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Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Memórias dos Pupilos

Aqui vou registar as lembranças, boas e más, dos meus tempos de aluno dos Pupilos do Exército para as partilhar com os leitores. São, também, para os actuais alunos se quiserem conhecer velhas experiências...

Pupilos, uma Escola de eleição

 

O contabilista é o profissional capacitado a produzir informações úteis para tomada de decisões, a partir dos atos e fatos que ocorrem no dia-a-dia das empresas. Ele planeja, coordena e controla compras, vendas, investimentos e aplicações de uma empresa, indicando pontos que precisam de atenção, responsabiliza-se pelo pagamento de tributos e pode planejar investimentos. São ainda atividades exclusivas do Contador as perícias contábeis e as auditorias contábeis e financeiras.

(De um site brasileiro da Internet)
 
 
Não pretendo ser longo, por isso explicarei pouco, mas deixarei as pistas necessárias para os meus leitores poderem meditar.
 
Não há dúvida nenhuma que o Instituto dos Pupilos do Exército já foi uma Escola de eleição. Deixou de ser entre as décadas de 80 e 90 do século passado; até ao final dos anos 70 ainda era uma excelente Escola.
 
Como se caracterizava a excelência do Instituto? Que factores contribuíam para o reconhecimento dessa qualidade? O que é que aconteceu para se verificar a mudança?
 
Primeiro do que tudo temos de contextualizar a excelência da Escola.
Podemos dizer que a melhor expressão da dita excelência se traduz pela oferta de emprego quando ainda os alunos não tinham concluído os seus cursos médios.
Esse elevado nível de procura de ex-alunos e a facilidade de emprego no mercado de trabalho dá-se no começo dos anos 30 do século XX e dura, em plena euforia, até ao final dos anos 40; depois, com a transformação dos cursos de indústria, fica só uma significativa procura de diplomados com o curso de Contabilistas. A tradição anterior é retomada, em escala bastante inferior nos anos da década de 70 e começa a cair nos anos 80.
 
Ocorre, agora, perguntar: — Qual o motivo que levava a essa oferta extemporânea de emprego a jovens recém acabados de formar? A garotos com pouco mais de 18 ou 19 anos?
Em primeiro lugar, a escassez de gente diplomada pelos Institutos similares civis (Instituto Industrial e Instituto Comercial) de Lisboa, Coimbra e Porto. Todos quantos acabavam os cursos técnicos de grau médio (como então se chamavam) tinham emprego, porque eram especialistas que, situando-se entre o operário especializado ou o escriturário especializado e os licenciados em engenharia ou economia e finanças, tinham uma preparação teórica muito superior à dos primeiros e uma capacidade prática que se aproximava muito da dos segundos. Um agente técnico de engenharia supria, em muitíssimas ocasiões, a falta de um engenheiro, tal como um contabilista colmatava a ausência de um economista (hoje chamado gestor). Há que levar em conta o facto de, também, o número de engenheiros e de economistas ser muito limitado naquela época.
Todo este conjunto dava aos ex-alunos dos Pupilos uma extraordinária possibilidade de emprego imediato. Mas estariam eles melhor habilitados do que os seus colegas dos respectivos Institutos civis?
A resposta tem de ser decomposta.
Do ponto de vista da preparação técnica, pontualmente, haveria cursos ou grupos de disciplinas em que os antigos alunos possuíam uma preparação teórica e prática mais apurada, mas não eram todos os cursos nem todas as disciplinas. Isso representava uma mais-valia de pouca importância, até porque, na maior parte dos casos, os empregadores não possuíam, eles mesmos, capacidades para apreciar a diferença.
O que atraía os empregadores era um outro elemento que não tem sido devidamente enaltecido nos muitos relatos que li ou ouvi. O que encantava os empregadores era a disciplina dos antigos alunos dos Pupilos do Exército. Era gente habituada a cumprir horários, a trabalhar nos momentos a isso destinados, a receber ordens e a não as discutir, mas cumpri-las mesmo com sacrifício físico, gente educada com claras noções de hierarquia, sabendo quem manda e quem deve obedecer. Eram estas as qualidades que distinguiam os ex-alunos dos Pupilos dos seus colegas dos Institutos similares, mas civis. Com estas qualidades, com estas virtudes — essencialmente fruto de uma educação militarizada — os técnicos saídos dos Pupilos do Exército eram, de certeza, bons funcionários, responsáveis, disciplinados e disciplinadores. Isso era fundamental para o andamento dos serviços que eles, muito jovens ainda, iriam chefiar ou superintender. Estavam habituados a ser mandados e a mandar. Essa era a maior de todas as preparações «técnicas» dos ex-alunos. Era isso que dava excelência aos antigos alunos.
Há que acrescentar mais para melhor se compreender a situação de excepção de que gozavam os Pilões.
Vivia-se em plena ditadura e esta valorizava a hierarquia, a ordem e a disciplina coisas que todos os alunos dos Pupilos, fora de um contexto politizado — mas militarizado — possuíam em elevado grau. A ditadura funcionou como a cereja no topo do creme do bolo.
 
Será necessário explicar os motivos que levaram à alteração de todo este quadro? Julgo que sim, para não restarem dúvidas e se poderem tirar conclusões.
A democratização da sociedade portuguesa gerou dois tipos de fenómenos em concomitância: por um lado, deu-se a explosão educativa — quer estatal quer privada — originando a super abundância de escolas e de cursos (a diversidade destes é simplesmente abismal se a compararmos com o que existia em 1973), logo, o Instituto passou a ter de concorrer não com três outros similares, mas com várias dezenas ou, talvez, uma centena; por outro lado, a democratização gerou (felizmente) a Liberdade que foi mal apreendida e mal «digerida» pelos Portugueses, pois confundiram-na com libertinagem e disciplina com fascismo para além de não respeitarem mais as hierarquias da competência, mas as do dinheiro e do poder.
Este quadro reflectiu-se dentro do Instituto: contestar foi palavra que ganhou novas dimensões. Contestavam os militares que deviam disciplinar, contestavam os professores que deviam ensinar, contestavam os alunos que deviam obedecer e estudar. O nível geral de disciplina caiu à vertical, gerando sucessivas camadas de antigos alunos que, embora tendo tido um arremedo de educação militar, são anti-militares, anti-fardas, anti-regulamentos disciplinares. São ex-alunos que, em boa verdade, foram Pupilos, mas não do Exército. E o certo é que continuam a sair da Casa ex-alunos com um forte desprezo pelas virtudes militares (existem excepções que justificam e honram a regra).
 
O que acabei de dizer justifica o quadro de degradação a que o Instituto dos Pupilos do Exército chegou. A passividade de oficiais e directores veio alimentar a situação, contudo não se lhes podem assacar todas as responsabilidades.
A ânsia de concorrer em pé de igualdade com o Colégio Militar descaracterizou o ensino secundário nos Pupilos que deveria, contra ventos e marés, ter continuado a ser essencialmente técnico — mesmo que com programas específicos e só a ele aplicáveis. A ânsia de não perder os cursos médios — que desapareceram — levou à transformação em cursos politécnicos que sofreram o desgaste da concorrência. Já deviam ter acabado para reconverter esforços num curso secundário técnico com saídas para a universidade. Nada disto se soube fazer e continuou-se — continua-se — casmurramente a teimar na senda errada.
 
Que fazer em relação ao futuro?
Primeiro, exigir uma direcção empenhada; depois, um corpo de oficiais motivado para a missão; em seguida, reformular o corpo docente adaptando-o a um curso secundário técnico; finalmente, acabar com os cursos politécnicos (que estão em agonia profunda e não têm integração na perspectiva de Bolonha) e avançar para legislação especial que faça do Instituto uma nova escola técnica para quadros intermédios, sem descurar a possibilidade de, quem quiser, poder frequentar a universidade nas vertentes técnicas desenvolvidas na Escola. Tudo isto não pode ser dissociado de uma nova reformulação da disciplina interna e de um rigor que faça dos alunos jovens exemplares numa sociedade em regressão.
 
Difícil? Por ser difícil é que tem de ser esta a via a percorrer.

Uma opção...

 

Há vários meses que andava a remoer na ideia, tal como os suicidas. Vai ser hoje... Não! Vai ser amanhã...
Foi no domingo. No domingo tomei a decisão e não olhei para trás. Meti a carta no marco do correio e lá foi ela direita à sede social da APE (Associação do Pupilos do Exército). Irrevogável, determinada, pensada e ponderada. A carta tem todos os ingredientes necessários para ninguém me vir chatear com pedidos lamechas. A decisão foi tomada com tempo e com ponderação, tal como já disse.
 
Já nada me liga à Associação! Cortei todas as amarras possíveis. Cortei-as, porque estou farto. Farto e magoado. Magoado por uma seita de garotos que perderam a noção do respeito, se é que alguma vez a tiveram. Magoado por ver que há antigos alunos que preferem um silêncio cúmplice a uma tomada de posição condigna que reponha a ordem associativa e a verticalidade de princípios que, julgo, aprenderam no Instituto. Magoado por ter conhecimento que há já meses, antes do Verão, houve elementos dos corpos gerentes que se demitiram dos respectivos cargos e a Direcção em vez de procurar repor a legitimidade associativa, através de proporcionar eleições antecipadas, optou por se manter em funções em nome de uma provável legalidade que vai contra tudo o que se poderia esperar em termos de moral. Magoado, desiludido, farto. Farto de fazer parte de uma associação desgovernada ou ingovernável dentro dos padrões comportamentais da actualidade. Farto de bradar no deserto, porque dizer seja o que for ponderado e cauteloso no meio associativo, dá, de imediato, lugar a um conjunto de ofensas e de faltas de respeito. Farto de estar farto. Vou partir para outra, como dizem os Brasileiros.
 
Para que todos os que estão a ler o que escrevo me possam perceber, transcrevo a carta que mandei ao presidente da Direcção da APE. Carta de despedida. Despedida sem retorno, repare-se.
 
Exmo. Senhor
Presidente da Direcção da
Associação dos Pupilos do Exército
Rua Major Neutel de Abreu n.º 20 s/l – E
1500-411 Lisboa
Lisboa, 17 de Dezembro de 2006
Exmo. Senhor Presidente da Direcção
Há cinquenta e três anos que sou sócio da Associação dos Pupilos do Exército.
Muito jovem ainda fiz parte dos corpos gerentes (nos recuados anos de 1970). Convivi com ex-alunos muito mais velhos do que eu (com idade para serem meus pais, nessa altura). Vivi, com experiência feita, o que era o respeito pelas pessoas e pelas suas ideias (como os jovens consideravam os mais velhos e como estes nos respeitavam nos disparates que arriscávamos alvitrar). Era um tempo em que a cópia sem fundamento do tratamento por tu, usual entre ex-alunos do Colégio Militar, não estava instituída no seio dos antigos alunos dos Pupilos do Exército (nunca me passaria, sequer, pela cabeça escrever «o Álvaro de Oliveira» ou «o Barroso Júnior»; a um antepunha o seu posto militar — brigadeiro — a outro o simples, mas respeitoso tratamento, de Senhor). Era um tempo em que não nos envergonhávamos de respeitar os mais velhos, embora tivéssemos consciência da nossa juventude. Mas era, também, um tempo em que os mais velhos não buscavam populismo na base de uma forçada convivência familiar e ausente de respeitosas barreiras. Com essa APE e com essa massa associativa eu estava identificado e com ela sabia conviver.
O respeito e a irreverência são de todos os tempos. Importa é que se saiba e queira cultivar o primeiro e travar os abusos da segunda. Era esse o princípio que norteava a APE e a massa associativa dessa época. Mas era também o culto das virtudes e comportamentos que haviam sido incutidos no Instituto às várias gerações de alunos que por ele passaram desde a sua fundação que procurávamos demonstrar no nosso relacionamento mútuo. Cultivávamos o sentido do rigor, da verticalidade e da saudável camaradagem fundamentada na educação e respeito.
Ao regressar da minha última comissão militar em África, em 1975, mantive-me arredado da APE e do convívio com ex-alunos (exclusão feita a todos os militares e civis com quem, por força das minhas funções, tinha de cruzar no meu dia-a-dia). Foram raros os almoços comemorativos dos aniversários do Instituto e da Associação a que fui. O meu empenhamento profissional não me dava tempo para encontros e, menos ainda, para fazer vida associativa.
Foi em 1991/92 que passei a leccionar no Instituto uma disciplina do 1.º ano do Curso de Contabilidade e Administração. Nessa altura apercebi-me, com toda a clareza e consciência, das modificações que se tinham operado desde 1961, ou seja, trinta anos depois. O garbo, a vaidade de se envergar a farda, a postura militar resultante da educação recebida, o sentido de responsabilidade perante as exigências dos professores, a vergonha de fazer má figura, tudo isso e muito mais tinha desaparecido. Os alunos e o Instituto eram uma «paisanada» absoluta e tanto uns como o outro tinham-se descaracterizado. Notavam-se todos os traços de uma sociedade em mudança, de uma sociedade que passou a saber cultivar o oportunismo, a falta de rigor, o desleixo, a permissividade perante valores de distinção. Estive dois anos lectivos no Instituto e, por razões várias — a que não são estranhas as referências anteriores — não aceitei continuar como professor. Era contemporizar com o desleixo marcante, com um caminhar para a ignorância e para o oportunismo. Era pactuar com baixos padrões pedagógicos — pesem, contudo, os esforços do Director da Secção respectiva, um digno ex-aluno e um exemplo de quanta qualidade havia nos recuados anos de 50. A diferença entre o IMPE e qualquer escola de baixo gabarito do meio civil era quase nenhuma. Colaborar nesse projecto perdido passava por prostituir o meu sentido de ensino. Isso não o faria, tal como não o faço. Os Pupilos, para mim, no início dos anos 90 do século passado, já estavam em plena decadência... só não via quem não conheceu a verdadeira Escola que aquelas paredes já haviam albergado. E, como se prova, o resultado está bem patente nos dias que correm. Enquanto fui professor dei com muito poucas excepções, entre os alunos, facto que só veio confirmar a regra.
Quando, mais recentemente, pela primeira vez, o Instituto se viu ameaçado de encerramento e houve uma tomada de consciência colectiva por parte dos ex-alunos da necessidade de fazer ouvir a sua voz junto das instâncias do Poder não fiquei indiferente e passei a dar o meu contributo, de forma variada, para a vida associativa. Uma delas foi veiculando ideias no Fórum Pilão XXI — em boa hora imaginado por antigos alunos cheios de salutar vontade e correctos propósitos.
Os anos passaram e, em cada dia que passava, fui-me apercebendo que, realmente, a minha análise sobre os alunos (que viriam a ser ex-alunos) do começo da década de 90 do século transacto não estava errada e, bem pelo contrário, se podia generalizar a grande parte de todos aqueles com quem «convivi» informaticamente. Mas o verdadeiro descalabro deu-se com a tomada de posse da presente Direcção. A arrogância e o despudor educativo de jovens ex-alunos que rondam os trinta e poucos anos de idade acobertaram-se ou foram acobertados pela postura arrogante, também, da Direcção da APE. Geraram-se grandes linhas de clivagem e de fractura que são visíveis nas mais pequenas manifestações da Associação (desde o célebre anúncio — «Queres ter o nome numa rua “Eng.”---»; porquê Eng. e não Gen.? Ou Alm.? — até se afirmar, repetidamente, em editorial do Boletim, a condição de empresário e de civil com êxito em vez de se usar a fórmula generalista de «profissional»). Geraram-se linhas de afirmação de um abusivo tratamento por tu entre gente que em comum só tem o facto de terem frequentado a mesma Escola. Caiu-se na ofensa gratuita e mesquinha.
Não me identifico com esta massa associativa, com os seus valores nem com os seus anseios futuros e, por conseguinte, não me identifico com esta Associação dos Pupilos do Exército. Nem com esta Direcção. Nem com estes Corpos Gerentes. Identifico-me com antigos companheiros dos meus tempos de Instituto, com gente que aprendeu os mesmos princípios que eu aprendi, que se rege pela mesma pauta de valores que eu adopto. Identifico-me com o Instituto enquanto instituição não enquanto Associação. Porque continuar ligado à APE constitui uma violência que a minha consciência e o meu intelecto não aceitam, só me resta renunciar à minha condição de sócio. Sócio da APE, NUNCA MAIS!
Nesta conformidade, Senhor presidente da Direcção da Associação dos Pupilos do Exército exijo que proceda em conformidade de modo a que o meu nome seja riscado das listas associativas a partir do dia 1 de Janeiro do ano de 2007. Nada devo a essa Associação, contudo, julgo que ela a mim muita coisa deve. Deve-me, pelo menos, o respeito de sempre a ter dignificado enquanto sócio e antigo aluno do Instituto dos Pupilos do Exército, condição que não vou renegar, embora renegue a de sócio da APE.
Reservo-me o direito de dar a esta carta a publicidade que muito bem entender.
Aceite os cumprimentos institucionais do
 
 
 
 
(Luís Manuel Alves de Fraga
Sócio n.º 282 do ano de entrada de 1953
Coronel reformado da Força Aérea
Professor da Universidade Autónoma de Lisboa
Historiador
Mestre em Estratégia
Licenciado em Ciências Político-Sociais
Diplomado pela Academia Militar de Portugal)

O silêncio é cúmplice

 

Reli a última “postagem” que aqui deixei. Na sequência, conclui que era necessário fazer, desde já, um aviso aos ex-alunos cujo silêncio é cúmplice da actual situação vivida pelo Instituto e, até pela APE.

 

Realmente, todos os que, tendo responsabilidades associativas ou não, se calam agora ou, pior ainda, apoiam os alunos na sua postura estudantil estão declaradamente a cavar a tumba onde se há-de enterrar o Instituto. É necessário dizer aos alunos que frequentam o ensino secundário nos Pupilos que têm, pelo menos, 50% de responsabilidade no encerramento da Casa que nos educou. Mas os ex-alunos têm o dever de o dizer agora, hoje, neste momento para que os mais jovens possam remediar a sua postura perante o estudo e perante o desejo de aprender. Os ex-alunos não podem guardar este argumento para quando o Instituto fechar para sempre as suas portas, porque, nessa altura, estarão a ser desonestos e traiçoeiros. É agora que se tem de chamar a atenção dos alunos. É agora que se tem de lhes exigir que coloquem os Pupilos nos dez primeiros lugares do ranking nacional das escolas secundárias.

 

Não há Poder político capaz de fechar um estabelecimento de ensino que tenha altos e dignificantes resultados escolares. Vamos deixar de dizer aos alunos que eles são uns tipos bestiais, que a culpa é do Estado-Maior do Exército por não dar dinheiro para a manutenção da Escola, que a culpa é do Director do Instituto por deixar correr e não fazer obras e arranjos nas instalações, que a culpa é do ministro da Defesa Nacional por qualquer coisa que queiram inventar, que a culpa é deste e do outro e de não sei mais quem!

 

Não. Uma grande dose de culpa é dos alunos e, consequentemente, dos professores. Dos primeiros, porque não se aplicam afincadamente com o forte desejo de obter excelentes classificações; dos segundos, porque ou não sabem ensinar, ou são permissivos, ou não sabem responsabilizar os alunos pelos fracos resultados escolares que alcançam.

 

Alunos e ex-alunos, sejamos honestos. Saibamos arcar com as responsabilidades que nos calharam em sorte. Aos ex-alunos peço que deixem de bajular os alunos como se eles fossem o supra-sumo da inteligência e cultura nacionais. No seu conjunto, os alunos são muito fracos. Tão fracos que os resultados estão à vista de todos nós. Por isso, só há um processo de começar, desde já, a salvar o Pilão: obrigar os alunos a estudar, a terem excelentes notas, a tornarem-se conhecidos por pertencerem ao grupo superior dos jovens portugueses. Assim, o Instituto terá hipóteses de não ser encerrado. De contrário, não.

 

Não gostem de mim, mas estudem, vençam com altas classificações. Um dia, dar-me-ão razão!

Os ideais são poucos e distorcidos...

 

Tenho recebido, no meu computador, as mensagens que transcrevem o que se vai colocando no Forum Pilão XXI.

 

O menos que posso dizer é que me sinto triste com o que por lá se escreve agora, pouco depois da «borrasca» originada por uma feliz intervenção do meu velho Amigo António Trancoso! Triste por ver ao que chegou um forum cuja finalidade era, quando foi criado, elevar e debater os ideais dos antigos alunos de forma a encontrar uma «saída» correcta e digna para a situação em que se pretendia colocar o Instituto. Queriam fechá-lo à míngua de inscrições.

 

Foram lindas as disputas ali travadas, cada qual batendo-se pela melhor ideia, aquela que julgava salvadora de uma morte anunciada. Esses ex-alunos foram-se calando, estafados de gastar os neurónios e os ideais.

 

O que resta? Uns oportunistas que fazem do forum local de encontro para tratarem de governar a sua vidinha, anunciando este e aquele produto, esta e aquela oportunidade, estendendo a mão com um currículo cheio de pouco ou nada na esperança de conseguirem um trabalho. A isto está reduzido o forum. É um montão de «pedras soltas» sem história, nem glória.

 

Isto, olhado friamente, quer dizer uma só coisa: os ideais foram-se embora e ficou o oportunismo. O Pilão vai inexoravelmente fechar as portas dentro de poucos anos, porque não há ânimo nem vontade, por parte dos ex-alunos, para se formar uma verdadeira barreira de oposição. Não, cada um quer governar a sua vida ou fazer de conta que está ainda a lutar por uma causa já há muito perdida.

 

É uma causa perdida, porque o «golpe de rins» necessário para salvar a Casa tinha de ser dado dentro dos muros do convento de S. Domingos. Era preciso que os alunos se enchessem de brios e procurassem ser melhores estudantes alcançando resultados espectaculares de modo a, quase miraculosamente, passarem da vergonhosa posição que ocupam no ranking das escolas nacionais para virem colocarem-se nos lugares cimeiros. Mas isso não acontece, porque ninguém lhes diz a verdade. A verdade nua e crua: vocês valem muito pouco como alunos e como estudantes e não é com campeonatos de esgrima, florete, bisca lambida ou jogo do pau com os ursos que se fazem notar no plano nacional. Não. Só conseguem fazer-se notar quando todos, mas todos mesmo, quiserem ser os melhores alunos de Portugal.

 

Ninguém lhes diz isto, porque não é «politicamente correcto», porque ninguém quer admitir que a escola que começou, em 1911. destinada a dar profissões humildes, mas honestas, aos seus alunos acabou por se tornar num estabelecimento de ensino exemplar no fim da primeira metade do século passado. Era exemplar, porque os alunos que por lá passavam tinham uma excelente formação profissional, técnica e cívica. Acima de tudo cívica, pois haviam interiorizado princípios de disciplina, trabalho e educação social.

 

O forum é o espelho do Instituto: um cadáver a viver os últimos instantes de vida útil.

Ainda há uma muito fraca luz ao fundo do túnel, mas apagar-se-á se não tivermos a coragem de encarar de frente a verdade e fazer que, efectivamente, Querer seja Poder.

O Forum Pilão XXI

 

Passei por lá. Tenho sempre passado por lá. O que tenho lido? Nem dá para explicar! Vou tentar.

 

De um lado, o Trancoso, meu Companheiro e Amigo de há mais de 50 anos, a “esgrimir” sozinho, usando e gastando a sua rica retórica e a sua apurada lógica; do outro um, um grupo já razoável de jovens ex-alunos (com idade para serem seus filhos) acompanhados de uns Pilões mais “velhinhos”, mas que, como os chefes de escuteiros, resolveram vestir-se de garotos.

 

O grande e fundamental pomo de discórdia está assente no facto de o Trancoso ter dado público conhecimento de uma mensagem que o Américo Ferreira lhe havia mandado em privado. E o que dizia essa mensagem? Acima de tudo que postura transmitia essa mensagem? Tudo e nada!

 

Tudo, porque manhosamente o “lobo” se cobre com a pele do “cordeiro”; nada, exactamente porque quis fazer o papel do mais inocente anho do rebanho sujeito à escolha de um terrível algoz que o seleccionou para ser sacrificado no altar da opinião pública.

 

Deste modo, quando o Trancoso, meu Amigo desde os tempos do Pilão, meu camarada desde os recuados anos da Academia Militar, se dispõe a trazer à praça pública o que lhe tinha sido enviado em privado fá-lo com plena consciência e sem nenhuma ponta de inocência. Não contou foi com a “lágrima” fácil dos jovens Pilões que o Américo Ferreira sabe explorar com mestria. O Trancoso contou com a frontalidade, a coragem, a frieza de raciocínio e a verticalidade de todos os que o lessem. Enganou-se. O presidente da Direcção da APE levou-lhe a melhor, pelo menos neste round. O porquê? Porque, na sua mensagem privada perguntava, com ar de “puto” acabado de entrar nos portões do Instituto: — Que mal te fiz eu, para me estares a bater sempre?

 

Ardiloso, este “puto” de cinquenta e tal anos! Muito ardiloso...

 

Assim ele sabia que se o Trancoso tornasse público o que era privado ia contar com o apoio — como está a contar — de todos os “putos” que vão atrás do “choro” que lançou na sua mensagem e sabia, também, que se o Trancoso lhe desse resposta em privado nunca iriam ser públicas as suas tropelias enquanto presidente da Direcção da APE. Se fossem tornadas públicas estavam atenuadas pela “tremenda maldade” do meu Amigo Dias Trancoso ter dado à publicidade uma coisa em que ele, “pobre inocente”, queria reservada.

 

Esperto o “menino”!

 

Tão esperto que conseguiu, de facto, não só desviar as atenções gerais do que é, realmente, fundamental como, também, garantiu a adesão, pelo menos, da maioria dos leitores que se querem comprometer no Forum (porque haverá, disso não tenhamos dúvidas, muitos ex-alunos que estão de acordo com o António Trancoso, mas não querem vir à estacada “sujar” a imagem, dando-lhe a razão que lhe assiste).

 

O Américo Ferreira conseguiu “dar a volta” à cabeça dos “putos” (tenho filhos mais velhos do que a maioria dos Pilões que se manifestam tão desabridamente no Forum e que, aqui para nós, eu gostaria de os ver se companheiros da sua idade tratassem os seus progenitores com a deselegância com que eles tratam quem passou pelo Pilão há mais de quatro dezenas de anos!), dizia, deu a volta à cabeça dos “putos” levando-os a considerarem uma falta de ética o que o Trancoso, com toda a coragem e frontalidade, fez.

 

Falta de ética, falta de decoro, falta de verticalidade associativa tem-na o Américo Ferreira quando continua à frente da Direcção depois de três membros efectivos do seu elenco (escolhidos por ele), em bloco, terem apresentado a demissão daquele órgão. Qualquer brigadeiro Álvaro de Oliveira, qualquer senhor Barroso Júnior — figuras ímpares de ex-alunos — teria imediatamente apresentado a demissão ao presidente da Assembleia Geral e passado à gestão corrente até que uma nova Assembleia tomasse decisões. Isso é Ética e Verticalidade. Mas que ética se pode esperar quando um presidente da Assembleia Geral convoca o plenário de sócios e falta à sua própria convocação? Mas que ética se pode esperar quando também não está presente o vice-presidente da Mesa da Assembleia Geral?

 

São estas e outras que permitem aos presidentes deste país ir governando destinos mais ou menos alargados de colectividades mais ou menos amplas. Porque esses regem-se por uma ética que mal se vê, que não é a dos Homens verticais, impolutos e que não querem agarrar-se ao poder (por mais pequeno que ele seja) como o Botas de Santa Comba Dão.

 

O Américo Ferreira que venha publicamente explicar o buraco financeiro que a sua megalomania gerou, no ano passado, no património da APE. Buraco que vão ser os sócios a pagar... Mas isso não lhe convém trazer a público e explicar muito bem explicadinho. Explicar aos “putos” que, agora, lhe dão um indefectível apoio!

 

Meu caro António Trancoso, é altura de poupança... Não percas tempo, água e sabão... Poupa-te para gozares o excelente clima da “Pérola do Atlântico”, terra que de mau só tem quem a governa e onde muitos destes contra quem tu agora esgrimes parece terem aprendido muitas das manhas de homens públicos.

 

Não há paciência! Eu não a tenho, porque, sendo coronel reformado e professor universitário no activo faço todos os possíveis para dignificar aquilo que fui e aquilo que sou, comportando-me em concordância com o papel que é socialmente esperado de mim e com o qual a minha consciência está consonante.

Direcção da APE não tem legitimidade?

Constou-me — reparem que digo, constou-me — que, pelo menos, dois membros efectivos da Direcção da Associação, já antes do Verão (entenda-se, Agosto), haviam apresentado a sua demissão do elenco directivo. Na sequência, terão sido convocados dois suplentes, mas estes mesmos deixaram de comparecer às reuniões da Direcção.

Por outro lado, também me constou que o presidente do Conselho Fiscal havia apresentado a sua resignação do cargo, pela mesma altura.

Os motivos, ao que parece, foram graves divergências com o presidente da Direcção — o Américo Ferreira — que, julgo, logo de seguida terá tomado iniciativas no sentido de formar uma nova lista para concorrer a novas eleições, uma vez que tinha perdido a confiança de parte da sua equipa. Era correcta a atitude. Contudo, não passou de mera intenção, porque, até agora, não consta entre os sócios que tenha havido qualquer problema directivo.

Em face desta situação, e a ser verdade o que me vos conto, o Américo Ferreira governa os destinos da APE sem qualquer legitimidade e em claro abuso de confiança do mandato confiado pela Assembleia Geral que o elegeu e mais à sua equipa directiva.

Sendo real o que me consta, qual é o papel do Conselho Geral nesta fantochada toda? Será que para além da vontade de acabar com o Pilão também se está a fazer tudo para que a APE deixe de ser a legítima representante dos ex-alunos?

O que irá dizer o Américo Ferreira na próxima Assembleia Geral ordinária? Como explicará toda esta situação? Ou será que faz de conta que tudo está bem, assobia para o lado, e continua em frente? E será que a Assembleia Geral lhe dá o seu consentimento de que assim vá conduzindo os destinos associativos? Se tal ocorrer, isso não será a prova de que os sócios se estão marimbando para a sua Associação?

Como deixei de frequentar o Forum Pilão XXI, andará por aí alguém que venha visitar este blog e me possa esclarecer? Escusa de ser uma newsletter, pode ser um simples comentário!

Era muito bom que todas as preocupações deixadas nas linhas anteriores não passassem de meros boatos, estando eu mal informado e, por isso, redondamente enganado. Era bom, era...

Quando não temos vergonha

 

Há cerca de um ano travei uma polémica indirecta com o Presidente da Direcção da APE , no Fórum Pilão XXI, porque entendia ele que os assuntos da Associação não deveriam andar divulgados por aquele meio de comunicação e deveriam ser tratados na sede associativa. Era uma posição que podia ser defendida, embora eu discordasse atendendo aos meios electrónicos hoje postos ao alcance de todos para uma rápida comunicação. O Américo Ferreira mostrou-se inamovível nas suas razões. Bateu com o pé no chão e disse: - Comigo não é assim!

Muito bem. Não insisti, porque quando a teimosia é grande o silêncio é o maior vencedor. Contudo, para meu espanto, eis que, um ano depois, é o mesmo Américo Ferreira quem faz publicar uma Folha Informativa (toda cheia de emblemas da APE e barretinas do Pilão) no Fórum e, para ter a certeza que era lida, até a manda para a nossa caixa de correio electrónico!

Claro que se trata de mais uma operação de cosmética eleitoral, porque, desde que certas pessoas tomaram conta do leme associativo as técnicas da política nacional, foram adoptadas na APE com razoável aceitação pelas camadas mais jovens de antigos alunos.

O Américo Ferreira não tem vergonha e adapta-se às circunstâncias que mais lhe convêm. Falta-lhe dizer como, há muitos anos, afirmava um meu amigo: só os burros é que não evoluem... Ora, em face da situação presente, parece-me, tenho de concordar, pelo menos numa parte da frase, com o meu amigo... Não é que evoluem mesmo!

Homenagens devidas — Vítor Sousa

Foi há poucos dias. Encontrei, por acaso, o Mário Pereira no centro comercial e disse-me de chofre:

— Sabes quem morreu?!... Foi o Vítor Sousa.

Fiquei quase sem palavras. Era pouco mais velho do que eu. Provavelmente, nem aos setenta anos ainda chegara.

Em 1954, quando entrei no Pilão, fazíamos uma grande diferença de antiguidade, embora a diferença da idades não fosse significativa, porque eu matriculei-me no 2.º ano (actual 6.º de escolaridade) com catorze anos incompletos. No máximo ele teria, então 17.

Recordo-me do Sousa no Instituto. Era uma figura característica e inesquecível. Dizia-se dele que a farta e rebelde cabeleira se juntava, na nuca, aos pelos das costas. Parecia chatear todo o mundo com a sua forma brusca de falar, mas, lá no íntimo, era só fogo de vista.

 

Entrou para a, então, Escola do Exército e escolheu a Administração Aeronáutica. Seguiu a sua carreira com a normalidade da época. Foi colocado na Base Aérea de S. Jacinto e ainda há quem se lembre das épicas viagens para Lisboa no Citröen 2CV.

Em Dezembro de 1965, muito próximo do Natal, acabei o tirocínio na Base Aérea de Sintra e eis que me mandaram colocado para a Base da Ota, como adjunto do chefe da contabilidade. Ao apresentar-me dou de caras com o capitão Vítor Sousa. Ia ser o meu superior hierárquico. Desde logo funcionou a boa camaradagem pilónica. Eu casava a 27 desse mês e precisava de ter, mesmo que curta, uma licença para ir de lua-de-mel. Tudo ficou combinado no acto de apresentação. Só regressaria à Ota, nos primeiros dias de Janeiro.

Foi um chefe com quem aprendi que a frontalidade é a grande forma de desarmar as imensas tentativas de corrupção a que um oficial de Administração está sujeito, se quiser ser honesto. E o Vítor Sousa era honesto até à medula dos ossos! Com ele não havia oportunidade a comprar-se «gato por lebre».

Foi mobilizado para Moçambique e arrastou consigo outro antigo aluno dos Pupilos: o Janeira.

Em Lourenço Marques — hoje Maputo — comandou o Depósito de Intendência. No final do ano de 1966 estávamos, de novo, reunidos na capital de Moçambique, porque eu havia sido mobilizado.

 

Uma das várias facetas do Vítor Sousa era a sua infinita capacidade inventiva. Dou exemplos.

Na Ota, à noite, na residência que lhe estava atribuída, para aquecer a cama de casal, nos rigorosos Invernos dos anos 60 do século XX, usava o secador de cabelo da esposa; foram vários os aparelhos daquele tipo que rebentaram sujeitos ao esforço para que não tinham sido concebidos... Isto, quando, por cá não se vendiam cobertores eléctricos! Ainda aluno dos Pupilos, fez um extraordinário canhão com um tubo galvanizado... Disparava, lá isso disparava, tendo acabado por rebentar devido à má utilização de um companheiro a quem o emprestou. Em Moçambique, imaginou e desenhou dois atrelados para transporte de combustível nos aviões Nord Atlas... Prestaram bons serviços nas pistas mais improvisadas do território.

Podia contar-vos a «invenção» do automóvel de lona, mas é longa e não quero incomodar os meus leitores com coisas que, se calhar, só a mim me interessam e fazem sentido. Contudo, há aspectos que não posso omitir. Aí vai mais um.

Não vou garantir que a sua coroa de glória, em termos inventivos, tenha sido a casa que imaginou na Várzea de Sintra, mas não resisto a contar a estória, como forma de compartilhar convosco a extraordinária dinâmica deste Pilão dos anos 40/50 da passada centúria.

O Vítor Sousa, lá por volta de mil novecentos e sessenta e pouco foi aliciado a comprar, com as economias que havia feito, um terreno na zona de Sintra, mais exactamente, na Várzea, frente ao castelo. Comprou, mas não tinha dinheiro para fazer mais o quer que fosse. Além disso, vivia no bairro residencial de oficiais da Base Aérea da Ota, num tempo em que, ir de Lisboa àquela localidade, era ainda uma quase aventura. Como já deixei dito, daquela Base Aérea seguiu para Lourenço Marques — hoje Maputo — e por lá ficou alguns anos. Ao regressar foi confrontado com a realidade: tinha já uma família numerosa, mas não tinha a sua própria casa.

Imaginativo, a solução saltou que nem uma faísca em motor bem afinado! No terreno da Várzea de Sintra, mandava construir uma casa pré-fabricada de madeira, porque as finanças não davam para muito mais. Bem o pensou e melhor o fez! Quase de um dia para o outro tinha a sua «vivenda» pronta para receber a família e todos quantos lhe batessem à porta, porque, se havia algo que o Sousa gostava de fazer era de conversar... ou, melhor dizendo, ouvir-se, dando aos outros a possibilidade de alimentarem o monólogo com frases semeadas aqui e além. Pouco tempo mais tarde, acrescentou, ligado à «vivenda», mais um anexo construído com tijolo e cimento. Não tenho a certeza, mas parece-me que grande parte do trabalho foi feito com as suas próprias mãos.

Lá pelo ano de 1977 ou 1978, trabalhava eu sob as suas ordens, na Direcção de Finanças, numa bela tarde, conta-me a decisão: — Não sejas burro (forma normal e carinhosa como iniciava uma conversa com os Amigos), mas fica sabendo que vou fazer obras na minha casa!

Qual seria a ideia?!

Era simples e brilhante, como todas as que lhe inundavam a mente: cobrir, pelo lado de fora, as paredes da madeira da casa pré-fabricada com um pano de tijolo, criando, no meio, uma caixa isoladora de fibra de vidro ou corticite.

Simplesmente genial! Por fim, teria uma casa, com lareira (que já existia desde início) e com sólidas paredes de tijolo completamente isoladas, oferecendo imensa resistência ao tempo agreste da Várzea. Depois da obra concluída foi o momento de fazer uma piscina.

A máquina abriu o buraco e ele e os filhos lançaram mãos à obra, cimentando e consolidando a sua piscina. Não sei se foi toda feita pela família, mas que andaram por lá a trabucar, disso não tenho dúvidas.

Tanta coisa se poderia dizer do Vítor Sousa! Pequenas frases que encerravam verdades indiscutíveis. Lá vai mais uma estória.

Uma vez, discutia-se vagamente política — coisa à qual não prestava muita atenção, embora fosse um homem com ideais de justiça social — e eis que sai o constante «Não seja burro» antecedendo uma pergunta sob a forma de exemplo que jamais esqueci. Disse-me ele:

— Se te arder a casa e ficares sem nada, achas que alguém da tua família, logo nesse dia, te abre as portas para te instalares com a tua mulher e filhos pelo tempo que for preciso? Ou achas que algum vizinho te faz o mesmo, lá no bairro fino onde tu vives?

Claro que eu não podia achar nada, porque o Sousa não dava tempo para formular qualquer resposta! Continuou: — Pois fica sabendo que se vivesses no bairro de barracas e a tua barraca ardesse terias, de imediato, a solidariedade dos teus vizinhos. É que os pobres ajudam-se uns aos outros e os ricos e remediados cultivam o egoísmo!

Era assim o Coronel Vítor Sousa! Era esta a sua filosofia e o modo crítico como olhava para o mundo e para as pessoas.

 

Segundo creio, na Força Aérea nunca lhe foi atribuído nenhum louvor. Nem os desejava!

Se os não teve não foi porque os não merecesse, mas porque nunca se vergou para pactuar com pequenas ou grandes trafulhices financeiras. Zelava pelo dinheiro do Estado como se do seu próprio se tratasse. Era intransigente no cumprimento das Leis. Não podia, com um temperamento desta natureza, grangear ambiente para louvores, mas foi sempre reconhecido como um Homem impoluto, correcto e probo. O maior louvor que teve foi o de não ter nenhum louvor! Essa era a medalha que exibia com maior agrado. Se tivesse de ter escolhido uma divisa para definir o seu próprio comportamento, parece-me que teria sido a frase Não pactuo.

 

A morte roubou-nos, muito cedo, um Companheiro, um Amigo e um Camarada. Todavia, segundo creio, o Vítor Sousa acreditava que se os mortos não estão aqui de uma forma visível fazem-nos companhia de outras maneiras mais subtis e mais sublimes, integrando-se num Todo para nós desconhecido e pouco compreensível. Quem sabe se, neste momento, não está junto de mim a sussurrar-me ao ouvido o seu tão característico Não sejas burro?

Que, junto de todas as forças da Natureza em comunhão com todos os que desejam para o Universo a concórdia e harmonia, o «nosso» Vítor Sousa repouse em Paz.

Conflito de gerações ou má educação?

Tenho, activos, três blogs; em todos eles raramente dou resposta aos comentários que por lá queiram deixar ficar. É uma questão de princípio: cada um é responsável pelas suas opiniões e ninguém deve violentar o seu semelhante tentando alterar-lhe pontos de vista. Se eu escrevo determinada coisa é porque a aceito e a julgo verdadeira — pelo menos para mim é-o —, logo, acho que os meus leitores podem manifestar discordância, mas nem devem querer convencer-me a alterar o meu ponto de vista nem vou eu replicar para que tal aconteça em relação a quem comigo não concorda. Cada qual tem direito à sua verdade. Podemos conviver, se soubermos respeitar as convicções alheias. Mas o respeito é uma das faces de algo assaz complexo que dá pelo nome de boa educação.

Se boa educação é cumprimentar os nossos conhecidos, ajudar os ceguinhos a atravessar a rua, levantarmo-nos para cumprimentar uma senhora, dar o lugar aos mais velhos, inválidos e às grávidas nos transportes públicos, é, também, respeitar a opinião alheia, mesmo que ela provenha de alguém da nossa idade, do nosso estatuto social e económico; o contrário, será má educação.

 

Quando criei este blog fi-lo com o intuito de nele lançar algumas recordações dos meus tempos dos Pupilos. Assim, podia dar largas à minha nostalgia e não carregar as páginas do Boletim com lembranças lamechas que aos mais jovens antigos alunos nada dizem.

Faço aqui um parênteses para recordar que, nos meus trinta anos, munia-me sempre de muita paciência e bastante prazer para escutar as lembranças de velhos Pilões. Com eles, pensava eu, sempre podia ir aprendendo mais alguma coisa. Fecho o parênteses.

Acontecimentos recentes, passados no fórum Pilão XXI, levaram-me a desistir da minha intenção inicial quanto ao destino deste blog. Agora, de hoje em diante, vai servir para recordar os meus tempos de internato, os meus velhos companheiros e mestres, os oficiais, sargentos e todo o pessoal civil que pelo Instituto passou entre 1954 e 1961, mas, com pena minha, vai, também, servir para zurzir com o látego da minha palavra todos quantos eu entender que merecem tal tratamento.

Tenho sessenta e cinco anos — quase sessenta e seis — uma carreira feita na Força Aérea como oficial e não me sujeito a provas de má educação saídas dos dedos (porque foram escritas no fórum) de alguns antigos alunos que têm idade para ser meus filhos! Esses, não são, de certeza, Pilões do mesmo Pilão onde eu e outros andámos!

Não se trata de conflito de gerações — na minha opinião, claro —, mas de muita arrogância, muito atrevimento e uma tremenda falta de educação (qualquer tipo de educação!).

Não me revejo na maioria dos antigos alunos entrados nos Pupilos nas décadas de 80 e 90 do século XX. Na maioria, repito, na maioria dos que até hoje se manifestaram em troca de ideias e opiniões no fórum. A sua arrogância é manifesta e está nos arquivos daquele areópago pilónico à disposição de quem a quiser consultar. Até por aqui, neste blog já foram deixados comentários que, acobertados pelo anonimato, mas identificáveis na sua referência temporal, demonstram bem o que afirmo.

Admito como possível, embora não esteja disso convicto, que possa existir um conflito de gerações; que os antigos alunos dos Pupilos com mais de sessenta anos actualmente, vejam o mundo e a vida de uma forma bem diferente da dos que rondam agora os quase quarenta. Para nós nada foi fácil e éramos já homens feitos quando o dinheiro da União Europeia caiu em catadupas sobre o país, gerando empregos e trabalhos até para os mais inaptos. Posso admitir que as facilidades criadas na década de 90 do passado século tenham influenciado fortemente todos os que estavam, então, a sair do Instituto; a nós apanhou-nos na fase final da vida activa... já não nos modificou o comportamento. Ora, se os caracteres de todos a quem aponto o dedo foram influenciados por tais anos de abundância ilusória, é porque a sua educação era frágil, fazendo-os descambar para uma arrogância que nós, os mais velhos, na idade deles não manifestávamos. Não manifestávamos porque nos haviam ensinado, no Pilão, um conjunto de regras e valores que, pelos vistos, se perderam. O que só demonstra que a degradação da tão apregoada “excelência” daquela Casa não é recente, muito pelo contrário

Há excepções àquilo que parece ser uma regra por mim definida! Claro que há! Tenho-as encontrado nos meus contactos pessoais. Excelentes pessoas, correctas e bem educadas. A essas não se aplicam as palavras duras que aqui deixo. Sinta-se quem se deve sentir; abstenha-se todo aquele a quem a carapuça não serve.

Não me alegra a situação que descrevi, mas sei viver perfeitamente bem com ela... Deixo que se torne transparente e assim não me incomoda a existência.

Olhar à direita

 

Há cinquenta anos, ou mais, havia uma tradição entre os alunos dos Pupilos, muito curiosa e que dá bem a notícia dos valores que nos eram incutidos naquela Casa. Valores morais e cívicos, naturalmente. Mas, meus amigos, deixem que, antes de falar do tema central deste apontamento, recorde alguns pequenos detalhes que servem para enquadrar a estória.

Nos anos recuados do final da década de 40 e início da década de 50 do século passado já havia acabado o internato na 2.ª Secção do Instituto, fazendo todos os alunos a sua vida não escolar — a não relacionada com aulas — na 1.ª Secção. Quer dizer, dormíamos e comíamos em S. Domingos e recebíamos os ensinamentos dos professores na estrada de Benfica. Este simples facto obrigava a que todo o Batalhão se deslocasse de uma para a outra instalação pelo menos quatro vezes no mesmo dia. Esse trânsito fazia-se debaixo de forma, com as caixas (vulgo, tambores) a tocar lá na frente dos quatrocentos que éramos, então. Algo impossível, nos tempo que correm pelo engarrafamento automóvel que iria provocar. Mas nesses anos, em que a velocidade de deslocação era bem menor, em que ir-se da praça dos Restauradores a Benfica impunha uma viagem, as coisas apresentavam-se aceitáveis para os ocupantes dos velhos «eléctricos». Por outro lado, mesmo que já constituíssem incómodo, a ditadura encarregava-se de os obrigar a «comer e calar», porque a demora do pacato cidadão resultava, na óptica das autoridades, de, na sua frente, estar a marchar o «futuro de Portugal». Nessa altura éramos, na verdade, um dos esteios desse mesmo futuro, porque do Instituto saía gente bem preparada para enfrentar os desafios da vida, fosse nas fileiras militares — onde todos nós ingressávamos como «profissionais» ou milicianos — fosse na actividade civil, em empresas de renome, em Portugal ou nas colónias.

Pois, voltando às quatro companhias a desfilar pela estrada de Benfica rumo à 2.ª Secção, quando começávamos a entrar no átrio do edifício, o comandante do Batalhão mandava «olhar à direita». «Olhar à direita», ali, mesmo no átrio, em frente da pequena cabine do telefonista (que ficava à esquerda).

«Olhar à direita», para quê? Para quem? Que graduado estava na parede lisa?

Pois, lá figurava (figura) uma pequena placa — que na época me parecia enorme, tal a importância que, pessoalmente, lhe atribuía — de homenagem aos mortos do Instituto Profissional dos Pupilos do Exército de Terra e Mar.

As duas vezes que por ali passávamos em formatura «olhávamos à direita» e se acaso cruzávamos o átrio individualmente esgalhávamos uma continência àquela pedra negra com letras gravadas a ouro.

E, nesses tempo já distantes, eram ainda bem poucos os mortos do Instituto... Ainda tinham passado pouco mais de quarenta anos sobre a fundação! Mas nessa época os mortos mereciam-nos respeito e se por acaso algum distraído se esquecesse da continência, lá estavam os graduados para o lembrar.

A homenagem era para todos os mortos. Não era só para os ex-alunos! Nem só professores ou oficiais! Não, era para todos, desde o mais humilde serviçal ao mais distinto director. Todos os mortos que haviam ajudado a «fazer» aquela Casa, a «fazer» as gerações que nos haviam antecedido. A isto chama-se culto pelo passado e respeito por quem, pouco ou muito, nos ajudou a sermos o que hoje somos.

É raro, na actualidade, entrar no edifício da 2.ª Secção pelo átrio da estrada de Benfica, mas, quando o faço, ainda me vem cá de dentro, do fundo de mim, uma imensa vontade de esgalhar uma continência àquela pedra por trás da qual não está uma parede, mas centenas, talvez até já um ou quase dois milhares, de homens e de mulheres que, no seu dia-a-dia, silenciosamente, me (nos) ajudaram a ser Homem.

Será que, nos dias que correm, ainda se faz a continência àquela placa?