhia

Há tempos recebi, numa das minhas caixas de e-mails, uma larga quantidade de fotografias de um ex-aluno muito mais moderno do que eu no Instituto. Uma delas chamou-me a atenção mais do que as outras, porque ali se viam três alunos “armados” com as tradicionais toalhas enroladas em forma de moca preparados para uma surtida punitiva a qualquer camarata, pois o “retrato” tinha sido tirado à noite.
 
A fotografia trouxe-me à memória os célebres “assaltos” à 1.ª Companhia levados a efeito por altura do Carnaval, nos recuados anos do início da década de 50 do século passado.
 
Tentarei recordar, com tanta soma de pormenores quantos os possíveis, o que eram essas “campanhas punitivas” de tão distantes anos.
 
Sendo a 1.ª Companhia a dos alunos mais novos — entre os dez e os treze ou, no máximo, catorze anos — comandados por um punhado de graduados de idades entre os dezasseis e os dezoito, esse “bendito” “assalto”, feito por todos os mais velhos, vindos das 3ª e 4 .ª Companhias, correspondia a um verdadeiro massacre em que os “putos” “enfardavam”, até à exaustão, segundo a vontade dos mais velhos cobardemente defendidos pelo seu tamanho e maior número.
Era uma estúpida tradição só possível num colégio onde os alunos, depois das aulas, ficavam entregues ao descuido de um qualquer oficial de serviço disposto a não se incomodar excessivamente com o que acontecia nas instalações pelas quais devia zelar. Um colégio — repito-o, sem qualquer rebuço — bem próximo, na aparência da vida interna, de ser um reformatório ou asilo de infância desvalida. Um colégio onde proliferavam os javardos que, tendo saído de casa sem nenhuma ou com pouca educação, por lá aprenderam a impor-se pelos princípios da força que, como se sabe, dá guarida aos mais cobardes e mais mal formados caracteres.
Que me lembre, houve “assaltos à 1.ª Companhia” nos anos lectivos de 1954/55, 1955/56 e, talvez, 1956/57. Depois acabaram, como acabaram muitos comportamentos próprios de asilados. Foi a mão férrea, mas destemida e empenhada, do coronel Ferreira Gonçalves quem deu a machadada final nessa vergonhosa tradição de cobardia colectiva.
 
Já não posso precisar em qual, mas num dos anos acima referidos, na noite aprazada para o “assalto” estava de serviço o célebre capitão Vávora (ainda hoje não sei o que quer dizer, nem se é assim que se escreve), de seu nome Marques Lopes. Era um verdadeiro oficial de Infantaria, de estatura meã, míope em grau avançado, mas disciplinado e disciplinador como poucos passaram, nesse tempo, pelo Instituto. Calçava sempre botas altas e, de quando em vez, segurava na mão um bonito pingalim de couro, símbolo de autoridade e comando.
Os preparativos, após a 3.ª refeição, começaram de imediato — quer no lado dos “atacantes” quer no dos pobres “defensores”. As toalhas bem enroladas e, recheadas, segundo a imaginação de cada um, com os objectos mais duros que se encontrassem à mão. Depois do toque a recolher já se encontravam a “hostes” preparadas para saírem dos edifícios junto aos portões de entrada e deslocarem-se em “ordem de batalha”, silenciosamente, para os lados da área conventual. Eu estava, ainda, nestes últimos e, por ser um dos mais altos de toda a miudagem, tinha como obrigação plantar-me na primeira linha de defesa, com os graduados. As “guardas-avançadas postaram-se nos locais apropriados para darem o alarme do avanço adversário e assim o fizeram ao verem a movimentação da massa bruta dos matulões da 4.ª Companhia. A contenda começou renhida, defendendo, cada um, como podia, a porta das respectivas camaratas para não permitir a entrada e a grande confusão. Bem aguerrida estava a peleja quando alguém gritou: — Chui malta... olha o Vávora!
Realmente a figura do terrível capitão surgiu, pouco depois, empunhando o pingalim, enquanto vociferava: — Então meninos, então meninos.
Os distúrbios já tinham sido de monta, principalmente no que respeita a vidros partidos nas portas das camaratas, pois os “atacantes”, na fúria de tudo levar de rompante, quebravam-nos enquanto gritavam para gerar o pânico nos mais pequenos. Rapidamente o “assalto” cessou e a ordem foi retomada com a entrada em vale de lençóis ainda sob o efeito da adrenalina ao rubro.
No dia seguinte, algum poeta e melómano pôs a circular uma cantiga da qual já só recordo alguns versos brancos. Rezava assim:
Gritos, alaridos
Vidros partidos,
É o Carnaval da Malta
O Vávora de chicote
Isto é um pagode
É o Carnaval da Malta
E continuava numa lengalenga que os anos varreram da minha lembrança.
À guisa de parênteses, contudo, não posso deixar de aqui lavrar uma coincidência curiosa.
Por volta de 1983 ou 1984, era eu major, já levando quase vinte anos de oficial, tive como condutor um jovem praça, educado, comedido e correcto, que todos os dias me levava para a Base Aérea n.º 1, em Sintra. Certa manhã, por qualquer razão que não lembro, desviámo-nos do trajecto normal, fazendo caminho por Benfica passámos junto à 2:º Secção dos Pupilos. Com naturalidade, deixei cair a frase «Foi aqui que estudei durante sete anos» e, para espanto meu, diz-me o condutor: — Então é capaz de ter conhecido o meu pai! Quis, de imediato, saber quem ele era, porque admiti tratar-se de algum ex-aluno e, qual não é o meu espanto, diz o condutor: — O meu pai é o brigadeiro Marques Lopes.
Nem quase podia acreditar! Então o motorista que há vários meses me conduzia à Base era filho do Vávora?! Mandei cumprimentos para o pai e calei as muitas estórias que poderia contar-lhe do progenitor.
A Vida dá muitas voltas e, em algumas delas, faz-nos surpresas que julgávamos impossíveis. Esta foi uma delas!
 
Como estamos na época carnavalesca aqui ficam recordações que já têm muitos anos!
Meditem, os mais jovens, nas javardices desses tempos recuados e recordem, os mais velhos, algumas verdades que, se calhar, querem esquecer.
Brinquem muito ao Carnaval...

Quando usávamos luvas

 

Já vai muito longe o tempo em que os alunos dos Pupilos do Exército e os do Colégio Militar, tal como os da Escola Naval e os da Academia Militar, a par de todos os oficiais dos três ramos das Forças Armadas, usavam luvas com o trajo de saída, também chamado n.º 1. Começaram por ser umas luvas de algodão cinzentas, mas rapidamente deram lugar a outras de pelica castanha.
 
Parece não ter importância nenhuma este simples pormenor do fardamento... mas a verdade é que tem e é muito grande.
O uso da luva calçada na mão esquerda, que segurava a outra da mão direita, caracterizou um tempo em que os grupos sociais se distinguiam pela forma de trajar. As luvas eram sinal de que o trabalho de quem as usava não era braçal, porque simbolizavam a protecção das mãos para a execução de labores delicados, tais como escrever, ler, pintar, tocar instrumentos musicais e tantos outros. Na vida castrense eram um distintivo de comando, de graduação superior, porque os soldados e os sargentos só colocavam luvas em dias de cerimónia, quando integravam formações armadas e equipadas para se mostrarem em luzidas paradas militares. Contudo, os oficiais usavam-nas sempre, porque eram cavalheiros de sociedade.
Não acredito que «o hábito faça o monge», mas o uso constante do mesmo «hábito» acaba por se impor e obrigar à adopção de regras que, muitas vezes, quem não é «monge» passa a comportar-se como tal.
 
É natural que, nos tempos correntes, especialmente no nosso país, onde o conceito de Democracia é um novo-rico bem aperaltado, penteado, exibindo grossos anéis de ouro, mas com um polimento ligeiro, que estala ao primeiro passo mais largo, é natural, dizia, que se tenha abandonado o uso das luvas como adorno distintivo de grupo social ou de comando. Todos querem parecer o que não são, sendo, realmente, umas marafonas sócio-culturais que se travestem para agradar a quem os pode criticar. Se os meus leitores tiverem dúvidas reparem no exemplo do líder do CDS/PP que todos os dias aparece na televisão ornamentado de gravata, mas, quando se desloca, em comícios, junto do povo humilde das aldeias, aparece de colarinhos abertos para se confundir com o homem da rua; ou, se preferirem, o líder do PCP que, por regra não usa gravata, mas quando vai a um debate televisivo lá se adorna com o pedaço de pano ao pescoço. E isto são meros exemplos! Afinal, cada um de nós parece estar mais preocupado com a imagem que transmite para fora do que com aquilo que, na verdade, é ou defende.
Tais atitudes resultam, na minha opinião, de uma aprendizagem rápida e desajeitada do que é Democracia; o pedreiro perdeu o orgulho da sua profissão, tal como o balconista, o sapateiro, o canalizador — todos querem parecer bem instalados na vida, enfarpelando-se como burgueses — e, do mesmo modo, os estudantes, os políticos, os professores, os médicos, os oficiais das Forças Armadas desejam não se mostrar por fora como pertencendo a um grupo culturalmente distinto dos restantes e, assim, nivelam-se por baixo. Somos todos uns farsantes, pois vivemos e cultivamos a farsa como forma correcta de estar em sociedade.
 
É sabido que, desde muito jovem — talvez lá pelos dezoito anos, estava ainda no Instituto — manifestei as minhas poucas ou nenhumas simpatias pelo Estado Novo. Por isso, é com grande à-vontade que afirmo o meu agrado pelo tempo em que os alunos dos Pupilos, obrigatoriamente, usavam luvas de pelica castanha quando trajavam o uniforme de saída. Nessa época cultivávamos o gosto pela diferença, o prazer por sermos mais do que os outros... E fazíamo-lo sem vergonha, de cara levantada, porque era honroso. Hoje em dia, até vergonha há em andar fardado, quanto mais de luvas na mão! Há quantos anos não vejo na Baixa, ou em qualquer centro comercial — que não seja o «Fonte Nova» ou o «Colombo» — um aluno uniformizado!
 
Se não se cultiva o orgulho e a saudável vaidade exterior, como se pode esperar que existam verticais valores nos jovens que frequentam o Instituto?
As minhas experiências recentes deixaram-me bastante desiludido! Está claro que uma árvore não faz a floresta!

O monopólio

 

Quando se já está na idade — correcta — da reforma laboral começa-se a saber muita coisa, porque se tem mais tempo para investigar e aprender. A corrida para ganhar o pão de cada dia deixa de ser necessária e pode optar-se por fazer “coisas” que nunca se fizeram antes ou por meditar.
Ainda não sou exactamente um reformado, porque mantenho actividade como professor universitário, embora, pela própria natureza da função, me tenha dedicado a pensar nos assuntos sobre os quais tenho obrigações ou sobre aqueles que me dão prazer.
 
Acontece que a minha recente decisão de quebrar um laço, com 53 anos de existência, com a APE me fez pensar muito sobre o assunto. Comecei por recordar os fins da fundação do, então, Grémio dos Alunos dos Pupilos do Exército. Os fundadores, que tive a felicidade de conhecer — e bem — quase todos, queriam agrupar-se numa associação para manter viva a mística de camaradagem e amizade que os havia unido na vivência do Instituto. Nessa época, todas as associações eram mal vistas e sobre todas recaía a desconfiança de por lá se conspirar contra a ditadura que amordaçava o país e as gentes. Tinham decorrido somente duas décadas sobre a fundação do Instituto. O número de gerações de ex-alunos não era grande e, acima de tudo, eram todos jovens: os mais velhos estariam pelos 30 e poucos anos. As divergências entre eles eram menores e as que mais peso tinham provinham de posturas políticas antagónicas. Em nome da juventude comum ultrapassavam-se esses escolhos e todos se juntavam à volta da ideia de se criar um prolongamento do Instituto. Mas houve logo gente, desde a primeira hora, que dispensou o Grémio (mais tarde Associação). Para esses, o amor à Casa não se traduzia na necessidade de estar arregimentado à volta de uma estrutura regulamentada; para esses a camaradagem guardava-se no peito e a amizade no coração.
 
Eu fiz-me sócio da APE, porque, logo no primeiro ano de frequência do Instituto, alguns dos mais antigos alunos, com aquela “meiguice” que todos nós conhecemos me “recomendaram” a adesão, usando de frases persuasivas, tais como: — O puto ou se faz sócio ou partimos-lhe a tromba! Claro que, pesem embora os meus 13 anos espigadotes, não tive outro remédio... Fazer-me sócio e acrescentar às despesas lá de casa mais a quota trimestral. Não era isso que deitava abaixo as finanças familiares!
Como se vê, fui, primeiramente, sócio “voluntário”, depois sócio consciente... Mas esta última condição só a adquiri quando já era oficial e estava em África. Por lá encontrei muitos ex-alunos que nunca se tinham filiado na APE, nunca tinham pago uma quota — até porque era difícil a transferência de capitais para Portugal — mas amavam entranhadamente o Instituto e vibravam com tudo o que a ele dissesse respeito. Vibravam mais do que muitos ex-alunos, vivendo em Lisboa e com a sede da APE ali ao virar da esquina.
 
Isto tudo vem a propósito de alguns antigos alunos — se calhar até muitos — associados na APE julgarem que só quem paga as quotas e frequenta a sede social é que sente o Pilão. Para esses o amor à «Casa tão bela» é monopólio da APE, só ali e sendo sócio, é que se pode discutir o que é bom ou mau para o Instituto. Só na rua Major Neutel de Abreu é que residem as virtudes! Fora da Associação não há gente que possa ter e defender pontos de vista divergentes dos adoptados pela APE. A APE e os sócios têm o monopólio de opinião... E vão mais longe! Alguns chegam até a verbalizar a hipótese de, para se discutir em divergência com a Associação, ter de se fundar uma outra!!! Deuses dêem juízo a estes ex-alunos!
 
Tudo isto prova que, cada vez mais, se torna imprescindível perceber o que realmente é importante dentro da APE: o governo de uma mera associação ou a gestão de uma estratégia para conseguir alterar o curso da vida do Instituto — que, segundo parece, tende a encurtar-se? Ora, só quando os corpos gerentes forem capazes de definir o que pretendem é que conseguirão perceber que não representam os antigos alunos dos Pupilos do Exército. Não! Limitam-se a representar uma parcela dos antigos alunos: a dos associados da APE. O resto representa-se por si próprio
 
Se os corpos gerentes da APE tivessem real consciência do que representam e de quem representam teriam de ser mais prudentes nas suas afirmações de princípios; teriam de ser mais cautelosos nas propostas que apresentaram e que ainda apresentam; teriam de procurar ouvir ex-alunos que não são sócios, pois, provavelmente, muitos há que até têm ideias concretas quanto ao futuro do Instituto, até têm influência política nos lugares que ocupam e nos relacionamentos que desenvolvem, mas não se revêem na Associação. Por não se reverem nem são obrigados a tornarem-se sócios, nem devem calar as suas opiniões. Se alguém tem que alterar posturas é a APE. Ela é que tem de se adaptar às realidades, que são as existentes e não as que alguns dirigentes imaginam.
 
Não gosto de monopólios e cada vez mais, por isso mesmo, não gosto dos antigos alunos que gravitam pela APE. Num dia destes acabam representando-se a eles mesmos e a mais ninguém!